Por que o ‘Ao Vivo’ virou o único antídoto para a saturação digital
O valor real migra das telas para o "ao vivo", onde o encantamento humano é o novo ativo estratégico
Caminhar de uma venue para outra do SXSW em 2026 com todo conteúdo borbulhando dentro da cabeça é entender em tempo real que o digital deixou de ser uma janela para o mundo e virou uma janela com vista para outro apartamento. O diagnóstico que colhi nos primeiros dias desta edição do SXSW é quase um filme de distopia: a Geração Z já gasta 20% da sua vida útil olhando para telas e o americano médio checa o celular 186 vezes por dia. No painel “AI and the Brain”, ouvi uma metáfora que não me sai da cabeça: a da Tunicate, um ser marinho que come o próprio cérebro quando decide se fixar em um lugar, porque não precisa mais resolver problemas. Ao terceirizarmos nossa memória e criatividade para algoritmos, corremos o mesmo risco de uma “atrofia por desuso”. Mas foi saindo da sala de conferência e mergulhando na noite de Austin que vi onde está o resgate dessa cognição.
A conexão humana real, aquela que a gente sente no peito antes de racionalizar, é o que Jennifer Wallace chama de framework do Mattering. Ela defende que ser valorizado é uma necessidade evolutiva de sobrevivência. Vivi isso na prática ao assistir ao show da Alanis Morissette ao lado da Camila Zana, da Billboard Brasil, e dos parceiros da Diverti: Gui Marconi, Cairê, Lud e Thiago Custódio. Ali, entre músicas que marcaram nossas vidas nos anos 90 e trocas de ideias sobre o futuro do entretenimento, entendi que a nostalgia que estamos sentindo (do vinil à estética das antigas unidades da Pizza Hut) é, na verdade, a saudade de como costumávamos nos sentir: significativos e vistos. O marketing de experiência deixou de ser um puxadinho no orçamento de marketing para ser o protagonista porque ele é o único capaz de oferecer esse senso de pertencimento que o feed do Instagram jamais entregará.
Essa tese ganhou força ontem no dia 15, quando subi ao palco da Casa São Paulo para o pitch da Spons. Diante de executivos do mundo todo, sob a chancela da Invest SP e do programa SP Global Tech, apresentei como a nossa tecnologia brasileira se propõe a medir essa “ciência do encantamento”. O mercado está sedento pelo que marcas como a Porsche já sinalizam com o selo “Human Made” — o valor do que é feito por pessoas, para pessoas. Seja em movimentos como o Silent Book Club ou no modelo Love Trails da Garmin, que mistura trail running com música e natureza, a tendência é clara: o consumidor quer “skin in the game”. Ele quer ser investido e necessário, não apenas uma audiência passiva.
Austin tem esse poder de misturar o sagrado e o profano de um jeito que valida qualquer tese de networking. Assistir com o Kond as apresentações musicais na Igreja Presbiteriana foi um desses momentos de third space que o SXSW proporciona, lugares onde a conexão humana acontece longe das notificações. Essa vida noturna vibrante, que muitos vêem apenas como lazer, é, na verdade, o maior laboratório de relações e experimentações pessoais do planeta. É ali que testamos a interdependência e a confiança geracional. Enquanto os mais velhos buscam o olho no olho e a voz, os mais novos buscam a pegada digital, mas todos convergem para o mesmo desejo: o de não serem apenas números em um CRM.
Saio desses primeiros dias com a certeza de que a experiência é o novo lugar seguro das marcas. O valor de um encontro real é como o exemplo da nota de vinte dólares que a Jennifer Wallace deu na sua featured session: não importa se está amassada ou molhada pelo suor da pista de dança, o valor é intrínseco e imutável. No entanto, quanto mais o “ao vivo” brilha, mais gritante fica a falta de dados que honrem essa profundidade. No próximo artigo, vamos falar sobre como não deixar essa energia se perder no vácuo. É hora de transformar o arrepio do show da Alanis e o aperto de mão na SP House em inteligência estratégica.