Opinião: Somos todos escorpiões
A natureza obcecada não admite abandonar um trabalho antes da perfeição, mesmo diante das mais adversas condições
Por Mauro Cavalletti (*)
O Prêmio Escorpião era uma tradição na Mullen, agência baseada em Boston, onde passei meu último ano nos Estados Unidos. Diferentemente dos prêmios que as agências normalmente oferecem para seus melhores funcionários, reconhecia aqueles cuja atitude e ética profissionais garantiam a entrega de trabalhos excepcionais, mesmo diante das mais adversas condições. Um prêmio para aqueles cuja natureza obcecada não admitia abandonar um trabalho antes da perfeição.
O prêmio é inspirado em uma fábula que diz mais ou menos o seguinte: um escorpião se encontrava à beira de um rio, matutando sobre a impossível travessia, quando uma tartaruga aproximou-se. O escorpião, percebendo o pavor nos olhos da tartaruga, propôs um trato. Ela o levaria nas costas até o outro lado e ele pouparia sua vida.
Conhecendo a fama letal do proponente, a proposta foi recusada. Ele então argumentou que jamais a mataria na travessia, pois inevitavelmente morreria junto, finalmente convencendo a tartaruga. Lá pelo meio do rio, a cabeça erguida da tartaruga tornou-se cada vez mais irresistível e o escorpião num impulso incontrolável cravou seu ferrão no pescoço da companheira de viagem. A tartaruga indignada gritou enquanto afundava: está louco? Vamos morrer os dois! Ao que o escorpião respondeu: não consegui evitar, esta é a minha natureza.
Nossos escorpiões eram os mais resilientes, os mais detalhistas, os mais insistentes, os mais incansáveis, os que não desistiam enquanto o trabalho não fosse tudo aquilo que sonhávamos fazer. Aqueles que, afinal, tornavam nosso trabalho especial. Eles simplesmente não podiam deixar de fazê-lo, era da sua natureza.
A Mullen tem uma das melhores histórias de virada de mesa que já vivi. Em sua vida passada, ocupava um quase-castelo numa floresta no subúrbio de Boston, parecido com aquela escola para mutantes do Prof. Xavier dos X-Men. Em apenas alguns anos de transformação, a agência foi deixando a cultura conservadora para trás e passou a construir campanhas integradas surpreendentes, atendendo, já de um escritório no centro de Boston, marcas como Google, Zappos e Jet Blue. Quando cheguei, já estávamos na lista das dez mais inovadoras da Fast Company e atraíamos talentos de todo lugar. Em pouco tempo, formávamos um grupo considerável de escorpiões das mais diversas linhagens.
Em ambientes integrados, você sabe, há todo tipo de escorpiões — o escorpião Madman, o escorpião superhacker, o escorpião willywonka, o escorpião obiwankanobi e por aí afora, todos fundamentais para que a mágica aconteça. Integração requer equipes com mais especialidades, muito além das duplas, trabalhando em estruturas mais horizontais que o tradicional. Parece simples, mas quebra completamente a hierarquia tão preservada do nosso negócio.
Basta um escorpião rei-da-cocada ferroar um escorpião jovem-nerd, por confundi-lo com uma tartaruga, que o trabalho afunda e tudo volta ao zero. E quem pode culpar o nobre escorpião por cumprir o seu destino no meio da travessia, uma vez que seu padrão de comportamento alfa foi cultuado por tantos anos?
Porém, o segredo numa cultura onde todos os pontos de vista são importantes é conseguir que o trabalho fique genuíno, novo, autêntico, enquanto se mantêm vivos todos os escorpiões. É por isso que colaboração, uma palavra surrada no dicionário criativo, é tão importante nas culturas de integração. Surrada, mas que muda todo o contexto. Aí está a tensão da nossa história: vivemos um paradoxo no meio da travessia.
No mundo dos escorpiões falamos muito pouco das tartarugas, embora elas existam às pencas em nosso ofício. Tem lugar em que até o elevador é lento, mas não conheço nenhuma cultura criativa com um prêmio tartaruga, por motivos óbvios. De uma maneira ou outra, nessa travessia somos todos escorpiões.
A gente se vê do outro lado.
*Mauro Cavalletti é chief integration officer da JWT
