Francisco Mesquita e os 140 anos do Estadão

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Francisco Mesquita e os 140 anos do Estadão

Diretor-presidente do grupo fala sobre o jornal em meio as comemorações de suas 14 décadas de existência

Igor Ribeiro
27 de janeiro de 2015 - 9h09

O jornal O Estado de S.Paulo comemorou 140 anos no início de janeiro, mas está celebrando a histórica data ao decorrer do ano. Para falar sobre essa comemoração e outros assuntos, Meio & Mensagem entrevistou Francisco Mesquita Neto, diretor-presidente do Grupo Estado. Confira abaixo trechos e um vídeo da entrevista.

Leia a íntegra desta entrevista na edição 1644, de 26 de janeiro, exclusivamente para assinantes de Meio & Mensagem, disponível nas versões impressa ou para tablets Apple e Android.

Meio & Mensagem – O Estado é um jornal aberto a formatos diferenciados no impresso, como sobrecapas, cintas, mudança de cores etc. O mercado está plenamente informado da existência da área de Projetos Especiais e sua predisposição a esses formatos?
Francisco Mesquita Neto – Adoramos quando alguém aparece com alguma proposta de formato novo, um uso diferenciado do jornal. Incentivamos e aplaudimos toda vez que o mercado vem com uma nova sugestão. A gente tem trabalhado muito nisso. Criamos no ano passado a área de Projetos Especiais, que é uma diretoria dentro da diretoria comercial, dedicada a branded content, eventos e outros formatos… Começou no meio de 2014 e já dobrou o faturamento desse tipo de publicidade em relação a 2013, o que esperamos que aconteça neste ano de novo. Quando se chega a um cliente e, em vez de discutir um anúncio de três colunas por 24 centímetros, a gente fala de um conteúdo no jornal, mas também multiplataforma, que estará no rádio, no site, concebido junto do cliente, com credibilidade e transparência, os olhos brilham. Tivemos cases muito interessantes, com Sabesp e Deloitte. No ano passado fizemos 40 eventos, todos com patrocínio, como CNI, Faesp, Insper, FGV… Foi quase um evento por semana no ano passado, e com propósito, com curadoria de conteúdo, no qual nosso parceiro tem boa exposição de marca, conectados à rádio e à web em tempo real, que geram cadernos ou matérias no jornal. Se a publicidade impressa tem uma queda, e acredito que deve continuar devagar, existem “N” oportunidades interessantes a serem aproveitadas por anunciantes.

M&M – Jornais hoje são mais lidos graças às redes sociais, como ressaltou a Associação Nacional de Jornais (ANJ) em sua recente campanha. De fato, é muito repercutido, principalmente o noticiário do dia-a-dia, de commodity, como o senhor se referiu. Ao mesmo tempo, o Estadão lida com o paradoxo de investir em jornalismo mais profundo, de análise, sendo que esse tipo de conteúdo tem muito menos vazão no intenso tráfego das redes. Como lidar com esse antagonismo?
Neto –
É verdade, o Estadão nunca foi tão lido como hoje. Por outro lado, o nosso desafio continua sendo monetizar essa audiência da mesma forma que já fizemos no papel. Seria muito fácil criar bizarrices no site, colocar chats sobre tudo e uma variedade de assuntos que não têm nada a ver com o Estadão só para ter mais audiência, sendo que esse é um público ainda mais commoditizado que a própria informação. O que a gente tem tentado fazer é focar o conteúdo que a gente distribui multiplataforma em assuntos com muita coerência com o Estadão, mesmo que seja lazer, entretenimento. Estamos testando agora, e estamos muito entusiasmados, um novo produto, o Estadão Favoritos: selecionamos temas que o impresso trabalhou por um período e juntamos isso numa tecnologia multimídia, comercializando como um app. Fizemos dois: uma seleção de 12 entrevistas com economistas renomados, acompanhadas de gráficos, vídeos, nuvem de temas… E outro do caderno Paladar, uma coletânea de temas sobre cervejas brasileiras. Tentamos trazer o máximo possível da audiência digital, mas sempre guardando essa relação com o conteúdo do Estadão.

M&M – Liberdade de expressão tem sido um tema muito quente por causa do ocorrido na França, e também sempre foi um assunto muito caro a O Estado de S. Paulo, interditado no Estado Novo, censurado durante o Regime Militar, alvo recente de ações jurídicas interrompendo reportagens… Qual importância esse tema ainda guarda nos ideais do grupo?
Neto –
Nunca pode deixar de ser a primeira linha de conversas, tanto aqui como na ANJ. A razão de ser dos jornais é poder opinar sobre o que acontece no País. Assim que nós contribuímos para a evolução social do Brasil, se não seríamos uma mera lista telefônica ou um Google, que apenas reportam o pensamento e a informação dos outros. A gente tem que ter liberdade de investigar, de opinião e de publicação. Por isso é tão primordial. Mesmo em democracias estabelecidas, nas quais você não imaginaria o governo tentando restringir o papel da imprensa, você vê problemas como o que aconteceu na França, assim como no México, na Colômbia, nos governos bolivarianos, com censura old-fashioned, em que se estrangula de tal forma a imprensa que se perde a possibilidade de liberdade. Vivemos no Brasil uma democracia plena que garante ao cidadão o direito de se informar e às empresas jornalísticas de noticiar, mas a gente tem de ficar atento. Não formalmente, nos últimos 12 anos, os governos têm se posicionado contra isso, mas na figura dos partidos de apoio, têm demonstrado um interesse em limitar a liberdade de expressão.

M&M – O grupo é da opinião, portanto, que nada de bom pode surgir de propostas como o Conselho Nacional de Jornalismo?
Neto –
Nada. Liberdade de expressão significa que se você tem responsabilidade sobre aquilo que fala. Se falou algo que a Constituição diz que é crime, você paga por isso. Se eu saio na rua e xingo alguém, a pessoa pode ter o direito de me processar. Mas primeiro eu preciso xingar, não pode ter uma lei dizendo que estou proibido de xingar. Se você erra, comete um crime, tem muitas formas de tentar corrigir ou penalizar isso, mas trabalhar preventivamente é censura. Pode-se travestir isso da forma que quiser, mas é censura. Da mesma forma, preocupa a regulação econômica da mídia, que a gente sabe como começa e se preocupa muito como termina, que é o caso da Argentina e da Venezuela. Mas temos no Brasil o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Se existe aqui monopólio, oligopólio etc., vale tanto para mídia como para combustível, transporte, companhia aérea, tudo. Não precisa criar regra especifica para isso. Isso preocupa a gente: Tem uma boa intenção ou uma agenda por trás? A posição do Grupo, inclusive, é que nem precisamos de Lei de Imprensa. A SIP (Sociedad Interamericana de Prensa) também é grande defensora disso.

M&M – Apesar do pluralismo que o Estadão provê em seu espaço de opinião, o jornal estabelece algum limite, tendo em vista evitar esse tipo de processo?
Neto –
Concordo que as pessoas devem ter os meios jurídicos para processarem qualquer um, mesmo um jornal, se acharem necessário e se sentiram ofendidas. Mas, diferentemente de outros jornais, tentamos trabalhar com colunistas que tenham algum alinhamento de qualidade com o jornal, independentemente de sua opinião. A gente dá liberdade para pessoa escrever o que pensa dentro de uma qualidade que a gente considera valorizada para o público. Claro que temos colunistas que desagradam às vezes, por sua opinião, alguns leitores. Mas a orientação é que sempre evitem ofender os outros.
 

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