Cinema amplia experiência presencial ante hábitos de consumo
Salas premium, eventos, produtos licenciados e cinema nacional entram na estratégia das redes

Redes de cinema investem em salas premium, fidelização e novos formatos para atrair público (Crédito: Mzrs/Shutterstock)
Salas VIP, produtos licenciados, programas de fidelidade, eventos especiais e conteúdos alternativos.
Essas são algumas das apostas adotadas pelas principais redes exibidoras do País para atrair espectadores em cenário marcado pela consolidação do streaming e pela transformação dos hábitos de consumo audiovisual.
Mais do que competir diretamente com as plataformas digitais, Cinemark, Cinépolis, Kinoplex, PlayArte e Cinesystem querem ampliar os diferenciais da experiência presencial.
Mercado em transição
O movimento ocorre em momento desafiador para o setor.
De fato, segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), o mercado cinematográfico vendeu 112,8 milhões de ingressos em 2025, queda de 10% em relação ao ano anterior.
Ainda, a renda das bilheterias também recuou 11,4%, para R$ 2,3 bilhões.
A retração, no entanto, não interrompeu os investimentos.
O Brasil, contudo, encerrou o ano com recorde de 3.544 salas em funcionamento e 886 complexos exibidores, superando os níveis registrados antes da pandemia.
Mais de 60% das salas inauguradas no ano passado foram abertas em cidades de pequeno porte.
Isso indica, portanto, movimento de expansão para mercados ainda pouco explorados.
Na avaliação das redes, a queda de público não está associada apenas à concorrência do streaming, mas à fragmentação do consumo de entretenimento.
Restaurantes, eventos, videogames e plataformas digitais disputam a atenção do consumidor, o que torna a frequência ao cinema menos automática do que em décadas anteriores.
Além dos blockbusters
No ano passado, 27 filmes ultrapassaram a marca de um milhão de espectadores, em ranking liderado por Lilo & Stitch, Como Treinar o Seu Dragão e Um Filme Minecraft.
No mesmo período, 912 títulos ficaram abaixo de 100 mil ingressos vendidos.
O dado aparece no mesmo contexto em que as exibidoras reforçam investimentos em formatos premium.
Salas com poltronas reclináveis, projeção a laser, sistemas avançados de som e serviços diferenciados ganharam espaço nas operações.
Paralelamente, programas de fidelidade e ações promocionais tentam aumentar a recorrência das visitas e fortalecer o relacionamento com os espectadores.
Outra frente de expansão envolve produtos licenciados e experiências ligadas a grandes franquias, além de conteúdos alternativos, como shows e transmissões de eventos esportivos e produções de cultura pop.
A aposta é atrair públicos distintos, criar fontes de receita e reduzir a dependência dos grandes lançamentos.
Estratégia para o cinema nacional
A presença do cinema brasileiro nas salas cresceu nos últimos anos.
Dados do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA) mostram que os filmes nacionais responderam por 15,7% das sessões realizadas no ano passado e por 9,9% do público total.
Em 2023, a participação era de 7,5% das sessões e 3,3% do público.
No ano passado, os maiores públicos nacionais foram registrados por O Auto da Compadecida 2, Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto, Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa e Vitória. Juntos, os cinco títulos concentraram mais de 75% dos espectadores do cinema brasileiro.

O Auto da Compadecida 2 esteve entre os destaques do cinema nacional nas bilheterias de 2025 (Crédito: Reprodução/Youtube)
Para as exibidoras, de fato, as produções nacionais têm papel importante na diversificação da programação e no preenchimento do calendário ao longo do ano.
As redes afirmam que a presença desses títulos amplia a oferta ao público, mas ponderam que o desempenho nas salas depende de fatores como divulgação, estratégia de lançamento, horários de exibição e capacidade de mobilizar audiência.
Redes de cinema e a cota de tela
A atualização das regras da cota de tela pela Ancine também passou a integrar esse debate.
A política, de fato, estabelece quantidade mínima de sessões destinadas a filmes brasileiros nos cinemas e, para 2026, passou a prever incentivos à permanência dos títulos em cartaz.
Consultadas, as redes Kinoplex, Cinépolis, PlayArte e Cinesystem avaliam a cota de tela como um instrumento relevante para garantir espaço ao cinema nacional nas salas.
As redes, no entanto, apontam que a efetividade da medida depende da resposta do público, da estratégia de lançamento dos filmes e da dinâmica comercial dos complexos.
