WTW 2020: raça, política, liderança e comunicação

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WTW 2020: raça, política, liderança e comunicação

Alexandra Loras, Patrícia Ellen, Daniela Cachich e Maria Laura Nicotero trazem políticas afirmativas para mudar quadro corporativo

Thaís Monteiro
15 de setembro de 2020 - 19h58

Pela primeira vez, o Women to Watch, evento promovido no Brasil pelo Meio & Mensagem desde 2013, foi transmitido pela internet. Além das homenagens para as escolhidas de 2020, o evento também abriu espaço para importantes discussões sobre a mulher no mercado de trabalho e na sociedade.

“Empresas preferem ser racistas a capitalistas”
Alexandra Loras, ex-consulesa da França em São Paulo e que atualmente dedica-se à atuar nas causas da equidade racial e de gênero, como o Plano de Menina (projeto do Plano Feminino) e Afro Educação, trouxe à tona a importância de colocar a questão racial no Brasil como um assunto urgente. Segundo ela, apesar do Brasil ter um marketing voltado a exaltar sua nação diversa, com 56% de negros, esta não é uma realidade prática. Há menos de 1% de negros no poder e 4% na televisão, muitas vezes estereotipados.

 

Alexandra Loras: não adianta o discurso se a platéia é desigual (Crédito: Eduardo Lopes/Imagem Paulista)

“Viajei pelo País assistindo e realizando palestras. O discurso é muito bem tratado, mas a plateia é extremamente branca. Falta investimentos de recursos para as empresas prepararem os ambientes para receber negros, para que eles tenham espaço de fala para trazer a visão deles. Não é só contratar. Os produtos tem que ser feitos por pessoas que entendem a população brasileira, que é formada por 70% de analfabetos funcionais e 56% de negros”, argumenta.

Para Loras, as cotas e demais políticas afirmativas são necessárias para uma transição concreta. “Já se passaram 183 anos desde a abolição da escravidão. Ainda estamos muito longe de um movimento orgânico resolver esta questão”, aponta.

Política de gênero em políticas públicas
Não é somente o mercado corporativo privado que está realizando movimentos no sentido de promover uma maior equidade de gênero. Patricia Ellen, secretária de desenvolvimento econômico, ciência e tecnologia do Estado de São Paulo, indicou os esforços do Governo do Estado de São Paulo nessa direção.

 

Patrícia Ellen: setor público e privado enfrentam as mesmas questões de desigualdade (Crédito: Eduardo Lopes/Imagem Paulista)

O governo realizou recentemente um primeiro processo seletivo com exigência de contratações mais equiparadas e a secretaria do desenvolvimento investe em programas de empreendedorismo e cursos de capacitação para mulheres. “O curso é igual aos oferecidos para o público geral, mas notamos que se não colocamos que o curso é para mulheres, muitas não se inscrevem por achar que são áreas ou cursos mais masculinos”, explica Ellen.

Hoje, o Governo do Estado conta com quatro mulheres em cargos de liderança de secretarias, o que contabiliza 20%, mas esse é o máximo que a administração já chegou. A secretária afirma que as diretoras já pensam em formas de cruzar essa barreira. Ainda assim, Patrícia foi a única mulher da América Latina no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, este ano. De acordo com a secretária, a situação não difere muito em empresas privadas. De reuniões com 34 empresas privadas que Ellen teve com o governador João Dória no mesmo Fórum Econômico neste ano, apenas duas tinham mulheres presentes.

“Maior equidade de gênero gera mais lucro. Então essa conversa tem que ser encurtada. Tá bem fácil de entender, agora tem que implementar. Ir da gerência para a diretoria é mais complicado, porque a pressão é maior e algumas mulheres querem ter seu momento de maternidade. Aí, nesse caso, as coisas precisam parar de ser tratadas como tabu, como maternidade, tirar leite durante o expediente e outras. Um segundo ponto é precisamos de redes”, diz.

Indo além
Para mulheres em cargos de liderança, a meta para que a equidade racial seja um projeto de toda uma empresa e todas as suas áreas é ter mulheres no board. Essa é a opinião de Daniela Cachich, VP de marketing da PepsiCo e Maria Laura Nicotero, CEO da Momentum Brasil.

 

Daniela Cachich e Maria Laura Nicotero: mentoria e liderança são essenciais (Crédito: Eduardo Lopes/Imagem Paulista)

“Ao me perceber como mulher em cargo de liderança, vi que tenho poder de influência. Nesse lugar podemos discutir temas que não são discutidos porque nunca houve espaço para esse outro olhar, dar conta dos bias inconcientes masculinos. Branca e nesse lugar de privilégio, quero trazer mulheres negras comigo. Não dá para esperar elas chegarem, temos que puxar”, afirma Cachich.

Ainda assim, há muito a ser feito na base da pirâmide das carreiras. “Você tem que contratar uma pessoa que não está completa e formar essa pessoa na agência. Na performance talvez o nível de exigência seja maior e não dá tempo de você oferecer insumos, mas é necessário investir”, afirma Nicotero. Segundo ela, uma analogia que cabe ao movimento é abrir uma porta e segurá-la aberta com força para que outras mulheres passarem.

Ambas as executivas trabalham como mentoras para jovens talentos, seja na publicidade, como em um programa da própria Momentum, ou por fora, como é o caso de Cachich, que ensina jovens negras inglês. Para elas, é importante que as jovens se assegurem da sua força e potencial. “Nunca achamos que estamos pronta. Tem muito desincentivo. É como se te falassem: ‘Você pode provar três vezes mais do que um homem que você consegue fazer a mesma coisa que ele?’. Eu estou no mercado há mais de 20 anos. Essa provação já virou um hábito para mim. Acho que a maturidade traz pra gente outro aspecto importante: coragem para afirmar seu lugar e se posicionar. Jovens de 25 anos: tenham coragem!”, incentiva a VP de marketing.

Confira o evento e homenagens na íntegra:

**Crédito da imagem no topo: Fotografia Básica/iStock

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