A invasão do fãs: o colapso da quarta parede e a tomada do palco

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A invasão do fãs: o colapso da quarta parede e a tomada do palco

A era da participação dos fãs chegou. Quanto mais eles conseguem, mais eles querem. E eles também querem estar no palco


27 de março de 2018 - 18h30

Edward Sharpe & The Magnetic Zeroes quebrando a quarta parede e se misturando ao público num show no Rio (foto: Eduardo Magalhães)Dos coretos de antigamente às arenas gigantes de hoje, a essência de um show permanece intacto.

O futuro da música ao vivo já chegou. É o mesmo de sempre: um grande talento, com grandes canções e capacidade de criar performances incríveis..

Isso nunca mudará.

A novidade é que a era da Interação com os fãs começou. E isso está mudando totalmente a forma como o público participa dessa experiência tão poderosa que é um show de música.

As marcas, que estão em contato com fãs e o universo da música através de campanhas publicitárias, ativações e patrocínios, estão despertando para o fato de que os fãs hoje são muito mais do que espectadores.

Quem tratá-los passivamente e não entender que a plateia é apenas um dos lugares onde eles estão, perderá a oportunidade de criar uma conexão verdadeira com quem está experimentando a sua paixão pela música de maneira cada vez mais intensa.

Talvez os fãs queiram mais do que simplesmente ficar de pé assistindo a um show. Pode ser que eles queiram subir ao palco e dividi-lo com seus ídolos.

Há muito espaço para potencializar a interação dos fãs com a música ao vivo. Claro, a oferta hoje é mais sofisticada. Equipamentos de luz, alto-falantes poderosos, telões jumbo, luzes de led e outras pirotecnias são os adornos que enriquecem a experiência ao vivo (embora alguns argumentem o contrário).

Porém, ir a um show ainda é quase como assistir uma velha TV de tubo: o público de frente para uma banda “contra uma parede” em um palco.

Em vez de assistir passivamente a um show, os fãs poderiam se tornar mais ativos. Parar de apenas olhar para o palco e mergulhar mais na onda da banda.

As mudanças já estão em curso. Primeiro, os palcos foram redesenhados para aproximar os artistas da plateia; depois, essa interação com os fãs foi redesenhada em inúmeros formatos, de maneira cada vez mais profunda. Agora a coisa pode caminhar para um futuro em que os fãs realmente subirão no palco e tocarão as músicas.

Parte 1: evolução dos palcos

Já houve experimentos para desafiar o modelo convencional dos concertos musicais. O U2 experimentou a percepção de profundidade em sua turnê em 3D de 2007, e foi adiante em 2009, quando realizou uma turnê “360°”.

Aproveitando a configuração da arena, o U2 deu aos fãs a chance de cercar a banda e assistir o show de diferentes ângulos diferentes (ou pelo menos de um ângulo incomum, uma vez que seria difícil para uma mesma pessoa caminhar e verificar mais de uma perspectiva).

O resultado final foi semelhante ao que os Beatles fizeram na década de 60 (mesmo que não tivessem essa intenção). Desde o fim dos anos 80, Def Leppard, Metallica (que também estreou o pit para fãs), Spice Girls, Britney Spears, Dixie Chicks e outros fizeram uso do teatro em formato de arena.

O Flaming Lips utiliza fãs no palco como uma espécie de adereço humano há anos. Em 2007, o Foo Fighters usou um palco que girava a banda ao longo do show e causava praticamente o mesmo efeito.

Os tipos de interação, com os artistas procurando surpreender os fãs, foram se intensificando, e das mais variadas formas: houve as  bolas de LED sincronizadas da Arcade Fire em 2011 e o holograma de Tupac Shakur em 2012, ambos no Coachella (uma turnê de holograma do Tupac foi considerada na época, mas nunca aconteceu).

O “último” show do LCD Soundsystem, também em 2011, gerou muitos eventos de transmissão ao vivo em todo o mundo.

Edward Sharpe & The Magnetic Zeros muitas vezes quebram a quarta parede dos shows e levam os fãs ao palco para que toquem com eles e contem histórias. Girl Talk é mais radical: deixa o palco aberto para praticamente qualquer um.

Já o canal de música eletrônica Boiler Room planeja simplesmente abrir uma casa de shows customizada para realidade virtual.

Mesmo assim, todos esses esforços para diminuir a distância dos fãs ainda são vias de mão única, focados em aumentar o público, mas sem muitas maneiras de permitir aos fãs interagirem mais diretamente.

O mercado da música sabe disso, e oferece aos fãs oportunidades para se aproximar ainda mais dos artistas. Shows de cruzeiros, como The Weezer Cruise ou Coachella SS dão chance ao público de se enturmar com os músicos, ver seu artista favorito sendo ele mesmo. À medida que o navio cruza o mar, você os acompanha servindo frutas para o público, relaxados, fazendo shows íntimos, sem toda a pompa que geralmente os rodeia.

