ADOLESCÊNCIA

Família, Estado, escola e marcas: quem cuida das meninas?

Especialistas defendem atuação conjunta para prevenir sofrimento psíquico e promover bem-estar na adolescência

i 18 de junho de 2026 - 11h57

A mais recente Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, divulgada em março deste ano, mostrou como a saúde mental das adolescentes, principalmente meninas, está prejudicada. Elas apresentam níveis de tristeza 2,5 vezes maior que os meninos (41%, contra 16%), além de relatarem mais sentimentos e comportamentos negativos como vontade de se machucar (43%, frente a 20%), achar que a vida não vale a pena (25%, versus 12%), além de irritação e mal humor (58%, contra 27%).

Os dados destacam um cenário de alta vulnerabilidade das adolescentes no Brasil. As razões para tal são inúmeras, mas esta diferença se dá, principalmente, pelas desigualdades de gênero que começam a ser percebidas logo no início do período. Em reportagem anterior, discutimos com especialistas por que as meninas estão fragilizadas e quais são suas dores.

As respostas incluem um amplo leque de pontos que impactam a espontaneidade, segurança, liberdade e autoestima das meninas. Desde um crescente julgamento sobre sua sexualidade, à pressão estética e pressão por performance, até violências de gênero. Para Mariana Rae, especialista em saúde mental do Instituto Cactus, tratar sobre o assunto é de urgência para o futuro dessas meninas, mas para transformar este cenário, é preciso reunir esforços de múltiplas frentes.

E um dos passos, segundo a especialista, é incluir os meninos na conversa. “Muitas vezes, eles acabam perpetuando situações de bullying, por exemplo. E a forma como a saúde mental dos meninos ainda é tratada também gera sofrimento para eles, porque existe uma tendência maior de não se abrirem sobre o que sentem. Com isso, eles aprendem a lidar com o sofrimento por meio da violência ou da exclusão”, pontua Mariana.

Uma forma de promover este amadurecimento, de acordo com Natália Del Ponte de Assis, psicóloga clínica especializada em sofrimento entre adolescentes, é criando espaços de conversa, onde meninas possam compartilhar suas experiências e entender que não estão passando por essas situações isoladamente. Além disso, lugares e momentos em que meninas podem se expressar livremente são portas para o autoconhecimento, que as levam a buscar sua singularidade de forma autônoma e livre.

“O trabalho mais importante é justamente buscar a singularidade de cada adolescente: entender o que leva aquela menina a fazer o que faz, o que está buscando e tentando encontrar. Quando existe esse espaço de escuta e elaboração, pode surgir um caminho mais conectado e até mais esperançoso”, reflete a psicóloga. Além disso, como cada indivíduo lida com cada situação é reflexo de sua própria subjetividade, o que já demonstra consciência e elaboração sobre si mesmos, acrescenta Assis.

Natália Del Ponte de Assis, psicóloga clínica especializada em sofrimento entre adolescentes (Crédito: Divulgação)

Natália Del Ponte de Assis, psicóloga clínica especializada em sofrimento entre adolescentes (Crédito: Divulgação)

No entanto, todos os agentes envolvidos na vida destes adolescentes devem estar atentos para reconhecer sinais de alerta, e não diminuir ou minimizar as situações. “Às vezes, o simples fato de não desvalorizar aquilo que eles estão comunicando já faz muita diferença. E isso não significa que tudo precise necessariamente ser encaminhado para um psicólogo. Existem situações que a própria sociedade pode e deve aprender a sustentar coletivamente”, explica Natália.

Tratar em comunidade, conforme pontua a psicóloga, é entender esses problemas não como questões individuais, mas como fenômenos sociais, o que abre conversas sobre respeito, cidadania e ética nas relações. No fim, trata-se de construir ambientes seguros e acolhedores para os adolescentes, o que também inclui a internet.

“Não acho que a solução seja demonizar a internet, as redes sociais, a família, a escola ou os próprios adolescentes. O mais importante é pensar no uso que estamos fazendo desses espaços. Não é a internet em si, mas como ela está sendo usada”, afirma Assis.

Papel da família

“Eu me interesso pela adolescente que tenho dentro de casa?”. Essa é uma pergunta disparadora que a psicóloga propõe às famílias. “Há pessoas que têm dificuldade de lidar com a infância, com a adolescência, ou até com as próprias experiências que viveram nessas fases. Muitas vezes, quando o filho chega nesse momento da vida, os adultos acabam entrando em contato com a própria adolescência e percebendo que existe ali um hiato enorme, mas também algo compartilhado”, pontua Natália.

Além de uma fase biológica, existe uma construção social associada à adolescência que, por vezes, não é fácil de ser revivida por algumas pessoas. Para outros adultos, lidar com as questões da adolescência causa desconforto, seja para se deparar com questões antigas, ou para entender questões novas ligadas ao digital.

“Por exemplo, alguém pode descobrir que a filha enviou um nude e sequer saber direito o que isso significa dentro daquele contexto. Existe todo um universo adolescente que não deve ser invadido, mas que precisa ser conhecido por meio do interesse, da escuta e da pergunta genuína. Muitas vezes, existe uma tendência de idealizar o passado e dizer: ‘na minha época não tinha isso’, ‘antes era melhor’. Só que os sofrimentos e os contextos mudam, e precisamos conseguir escutar essas novas formas de sentir”, destaca Assis.

