Adnet: “Desafio do humor é competir com a realidade”

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Adnet: “Desafio do humor é competir com a realidade”

Humorista fala sobre sua dinâmica de produção caseira para o programa “Sinta-se em Casa”, e destaca o papel crítico do humor em tempos de pandemia

Karina Balan Julio
2 de junho de 2020 - 6h00

O humor sempre trouxe leveza a situações difíceis e, historicamente, também atuou como elemento crítico em relação a problemas sociais. Em um cenário de pandemia combinado à crise política, conteúdos do gênero tentam trazer uma ótica descontraída às notícias do dia a dia.

Marcelo Adnet. (crédito: divulgação)

Uma das personalidades que se dedicam ao humor em tempos de cólera é o humorista Marcelo Adnet, protagonista do programa  “Sinta-se em casa”, veiculado no GloboPlay. No programa, gravado em sua própria casa em respeito às orientações de isolamento social, o comediante personifica políticos e personagens da cultura pop, sendo responsável não só pela atuação, mas pela pré-produção, roteirização e gravação do material. “Acabei criando uma rotina de criação dentro de casa durante a pandemia, apenas com os elementos que tenho aqui”, conta.

Mais do que um esforço diferente de produção, o momento atual pede também sensibilidade na criação das esquetes. Em entrevista ao Meio & Mensagem, Marcelo Adnet falou sobre seu processo de curadoria de pautas e do cuidado para escrever os roteiros. Também falou sobre o papel do humor como arma crítica em um contexto de crise política. “Às vezes, uma crítica feita por uma esquete de humor fica mais poderosa do que uma feita por um artigo”, opina.

M&M- Como enxerga o papel do humor no contexto da pandemia?

Marcelo Adnet – O humor é um estado de espírito, então em um momento tão pesado ele assume um papel importante de fazer as pessoas relaxarem e seguirem suas vidas. Mas ele tem outro lado, que é o humor critico. Às vezes, uma crítica feita por uma esquete de humor ou paródia fica mais poderosa do que uma crítica feita por um artigo científico, por exemplo. O alcance do humor como arma crítica é muito grande,  especialmente em um momento político tão tenebroso.

Como tem sido sua experiência ao criar conteúdo em casa para o “Sinta-se em casa”, do GloboPlay? 

Acabei criando uma rotina de trabalho dentro de casa durante a pandemia, apenas com os elementos que tenho aqui. Nunca ninguém da equipe passou por aqui, não recebo nenhum elemento de cena, figurino ou coisas do tipo. Somos só eu e minha esposa gravando com o celular,  eu atuo e depois mando o material para o editor, que depois de duas horas está com o material pronto. Estamos consumindo mais notícias para acompanhar o cotidiano político e fazer as paródias das cenas.

Há muitos desafios criativos e técnicos da produção caseira. Como é ter que se preocupar com outros aspectos da produção além dos seus personagens?

Acho legal poder fazer as coisas com criatividade e sem recursos no humor. Diferentemente da dramaturgia, o humor não precisa do realismo para que as pessoas acreditem na verossimilhança da cena. O humor é o primo vagabundo da dramaturgia, ele só se apoia na realidade, mas não é realista.

“Vivemos um momento de tragédia, então não cabe nenhum tipo de piada com vidas perdidas, doentes e hospitais lotados” – Marcelo Adnet

Por exemplo: gravei a cena do Bolsonaro no jet ski, e o meu jet ski para a gravação foi uma boia com um guidão improvisado e um colete salva-vidas, que na verdade era um colete jeans. O humor permite tudo isso. Se fosse dramaturgia, seria bem mais complicado, mas também acho muito rico sair da dramaturgia e criar uma linguagem própria.

Como é o seu processo de curadoria para as esquetes? Acha que o momento sensível exige mais cuidado nas escolhas?

O momento exige muito cuidado nas escolhas, nas pautas e na abordagem. Vivemos um momento de tragédia, então não cabe nenhum tipo de piada com vidas perdidas, doentes e hospitais lotados, mas, sim, com as patuscadas das autoridades perante ao desconhecido dessa crise. O Brasil está surrealmente alinhado a nações nações negacionistas como Turcomenistão e Bielorússia, que são nações ex-soviéticas. Faço um trabalho jornalístico de acompanhar notícias para criar a pauta, e também ver o que está rolando nas redes sociais, como lives engraçadas, etc.

Além da pandemia, o Brasil continua lidando com uma polarização política intensa. Qual é o desafio de criar conteúdo nesse cenário?

O desafio é competir com a realidade. Não dá pra criar nada mais absurdo do que a própria realidade, como um churrasco anunciado pelo presidente, depois desmentido e substituído por um passeio de jet ski, em um momento em que 10 mil pessoas morreram e esse número sobe em ritmo acelerado. É difícil concorrer com isso, mas o humor tem um papel muito importante de ser um instrumento crítico. 

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