ESG

Como o propósito pode mudar os rumos de uma carreira

Mulheres reveem ideia de sucesso ao incluir impacto e regeneração na mesma conta de crescimento, lucro e escala

i 28 de setembro de 2026 - 9h31

Como podemos ser bons ancestrais?” é a pergunta que organiza o livro Como ser um bom ancestral: a arte de pensar o futuro num mundo imediatista, do filósofo Roman Krznaric, que investiga nossa capacidade de pensar além do horizonte imediato. Ele chama de “tirania do agora” a pressão de ciclos cada vez mais curtos, do resultado trimestral à recompensa instantânea, e recupera exemplos de sociedades que planejaram obras e instituições para durar além da vida de quem as iniciou.

Transportada para o mundo dos negócios, a pergunta alcança decisões bastante concretas: que empresas vale a pena construir, de onde vem o dinheiro que as financia, quais os impactos de uma cadeia produtiva, quem participa do valor criado e o que permanece depois que uma liderança deixa seu posto.

Nas histórias reunidas nesta matéria, essa perspectiva aparece em escolhas profissionais e empresariais tomadas em circunstâncias muito diferentes. São lideranças que administram crescimento, lucro, reconhecimento e ambição, ao mesmo tempo em que incorporam propósito, impacto e responsabilidade à maneira como decidem. Algumas mudaram de setor ou de função, outras permaneceram dentro das mesmas organizações, assumindo novas responsabilidades.

Há trajetórias interrompidas, mudanças de rota, concessões e decisões tomadas sob pressão. Uma palavra reaparece em vários momentos: coerência. Ela surge como tentativa de manter alguma continuidade entre aquilo que essas mulheres passaram a considerar importante e a maneira de lidar com trabalho, dinheiro e poder.

Essas escolhas acontecem num momento em que a sustentabilidade já interfere de maneira mais concreta na circulação do dinheiro. Uma pesquisa divulgada em 2026 pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, a Anbima, em parceria com o Datafolha, mostra que 47% das gestoras de recursos, empresas responsáveis por administrar fundos e carteiras de investimento, já submetiam mais da metade dos ativos sob gestão a avaliações ambientais, sociais e de governança em 2025. Em 2018, eram 27%. Quatro em cada dez dessas gestoras disseram ainda ter excluído ou deixado de investir em algum ativo nos 12 meses anteriores por razões ligadas a critérios ESG.

Andréa Álvares, head de sociobioeconomia da fama re.capital e presidenta do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos, passou boa parte da vida profissional dentro de algumas das empresas mais conhecidas do mundo. Trabalhou na P&G, fez carreira na PepsiCo, comandou negócios e chegou à alta liderança da Natura, onde reuniu responsabilidades sobre inovação, marca e sustentabilidade. Durante quase duas décadas, conta, o crescimento profissional veio como consequência de um trabalho do qual gostava e da disposição para assumir responsabilidades maiores.

(Crédito: Divulgação)

Andréa Álvares, head de sociobioeconomia da fama re.capital e presidenta do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos (Crédito: Divulgação)

A bússola começou a se mover por volta de 2006. Andréa estava expatriada, havia acabado de ter a terceira filha e acompanhava na PepsiCo a introdução da estratégia “Performance with Purpose” (desempenho com propósito), liderada pela então CEO Indra Nooyi. Passou a prestar mais atenção à razão de existir dos negócios, aos efeitos do consumo e à possibilidade de incorporar outras variáveis às decisões empresariais. A ida posterior para a Natura foi uma busca deliberada por maior alinhamento entre aquilo que pensava e o trabalho que realizava. Sua saída, no entanto, em 2022, foi “abrupta” e a deixou “sem chão”. “Foi uma saída difícil e não planejada por mim, que me fez pensar profundamente sobre onde eu queria alocar minha energia vital dali para frente”, conta.

Abriu a Camomila, voltada para projetos de regeneração em cadeias alimentares, começou a atuar em conselhos e passou a trabalhar com investimento de impacto. Hoje, lida diretamente com a questão que já atravessava sua trajetória: para onde o dinheiro vai. “Pra onde o dinheiro flui é o que determina os resultados que vemos no mundo”, afirma.

Nesse processo, Andréa se aproximou de referências que discutem outras formas de prosperidade. Uma delas é a linguista sueca Helena Norberg-Hodge, fundadora da Local Futures, organização que há décadas defende economias mais ligadas aos territórios, às comunidades e às consequências locais das decisões econômicas. “Há outros caminhos possíveis daqueles que nos fizeram acreditar que existiam”, diz.

Nova régua

A busca por uma nova régua de sucesso ganha contornos diferentes na trajetória de Fernanda Ribeiro, cofundadora e CEO da Conta Black. A executiva cresceu em uma família de funcionários públicos e entrou no mundo corporativo por acreditar no modelo conhecido de promoções sucessivas, benefícios, reconhecimento e uma escalada profissional em direção ao “topo”. Quando trabalhou numa companhia aérea, viajava com pouco ou nenhum gasto e tinha um emprego que muitas pessoas consideravam excelente. Ela mesma admite que aceitou a lógica de chegar mais longe “custando o que custasse”, inclusive a saúde.

Fernanda Ribeiro, CEO da Conta Black (Crédito: Divulgação)

Fernanda Ribeiro, CEO da Conta Black (Crédito: Divulgação)

Depois de um burnout, Fernanda decidiu pedir demissão e fazer um ano sabático, mas descobriu que não tinha reservas suficientes e a saída só se concretizou quase um ano depois. Seu passo seguinte foi aceitar o convite para participar da criação da AfroBusiness, rede voltada para conectar profissionais e empreendedores negros e gerar oportunidades de trabalho e renda.

Foi nesse contato com pequenos negócios que um problema se tornou recorrente: muitos empreendedores não tinham conta bancária e, mesmo entre os bancarizados, o acesso ao crédito era raro. A experiência aproximou Fernanda de uma questão que acabou levando-a a empreender, criando a Conta Black, fintech voltada à inclusão financeira da população negra. Agora, Fernanda diz que se sente responsável por “segurar a porta” que um dia abriram para ela, para que outros também possam entrar.