Para as especialistas, é importante que as famílias sirvam de ponto de escuta, apoio, diálogo e orientação, e que os pais também se coloquem num lugar de aprendizado junto da filha. “Quando eles conversam com os filhos e constroem uma rede de apoio dentro de casa, os jovens se abrem muito mais e conseguem trazer questões que podem ser acolhidas antes de se transformarem em um sofrimento maior ou em um adoecimento”, ressalta Mariana.

Além disso, as famílias devem estar atentas ao comportamento dos adolescentes, principalmente às mudanças bruscas. “Por exemplo, se era um jovem muito extrovertido, que conversava, dava risada, saía, e de repente começa a ficar mais introvertido, não quer mais sair, não conversa com ninguém, esse tipo de mudança exige atenção e uma conversa mais cuidadosa, porque pode indicar que algo está acontecendo”, pontua Rae.

Mariana Rae, especialista em saúde mental do Instituto Cactus (Crédito: Divulgação)

Mariana Rae, especialista em saúde mental do Instituto Cactus (Crédito: Divulgação)

A especialista do Instituto Cactus destaca outra mudança que as famílias enfrentam: conversas sobre o digital. Se, antes, elas orientavam sobre os perigos fora de casa, agora esses problemas também existem dentro do lar, mas no ambiente online. Segundo ela, os pais precisam conversar sobre o que os filhos consomem na internet e estabelecer limites de acordo com as idades, incluindo o controle parental.

Além disso, é importante que os pais também sirvam de exemplo em seu comportamento e que criem momentos fora da tela. “Não adianta apenas dizer que o filho não deve usar o aparelho se, quando ele olha para os pais, eles também estão completamente conectados e não criam espaço para outras experiências”, reforça Mariana.

Escolas e professores

“Parece existir um movimento em que as escolas esperam que os pais cuidem dessas questões, enquanto eles esperam que a escola faça isso. Mas, no fundo, a escola também faz parte da sociedade”, provoca Natalia.

“Não acho que seja função do professor tratar sozinho dessas questões, porque a escola também precisa cumprir outras funções. Mas ela é um espaço em que os adolescentes passam grande parte do dia e, por isso, acaba sendo um lugar muito importante de convivência, percepção e acolhimento”, continua.

A psicóloga destaca como a escola pode promover atividades e momentos que provoquem reflexão e incitem conversas importantes, seja a partir de produções culturais ou atividades coletivas. “Vejo a escola como mais um espaço social, assim como a família, os grupos de amigos, atividades esportivas ou qualquer outro ambiente em que esses adolescentes circulam. Ela pode ajudar a acolher e lidar com essas questões”, reforça.

Até as produções culturais são produtos importantes que servem de exemplo para despertar conversas com os adolescentes. “Muitas meninas ainda não conseguem falar diretamente sobre o que estão vivendo. Às vezes, isso aparece numa roda de conversa, vendo um filme ou por meio de produções culturais”, destaca a psicóloga.

Mariana reforça que a escola também exerce um papel socializante, para além de um espaço de ensino técnico. Por isso, é essencial que elas se sintam seguras, que a escola seja um espaço que irá escutá-las, acolhê-las e onde podem pedir ajuda. Inclusive, é dentro do ambiente escolar que os primeiros sinais de sofrimento e mudanças de comportamento podem aparecer. O professor, logo, exerce um papel importante ao reconhecer esse sinais e serve como ponte com os pais.

Para tanto, a escola deve desenvolver bases para que seus professores estejam aptos a lidar com as questões da adolescência e que o ambiente tenha políticas para acolher e atender problemas como bullying e violência. “Isso inclui, por exemplo, discutir o uso consciente das redes sociais e fortalecer políticas anti-bullying mais rigorosas, porque a gente já conhece muito bem os impactos negativos que essas práticas podem causar. Por isso, é necessário um trabalho conjunto, oferecendo apoio e treinamento dentro das escolas para lidar com adolescentes e com as questões que cercam principalmente as meninas neste momento”, conclui.

Políticas públicas para meninas

O poder público também exerce um papel fundamental para a proteção e segurança dos jovens. As mudanças estruturais dependem de uma análise profunda dos adolescentes para criar políticas baseadas em suas dores reais e atuais. Por mais que os adultos de hoje tenham passado pela adolescência, a fase agora enfrenta novos desafios que precisam ser contextualizados e que devem partir do olhar do adolescente de hoje.

“O que mudou não foram os adolescentes, foi o mundo. Eles exercem a adolescência num mundo novo, de alta exposição, de altíssimo grau de comparação, de relações mediadas por telas”, relata Rita Almeida, líder do Lab Humanidades, da AlmapBBDO. No SUS, o aumento dos casos de ansiedade entre adolescentes de 15 a 19 anos nos últimos dez anos, de 2014 a 2024, foi mais de 3.300%, enquanto para crianças de 10 a 14 anos foi de cerca de 1.575%.

