ESTRATÉGIA

Jim Louderback: “A viralização orgânica acabou”

Editor e CEO da Inside the Creator Economy analisa como a IA vai inaugurar uma nova era da criação de conteúdo

i 27 de maio de 2026 - 16h01

Ex-CEO da VidCon e atual editor e CEO da Inside the Creator Economy, Jim Louderback acredita que a mídia está prestes a entrar em uma nova fase. No palco do ProXXIma, o executivo dividiu a evolução do consumo de conteúdo em três grandes eras.

Jim Louderback, no ProXXIma 2026 (Crédito: Máquina da Foto)

Jim Louderback, no ProXXIma 2026 (Crédito: Máquina da Foto)

No modelo tradicional de mídia, batizado por Louderback de “era dos guardiões”, o conteúdo e a publicidade eram criados para públicos específicos e dependiam dos publishers. Ou seja, para que um texto, um vídeo ou uma música circulassem era preciso passar pelo controle dos veículos, sejam eles jornais, emissoras de TV ou gravadoras.

Em meados de 2005, a ascensão das plataformas tira esses guardiões de cena e dá início à “era do YouTube” permitindo que qualquer pessoa criasse conteúdo e se relacionasse diretamente com uma audiência global. Mas, há dez anos, o TikTok mudou essa lógica e a busca por conteúdo migrou de “quem você gosta de consumir” para “o que você gosta de consumir” com feeds cada vez mais personalizados.

É essa mentalidade que, para o ex-CEO da VidCon, nos leva a uma nova fase, impulsionada pela inteligência artificial. Nela, o conteúdo não será apenas curado, mas criado especificamente para cada indivíduo. “Estamos entrando nesta terceira era, que gosto de chamar de ‘grafo do infinito’, a era da IA. Uma única internet, oito bilhões de versões dela, todas curadas individualmente”, descreve Louderback.

O fim da viralização orgânica

Nessa era, a inteligência artificial não vai apenas criar conteúdo e tornar a experiência personalizada para cada indivíduo, mas garantir que ele viralize de maneira estratégica. O executivo cita o exemplo do influenciador e streamer norte-americano, Clavicular, que conta com mais de mil clipadores, pessoas contratadas para criar vídeos curtos a partir de suas transmissões.

Esse exército de clipadores produz mais de 300 mil vídeos por mês. O que muda nesse modelo é que, com a IA, o trabalho desses clipadores pode ser automatizado e criar clipes automaticamente com foco em diferentes segmentos, públicos ou conversas para maximizar as visualizações.

“A viralização orgânica acabou. Tudo se resume a pagar para ser viral e direcionar o público para onde se gera receita. Agora, temos esses exércitos de pessoas fazendo cortes de vídeos. Isso tem acontecido nos últimos dois anos. Mas, sabe de uma coisa? Eles estão sofrendo com a disrupção da IA. Este novo modelo substitui esses 1.600 editores por inteligência artificial e faz tudo de maneira mais barata, veloz e direta”, descreve.

A lógica de impulsionamento também muda. Segundo Louderback, as companhias estão investindo menos em contratar grandes celebridades e mais em impulsionar conteúdos de alta qualidade feitos por criadores menores.

Agentic advertising era

Nesse sentido, para o CEO da Inside the Creator Economy, essa transformação também vai mudar a maneira como se pensa publicidade. Na programática, as DSPs serão substituídas por agentes que vão usar dados em tempo real sobre audiência, campanhas e contexto para criar lances mais precisos e econômicos.

O foco da segmentação, por sua vez, migra dos mercados para os indivíduos. Louderback citou a LiveRamp, que foi adquirida na última semana pelo Publicis Groupe e o seu sistema de resolução de identidade.

“Agora, você pode comprar indivíduos. Não apenas segmentos de mercado. A LiveRamp possui um excelente grafo de identidade que permite ao agente questionar: Quem é esta pessoa? O que ela fez na semana passada? O que ela pesquisou hoje? Quais fatos já sabemos sobre ela?”, explica o empresário. Assim, os anúncios podem ser direcionados de forma exata, inclusive para os agentes dos próprios consumidores.

“Isso vai se tornar literal. O feed de cada um será composto por conteúdos remixados para eles e diretamente para eles. Serão coisas que ninguém mais vê. Nenhum outro ser humano verá aquele conteúdo e nenhum anúncio será igual para todos”, defende.

Criadores sintéticos e gêmeos digitais

Outro pilar dessa nova fase da criação de conteúdo é o descolamento entre a identidade e a pessoa física dos criadores. Louderback aponta o sucesso de criadores sintéticos como a Granny Spills, o personagem de uma avó que dá conselhos sobre a vida e foi criado integralmente com IA.

Ou o caso do influenciador Khaby Lame, que fechou um acordo avaliado em US$ 975 milhões com a holding Rich Sparkle que permite a criação de um gêmeo digital de Khaby com inteligência artificial. Para o CEO da Inside the Creator Economy, à medida que essas figuras digitais se popularizam, o público vai experimentar uma mudança de relações parassociais para robôssociais.

“Relações robôssociais, criadas com avatares, licenças digitais ou gêmeos digitais dos nossos criadores favoritos, são algo bem diferente. É uma via de mão dupla. Não é ‘eu te entendo’. É ‘eu sinto que você me conhece’. Você sabe o que eu gosto, sabe da minha vida. Você está ali para mim o tempo todo. Já meu criador favorito, só está lá quando posta um vídeo”, afirma.