Sunset Boulevard

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Ponto de vista

Sunset Boulevard


3 de maio de 2011 - 2h58

…Querida, acabo de chegar de um clube de jazzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz… Pegamos um táxi: Carla Madeira, Laura Relações Públicas e Pedro Professor de Oxford. O Táxi era dirigido por um daqueles caras que sobreviveram à era junkie, aquele tipo de cara que ainda deve ter um boa dose de heroína circulando pelas veias. Entrei no táxi, pedido pelo gerente do clube, abri a porta no lado do carona, e logo vi, no chão do veículo, sobre o tapete gasto, exatamente no local onde ia colocar os pés, uns potes de plástico contendo algum tipo de farelo. Pedi licença ao cara e sentei, arrumando um canto para apoiar as solas dos sapatos. O táxi era meio caído. As meninas e Pedro sentaram-se no banco de trás. E foi de lá que veio o primeiro grito histérico, seguido de uma gargalhada da Laura (que eu chamo de Laura Dern); então começaram a pipocar flashes. Eram os papagaios voando soltos dentro do táxi: o cara conduzia a corrida levando seus dois amiguinhos, um macho e uma fêmea. As meninas ficaram em polvorosa. Pedro permaneceu em silêncio durante todo o trajeto, estava no fuso horário de Oxford, eu é que havia insistido para que nos acompanhasse. Ele foi e gostou muito, a cantora já era sua conhecida. Uma gospel – não sei se é assim que se descreve aquele estilo, que misturava música de igreja com jazzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz… e na face uma fusão de Mart’nália com Whoopi Goldberg, definiu Carla depois. O local e os arranjos lembravam um show de churrascaria, por isso o desfecho com o zoo-taxi virou “a” noitada. A noitada de um dia longo: desde as três da tarde lá estava eu frente a uma turma de pesquisadores e alunos da U.C.L.A. que me perguntavam coisas sobre “Os Maias”, “Hoje é dia de Maria”, “Lavoura”, “A Pedra do Reino”, “Capitu” e “Afinal, o que querem as mulheres?”. As perguntas eram as de sempre e as minhas respostas nem se fala. Nem se fala quer dizer que elas vinham na minha cabeça com um certo fastio de quem retira do bolso um texto amassado e relambido. Tentei lutar contra isso com humor, desmistificando aquela posição de púlpito em que me encontrava. Enquanto as palavras me saíam pela boca, eu pensava em coisas como "se arrependimento matasse", e ia prometendo "nunca mais!, nunca mais!!".

Por trás de tudo isso, ou na minha frente, sei lá, as caras – é isso que você quer saber, não é, querida? – pois bem, as caras eram de felicidade, embebidas, as mesmas caras de sempre, e isso também me incomodava, elas tinham um ar daquela reverência idiota de todos os dias, uma reverência de dar medo, medo da cara do mundo, um bando de gente, que por mais que você cruze as tais milhas e milhas, você fica com a sensação de que não saiu muito do lugar e que por isso a solução para a equação civilizatória não existe, estamos todos indo para o mesmo buraco. A cara da Gospel no clube de jazzzzzzzzzzzzzz… me animou muito mais.

A black is beautiful não é a questão, apesar de sentir, em alguns momentos, que era para mim que ela cantava, e por isso eu me balancei feito um otário na cadeira e a olhei como se estivesse me correspondendo com ela. Sei também que isso é fruto de minha imaginação, portanto, como disse antes, pouco importa, isso não é real. Não posso garantir exatamente que mulher era aquela que estava ali, certamente misturava muitos perfumes na minha cabeça, mas isso me bastava também.

Dentro do táxi a realidade me alçava mais alto, o motorista-sobrevivente me falava coisas desconexas, estava procurando por uma boina, uma boina francesa. Ele frisava, com sua boca banguela, que tinha que ser francesa, que não era como um chapéu, que era uma coisa de enfiar na cabeça. Entre um papagaio e outro que cruzava… espere!, agora me lembro: a fêmea veio pousar aqui em meu braço e aqui ficou até o final da corrida. Mas o que estava dizendo é que respondi que conhecia a tal boina, e que possuía uma no Brasil e que eram boinas muito usadas também na Espanha e em Portugal. O cara deu uma risada embolando algumas expressões que só ele entendia, ele não estava muito ali, o táxi parecia à deriva, mas o corsário-sobre-rodas estava feliz em perceber que eu tinha sacado o delírio dele com a tal boina. Depois emendou na pergunta se eu sabia por que havia carros estacionados voltados de cara para nós, apesar de a mão da Sunset Boulevard ser de frente para a direção em que estávamos indo: “Do you know why?” Eu respondi: “No, why?” Ele afirmou: “Jewish cars!” As meninas não paravam de espocar flashes – “No flash, ladies, please!” – que cegavam os bichos, enquanto elas pediam que eu girasse meu corpo para obterem um ângulo melhor para o meu papagaio-fêmea ao ombro; me virei e fiz umas duas ou três poses tolas, mas elas não pararam por aí.

Enfim o táxi jogou sua âncora frente ao lobby, dei uma olhada no marcador: “God! Thirty-five dollars?!“ Descemos: eu, Carla e Laura Dern. Pedro ficou no táxi, continuando a corrida até seu hotel.

O motorista recolheu os papagaios, eram papagaios de turista, claro! Entendi a mensagem e larguei alguma grana a mais para que cuidasse melhor de si e do farelo para os bichos. Não sei se vai comprar heroína, acredito que não, estava mais para o farelo. Meteu a mão em algum canto escuro ali entre os bancos e logo a seguir esticou o braço em nossa direção, em velocidade reduzida (era um slow motion), trazendo um ramo de pirulitos coloridos, que empunhava como se fosse um tridente.“Thank youuuuuuu!”. Sua mão atravessou a janela nos oferecendo os açúcares. Sorrindo, querida, o corsário fechou a cortina de vidro com um gesto teatral – era o terceiro sinal – as araras em revoada excitante começaram a bicar o vidro traseiro, era a despedida coreográfica, ao mesmo tempo em que aquela nau amarela rangia sobre o asfalto-black-is-beautiful, zarpando de volta à imensidão dos oceanos da Sunset Boulevard: Jazzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz…

Luiz Fernando Carvalho, cineasta e diretor de TV, é diretor de núcleo da Rede Globo

 

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