Regina Augusto lança livro sobre comunicação, mercado e poder
Em nova obra, jornalista transforma mais de três décadas de carreira em reflexão sobre a indústria

Regina Augusto lança livro sobre comunicação, mercado e poder (Crédito: Divulgação)
Aos 25 anos, em 1996, Regina Augusto, diretora executiva do Cenp e curadora da plataforma Women to Watch, chegava ao Meio & Mensagem para cobrir a indústria da comunicação, depois de passar pela CBN e pela Rádio Trianon. Mas foi antes disso, como repórter da extinta Folha da Tarde, que um acontecimento marcou sua maneira de olhar para o mercado.
Na virada de 30 de junho para 1º de julho de 1994, ela cobriu a chegada do Plano Real. Naquela noite, percorreu São Paulo ao lado de um fotógrafo e de um motorista para conversar com os primeiros brasileiros que sacariam as novas notas. A experiência se tornou uma das cenas que a ajudam a explicar sua visão aguçada sobre a indústria. Ela diz que busca observar as mudanças concretas na vida das pessoas antes que ganhem nomes, gráficos ou diagnósticos.
Esse olhar de Regina sobre as transformações da sociedade e da comunicação no Brasil é a base de seu novo livro, Presente Mais-que-Perfeito: Ensaios sobre Comunicação, Mercado e Poder, publicado pela Editora Afluente. O lançamento acontece na próxima terça-feira, 29, na Mula Preta, em São Paulo.
A obra poderia ter sido um livro de memórias ou previsões. Afinal, mais de três décadas dedicadas à comunicação dariam a Regina material para isso. Mas ela escolheu uma narrativa que navega entre passado, presente e futuro para olhar para o tempo, seja o de sua carreira, da vida pessoal ou da própria indústria.
Entre o passado e o futuro
Os 27 capítulos de Presente Mais-que-Perfeito são divididos em três movimentos, “Ontem”, “Hoje” e “Amanhã”. Embora sejam marcadores cronológicos, a narrativa não é linear. As vivências de Regina aparecem, por exemplo, à medida que temas da indústria e da sociedade se sucedem, em um fluxo de pensamento que atravessa diferentes tempos.
A carreira da jornalista, ainda assim, está em toda parte. Foram 19 anos no M&M, onde foi repórter, editora e diretora editorial. Em 2015, fundou a Gume e, posteriormente, foi para Ogilvy, onde assumiu a direção geral de relações públicas e influência. Em 2022, chegou à direção executiva do Cenp e, dois anos depois, à docência na FAAP. Regina é, ainda, conselheira do Observatório da Diversidade na Comunicação (ODC).
É uma posição incomum para observar a mesma indústria. Regina passou por redação, gestão, empreendedorismo, comunicação corporativa, entidades associativas e pela academia. Acompanhou as mudanças da publicidade, a chegada da internet comercial no Brasil, a ascensão das plataformas e, agora, da inteligência artificial. Testemunhou o avanço e o retrocesso da agenda de diversidade e inclusão. Viu a transformação da relação de poder entre marcas, mídia e indivíduos.
Se em “Ontem”, Regina revisita mudanças que vão da estabilização econômica dos anos 1990 à pandemia, em “Hoje”, observa um presente marcado por lA, crise de confiança, hiperfragmentação da atenção e novas disputas de poder. Já em “Amanhã”, em vez de tentar prever o que virá, ela convida outros olhares diversos a pensar em caminhos possíveis para que o futuro volte a ser imaginável. Entre os entrevistados estão a jornalista, pesquisadora e professora Rosane Borges; Eduardo Saron, da Fundação Itaú; David Bersoff, do Edelman Trust Institute; Felipe Nunes, da Quaest; e a liderança indígena Alice Pataxó.
O tempo é agora
“Mais-que-perfeito”, na gramática, é aquilo que aconteceu antes de outro acontecimento passado. No livro, a expressão ganha outra camada ao deixar explícito que o passado ainda interfere no presente. O agora carrega expectativas antigas, promessas não cumpridas, estruturas que deveriam ter ficado para trás e futuros que não chegaram.
Por isso, o livro não tem como tema central o que Regina viu e cobriu sobre a indústria, mas como ela aprendeu a identificar movimentos por trás dos acontecimentos ao longo do tempo. Ao final, ela define o repertório acumulado como uma “bússola imperfeita”. Não para prever o caminho, mas para encontrar uma direção possível.
O tempo passa e Regina o atravessa por diferentes ângulos e posições. E é desse lugar implicado, empático e coletivo que ela escolhe observar a comunicação, em um convite ao mercado a adotar o mesmo olhar e desenhar novos caminhos para o futuro de negócios, marcas e vivências.