Em uma época em que a expressão “o fã em primeiro lugar” se tornou regra no universo da música, é uma surpresa que tão pouco tenha sido feito até agora no espaço ao vivo. Os fãs ainda recebem mais do mesmo, com poucas mudanças.

Há outras experiências, como meet & greet e passagens de som privadas (que, às vezes, são percebidas como simples ganância do artista) e até escolha do repertório de shows vêm sendo testadas (algumas de forma bacana, como na turnê Wheel of Fortune, do Yo La Tengo, em 2010).

Ainda assim, não é o suficiente. Porque, no fundo, todos esses experimentos ainda tratam os fãs como meros espectadores.

Parte 2: interação do fã

Vá a um show de rock e você provavelmente verá um fã na grade segurando um cartaz onde se lê: “deixe-me tocar/cantar [coloque o nome de uma música aqui] com vocês”. O que poderia criar um vínculo maior com sua banda favorita do que estar no palco com eles?

Às vezes funciona. Um fã é escolhido pela banda, é convidado a realizar seu sonho e vive um momento mágico. Os outros fãs, deixados de pé na multidão, sentem- se bem. O cara no palco os representa: “um de nós” chegou lá. Mas todos sabem que isso não acontece sempre, muito menos com todos.

Para aqueles que não conseguem, há o bom e velho karaokê. Ou a oportunidade de tocar ou gravar uma versão cover com os amigos. Embora isso seja divertido, geralmente não há aplausos do público ou muitos colegas para compartilhar esses momentos.

Lentamente, os fãs estão tomando o controle. Em 2006, os Beastie Boys deixaram nas mãos do público as câmeras que registraram o DVD ao vivo “Awesome; I Fuckin ‘Shot That! “realizado inteiramente com imagens geradas por fãs.

Em 2012, Beck publicou “Song Reader”. Em vez de um álbum regular, as composições vieram em formato de livro. Todas as partituras das 20 músicas foram impressas, deixando para os fãs a tarefa de trazê-las à vida. A balada de ukulele “Old Shanghai” tornou-se um sucesso no YouTube.

A plataforma de vídeos, por sinal, permitiu aos fãs se transformarem eles próprios em ídolos, seja por mérito ou pura obra do acaso. Uma maneira de aproveitar um pouco da fama do seu ídolo é publicar vídeos tocando seus sucessos junto com eles.

Ao mostrar suas habilidades musicais e compartilhar seus conhecimentos, esses fãs ganham status na comunidade, e passaram a ser percebidos como especialistas.

Os canais de covers de bateria, por exemplo, têm muitos seguidores. Esses músicos amadores transformam um instrumento complexo em uma experiência de aprendizagem visual e auditiva. Isso alimenta a curiosidade do fã e preenche os espaços em branco para outros bateristas.

Meytal Cohen (1 milhão de assinantes) e Matt McGuire (360 mil assinantes) são dois bons exemplos. Seus vídeos para as “Forty Six & 2” do Tool e “The Do not Let Me Down” (Illenium Remix) do Chainsmokers alcançaram 3 e 5 milhões de visualizações, respectivamente.

Além dos números lisonjeiros, quem sabe, talvez, seus ídolos fiquem sabendo, vejam seu vídeo e te mandem um alô.

Em 2015, mil fãs italianos do Foo Fighters se reuniram em Cesena para tocar um dos seus maiores sucessos, “Learn to Fly”, na esperança de convencer a banda a tocar em sua cidade. E eles tocaram. Como o Flautista de Hamelin, eles usaram suas guitarras para atrair a banda para Cesena e tiveram sua voz ouvida.

O ‘direct-to-fan’ já é uma realidade. Interferir no planejamento de uma turnê e exigir que um artista venha à sua cidade está se tornando cada vez mais comum.

Empresas como Queremos!WeDemand (nota de esclarecimento: o autor do texto é sócio-fundador de ambas), SoFar Sounds e MyMusicTaste se propõem a ajudar os artistas a se conectarem com seus fãs. Ao dar aos fãs uma voz, eles ajudam as bandas a mapear suas turnês e encontrar novos mercados.

Artistas – especialmente os que estão em ascensão – ouvem seus fãs. Ao tocar em diferentes formatos, eles podem redefinir o formato ao vivo, reconfigurando-o a maneira como são organizados.

Quando se trata de engajamento de fãs, a indústria de games geralmente está adiantada. Eles mexem com alta tecnologia e isso os torna uma comunidade superconectada. É a interação que impulsiona os jogos. É sobre isso que eles são.