Rita Almeida, head de estratégia da AlmapBBDO (Crédito: Divulgação)

Rita Almeida, head de estratégia da AlmapBBDO (Crédito: Divulgação)

Promover um ambiente seguro passa por políticas públicas que tratam sobre mobilidade, segurança, pertencimento e o direito de ir e vir no próprio bairro que também afetam os jovens. Além de iniciativas do próprio sistema de saúde (SUS), por exemplo, que precisa olhar para a saúde mental das meninas, conforme destaca Rae.

Em fevereiro de 2025, a Câmara dos Deputados protocolou o Projeto de Lei 329/2025, que busca instituir a Política Nacional de Promoção de Fatores de Proteção da Saúde Mental de Meninas, que conta com apoio técnico do Instituto Cactus. A PL se baseia em quatro pilares: uso responsável das redes sociais; criação de grupos de apoio dentro das escolas entre as meninas; designação de profissionais treinados em escolas para acolher, orientar e encaminhar denúncias de violência contra meninas; e diversificação das atividades esportivas e capacitação de professores para tornar a prática de exercícios mais inclusiva para elas.

‘Marcas úteis’

As empresas também não estão isentas de responsabilidade. Para Rita Almeida, é importante o envolvimento de todas as frentes para que os adolescentes voltem a sonhar e a pensar criticamente. Em sua pesquisa, a executiva identificou que os sonhos dos jovens estão cada vez mais concretos: ter uma carreira e estabilidade financeira. Os adolescentes deixaram de sonhar alto. Para a especialista, a realidade atual cria uma sensação de insegurança e incerteza que agrava problemas de saúde mental dos jovens.

“Hoje, todo o sistema de informação praticamente desensina o pensamento crítico e profundo, porque os adolescentes estão o tempo inteiro expostos a conteúdos rápidos efragmentados, que vêm e vão o tempo todo. Eles acabam lendo menos, jogando mais e permanecendo mais tempo nas redes sociais. E, com isso, não desenvolvem pensamento crítico da forma necessária”, reflete.

“Então, a escola, a família e as marcas têm um papel: ajudar esses jovens a desenvolver pensamento crítico. Porque eles estão numa fase em que correm muitos riscos e precisam ser preparados para analisá-los antes que as consequências sejam graves”, continua.

Em sua pesquisa, A(dor)lescência, Rita identificou que cerca de 63% dos adolescentes dizem não se identificar com a comunicação das marcas atualmente, e isso ocorre por dois motivos: muitas marcas não escutam e prezam apenas pela performance. “Os adolescentes trabalham muito com a ideia de ‘marca útil’, aquela que está junto com eles, seja nos momentos de prazer ou nos perrengues. Eles querem sentir que podem recorrer à marca, que ela realmente está presente”, destaca.

Outro ponto que os adolescentes valorizam são marcas que sabem contar histórias. “Os adolescentes gostam de histórias em que eles próprios são protagonistas e têm um papel importante na resolução dos conflitos apresentados, muitas vezes fazendo coisas que os adultos não conseguiriam fazer”, ressalta Almeida. A líder cita os exemplos das séries que conseguem se conectar bem com esta audiência por tratar de temas importantes ao mesmo tempo em que contam histórias.

O humor é outra ferramenta que conecta com esta audiência. “Diante de toda essa questão de ansiedade, depressão e saúde mental, os adolescentes valorizam muito o bom humor, a graça e o alívio proporcionados pela zoeira entre amigos, algo muito distante do bullying e que tem mais relação com intimidade e afeto”, reflete Rita.

Para a especialista, as marcas devem fazer mais perguntas do que afirmações e trazer mais exemplos do que discursos prontos. “Quando a gente fala sobre adolescentes, estamos falando sobre o futuro. Eles ainda vão passar os próximos 70 ou 80 anos construindo os adultos que serão. Então, quando nos dizem que gostam de uma linguagem mais útil, de boas histórias e de um humor inteligente, estão falando também sobre o futuro da comunicação”, destaca.

Portanto, é papel das marcas pensar em uma comunicação que seja representativa, repense estereótipos de gênero, endereça as desigualdades e que valorize as mulheres. “Quando vemos avanços no fechamento desses gaps entre homens e mulheres, isso também fortalece as meninas de hoje. Mesmo que elas ainda não sintam diretamente esses impactos, passam a conseguir imaginar um futuro mais igualitário e a sonhar com mais possibilidades”, pontua Mariana.

Rita Almeida deseja que os movimentos sociais coloquem cada vez mais luz sobre a diferença de tratamento que as meninas recebem: elas ainda costumam crescer com medo, são educadas de maneira diferente e vivem situações de risco.

“E, por parte dos adultos, existe uma contribuição muito importante que podemos dar: ouvir os adolescentes, tanto meninos quanto meninas. Porque essa sensação de não serem ouvidos é justamente o que gera muitos desses comportamentos. Se começarmos a a prestar mais atenção neles, validar mais o que sentem, acreditar que dali pode sair coisa boa, isso já é um grande primeiro passo”, conclui.