O que uma internação me ensinou sobre parar
Sete dias de hospital podem parecer uma interrupção da vida, mas também podem ser um raro encontro com ela

(Crédito: Adobe Stock)
Entre as paredes brancas de sete dias de silêncio hospitalar, desmoronou-se a armadura que carreguei por anos: a crença de que a verdadeira força reside na capacidade infinita de suportar os pesos da vida. Ali, quando o tempo deixou de ser medido por reuniões, apresentações e entregas, comecei a entender que, na essência, a resiliência também pode começar no instante em que nos permitimos parar, acolher a vulnerabilidade e aceitar que não somos nós que conduzimos tudo.
Há profissões que seguem o ritmo de agendas. Reuniões emendadas, viagens marcadas com meses de antecedência, discursos que precisam estar prontos antes dos eventos, projetos e decisões que não podem esperar. Foi esse ritmo que ficou suspenso quando precisei ser internada, no início de agosto, para tratar de uma celulite facial que deixou meu rosto muito inchado.
Por sete dias, meu relógio foi outro. Não havia reunião das nove, apresentação das onze, entrevista à tarde, projeto ou almoço com um parceiro. Havia o horário da próxima dose de antibiótico, a revisão de um exame, a avaliação médica de um especialista, a espera por uma resposta.
O diagnóstico, porém, é só parte da história. A outra é o que acontece com alguém cuja vida é organizada em torno de entregas quando o único compromisso possível passa a ser esperar. Olhando de fora, internar-se é um pequeno rito de passagem involuntário. Deixei, por alguns dias, o papel social que normalmente ocupo. Não era mais a diretora que toma decisões, nem a executiva que representa a empresa em público, nem quem organiza a logística dos outros. Eu era, simplesmente, paciente. É uma mudança de identidade que desloca o tempo inteiro de referência. O hospital tem seu próprio relógio, e ele não negocia com a agenda de ninguém.
O rosto que incha, a pele que inflama, a dor que muda de lugar, a dificuldade de reconhecer a própria imagem no espelho: tudo isso passou a ocupar todo o meu campo de atenção. Mas talvez o mais difícil não tenha sido a dor em si, foi a incerteza.
Ela nasce do intervalo entre a pergunta e a resposta. O antibiótico está funcionando? Pode voltar? A medicina oferece respostas extraordinárias, mas convive, ainda, com zonas de espera que pesam emocionalmente. Mesmo cercada de tecnologia, exames e especialistas, é a experiência do medo que a gente enfrenta, no fim, sozinha.
Mesmo assim, não estive só. Por coincidência, minha internação aconteceu justamente na semana do nosso Citizen Day, um dos momentos mais significativos do ano para a minha área, dentro do mês dedicado ao voluntariado. É um dia em que os colaboradores do grupo L’Oréal no Brasil se mobilizam em ações voluntárias de impacto social e ambiental. Eu devia estar lá, mas não pude.
Enquanto estava no hospital, recebi fotos, mensagens e uma cartinha linda assinada por pessoas do time que participavam das ações. Aquilo me fez pensar em uma coisa simples e poderosa: passamos tanto tempo cuidando de pessoas que, às vezes, a vida precisa nos mostrar que também podemos ser cuidados.
Receber cuidado é uma experiência muito diferente de falar sobre cuidado. É uma espécie de rendição. É aceitar que não somos nós que resolvemos tudo, que não somos nós que conduzimos tudo, que não somos nós que sustentamos tudo. É confiar nos médicos, no time que continua tocando os projetos enquanto estamos ausentes.
No hospital, existe apenas a tarefa mais básica, e, para mim, uma das mais difíceis: me permitir ser cuidada. Sete dias de hospital podem parecer uma interrupção da vida. Para mim, se transformaram num raro encontro com ela.