Se você se destacar jogando um desses games, seus vídeos compartilhando dicas e truques podem transformá-lo em uma estrela online. Não é coincidência a Amazon ter comprado o site de transmissão de videogames ao vivo Twitch por US$ 970 milhões. Os canais de jogos possuem o maior número de seguidores online.

Um excelente exemplo do encontro dos mundos dos games e da música, o Guitar Hero (assim como o Rock Band) conecta fãs e a música que eles amam de uma maneira única. Ao permitir aos jogadores tocarem com sua banda favorita por meio de um simulador, gerou lucros para a indústria da música e aumentou a venda de canções – o que já era uma tarefa difícil na época do seu lançamento.

O game teve seu pico entre 2006 e 2009. Com ajustes nos controles e nos gráficos, 2015 viu o lançamento do Guitar Hero Live: as imagens ao vivo, do ponto de vista do guitarrista principal, davam de fato a sensação de se estar tocando junto com a banda.

Parte 3: fãs no palco

Olhando em retrospecto, é claro que o espaço físico pode ser repensado. A maneira como um fã vê e interage com um show também pode ser expandida.

Os fãs querem fazer parte do espetáculo. A experiência unidimensional de assistir uma apresentação, por melhor que seja, pode ser aprimorada. A profundidade total de uma casa de shows, com todas as dificuldades que isso traria, ainda não foi totalmente explorada.

Há muitas maneiras de fazer isso, evoluindo com as simulações de games, criando experiências de realidade virtual e palcos desenhados para permitir mais proximidade, tudo  os fãs podem participar diretamente do show.

Ao contrário dos arquivos de música especificamente desenvolvidos para a experiência do Guitar Hero, uma apresentação ao vivo tem um número limitado de canais para cada instrumento. E eles podem ser silenciados no sistema geral de som, ou em fones de ouvido, com um toque de um botão.

Um fã poderia assistir a um show em uma sala especial enquanto toca guitarra, baixo, bateria ou canta como se fizesse parte da banda.

Silencie um canal, toque junto com os restantes e você pode ser Keith Richards, Mick Jagger, Ron Woods ou Charlie Watts (não, você não pode, mas você entendeu).

Isso pode ser feito sem incomodar ninguém (membros da banda ou outros fãs). A banda não precisa fazer nada diferente do que eles já fazem. Eles tocam suas músicas e os fãs tocam junto.

Pode ser um ambiente único onde os fãs fazem fila para tocar, enquanto os artistas se apresentam no palco logo em frente. Ou poderiam ser diversos ambientes separados, com diferentes pessoas tendo o mesmo tipo de experiência ao mesmo tempo, sem interferir entre si.

Dê um passo adiante e estes ambientes podem fazer parte do palco. As bandas podem pensar em arranjos especiais para incluir a participação dos fãs em partes específicas das músicas. Criar um momento especial em que todas as guitarras e baixos extras soem nos alto falantes do show com o resto da banda.

Uma experiência semelhante também poderia acontecer em casa, através de equipamentos de realidade virtual.

Nesse formato, a barreira é inicial seria ser capaz de tocar um instrumento ou uma pickup. Mas isso também pode ser resolvido com tecnologia. O disco-aplicativo “Biophilia”, da cantora islandesa Björk, ofereceu ao ouvinte a chance de tocar e interferir nas músicas, mesmo que você não soubesse nada a respeito de tocar um instrumento.

Há uma nova geração de artistas já alinhados com as diferentes dinâmicas entre seus fãs, seu trabalho e si mesmos. Talentos online que surgiram através das interações diretas com seu público.

Para eles, envolver-se com os fãs e deixá-los ter uma voz ativa é apenas o dia-a-dia da promoção do seu trabalho. Indo aonde o povo está e se apresentando em diferentes tipos de espaço, eles redefinem a forma como os shows ao vivo são realizados.

Esqueça o palco. As mudanças podem ir além disso. Os artistas em ascensão estão reinventando o papel do fã.

Se na música essa proximidade ainda parece uma realidade distante, é possível encontrar paralelos em outras áreas. No surfe, por exemplo. É um dos poucos esportes onde qualquer um pode desfrutar exatamente o mesmo espaço que os profissionais e, não raro, compartilhá-lo com eles. Isso não acontece no futebol ou no tênis.

Qualquer um pode surfar em Pipeline (desde que tenha habilidade) e remar, lado a lado, com Kelly Slater. Faz parte da mística do esporte. Da mesma forma que um surfista aleatório leva sua prancha para o Havaí, um fã de música pode levar seu próprio instrumento para um show.

Com os fãs querendo participar diretamente do espetáculo, as casas de show devem ser repensadas em busca de soluções técnicas para permitir essas interações.

A era da participação dos fãs chegou. Quanto mais eles conseguem, mais eles querem. E eles também querem estar no palco.

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