Mídia

Elo: “Cinema é um estado mental diferente do espectador”

Sabrina Nudeliman Wagon, CEO da empresa, fala sobre estratégias, relação com o streaming e publicidade

i 28 de janeiro de 2026 - 6h03

A Elo Studios, fundada por Ruben Feffer, Flavia Feffer e Sabrina Nudeliman Wagon, produz e distribui conteúdo audiovisual brasileiro há mais de 16 anos.

Nesse período, são mais de 500 títulos distribuídos para cerca de 120 países. Somente no ano passado, a empresa lançou 13 títulos, dos quais dois foram produções originais.

Ainda na área de distribuição, são mais de 20 plataformas de vídeo on demand que exibem títulos da Elo.

Neste momento do cinema brasileiro, com premiações no Globo de Ouro e cinco indicações nacionais ao Oscar, a CEO da Elo Studios, Sabrina Nudeliman Wagon, fala sobre o meio, a frequência às salas, janelas de exibição e o papel do streaming e as alternativas de uso das telonas pela publicidade, como o branded entertainment.

Elo Studios: Globo de Ouro cria efeito imediato e estrutural

Meio & Mensagem – O Agente Secreto ganhou dois Globo de Ouro inéditos e o Brasil passa a ter Ouro no evento por dois anos consecutivos. De que forma isso impulsiona o cinema brasileiro?

Sabrina Nudeliman Wagon – A vitória de O Agente Secreto em Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator (drama) cria um efeito imediato e outro estrutural.

O imediato é mais público e mais salas para filme brasileiro, o que já acontece: após os prêmios, o filme saltou em número de salas e público. Isso é um termômetro objetivo de como a premiação internacional destrava bookings, imprensa e curiosidade do público.

O efeito reputacional é a “qualidade percebida” e redução de barreira para conteúdo nacional. Depois de um ano em que o cinema brasileiro voltou ao centro da conversa (com títulos nacionais puxando atenção), esse tipo de reconhecimento amplia a percepção de valor. O público passa a enxergar o filme brasileiro como evento cultural, e não “alternativa”.

Pelo efeito econômico: atrai investimentos e melhora a conversa com parceiros. Os prêmios internacionais aumentam a capacidade de pré-venda e o interesse de streamers e distribuidores. Isso também vira soft power: cultura como ativo de reputação do País e de exportação de narrativas (o Brasil “se explica” melhor para o mundo quando suas histórias circulam).

O ponto crítico: sem previsibilidade, vira pico, e não política. O que falta para transformar vitórias em ciclo virtuoso é estratégia e previsibilidade (investimento consistente, regras claras, continuidade). Senão, a cada prêmio a indústria recomeça do zero.

Elo Studios e a relação cinema & streaming

M&M – Dados recentes de mercado e comportamento do consumidor mostram um modelo complementar entre cinema e streaming, em que a ida às salas estimula consumo posterior no streaming. Isso é fato?

Sabrina – Na prática, sim, e a lógica é simples: o cinema segue sendo a maior vitrine de marketing para um filme —cria status, conversa social e validação pública.

Mesmo com a preferência crescente por streaming em vários mercados, as janelas encurtaram (muitas vezes, ~40 dias em vez de 90) e o cinema tem sido reposicionado como experiência premium (IMAX etc.) — o que reforça esse papel de “lançamento-evento” que depois se desdobra em consumo doméstico.

Também existe um debate no setor defendendo, com dados de performance, que filmes com passagem por cinema tendem a performar melhor depois do que straight-to-streaming (não é consenso, mas é uma leitura recorrente do mercado).

Resumo: cinema e streaming não são rivais; são duas etapas da mesma jornada, com públicos e motivações diferentes (evento vs. conveniência).

Elo Studios: janelas de exibição são mais flexíveis

M&M – A nova lógica pressupõe frequência híbrida e janelas de exibição mais flexíveis. O que isso muda para a estratégias do cinema?

Sabrina – Muda que o cinema precisa ser cada vez mais evento e isso impacta a forma de posicionar e ativar os filmes.

Os títulos que mais conseguem mobilizar hoje tendem a entrar em alguns “gatilhos”: grandes produções (tela/som como diferencial); infantil/família (programa social); terror (experiência coletiva); e filmes que emocionam e viram conversa pública (debate, identificação, “todo mundo precisa ver”).

Isso explica por que campanhas que trabalham comunidade + rede + sessões especiais são tão poderosas. É o que fizemos com Medida Provisória (sessões de impacto, debates, mobilização) e o que estamos fazendo com (Des)controle, com diversas sessões de ativação da rede de público primário (AA, B2Mamy etc.), que se tornou uma rede de verdadeiros embaixadores do filme.

Redução do público

M&M – Dados de 2018 e 2019 da Ancine mostram que o público frequentador passou dos 150 milhões de pessoas no Brasil naqueles anos. Depois da pandemia, o recorde foi em 2024, com 126 milhões de espectadores. O público vai menos vezes ao cinema, mas escolhe com mais critério: blockbusters, franquias e experiências imersivas (IMAX, 4DX, Dolby). O quanto disso é verdade, já que, numericamente, existe queda de público?

Sabrina – É verdade e os números ajudam a enquadrar: em 2018–2019, o Brasil esteve na faixa de 150–170 milhões de espectadores/ano; em 2024, foram ~125 milhões (ainda abaixo do pré-pandemia); e, no ano passado, o público total ficou em 109,6 milhões (queda ante 2024).

Os dados também mostram a predominância de filmes estrangeiros no circuito. Em 2025, produções internacionais responderam por 84,1% das sessões e concentraram 89,9% do público (98,5 milhões de espectadores); e filmes brasileiros ocuparam 15,9% das sessões e atraíram 10,1% do público, o equivalente a 11,1 milhões de pessoas.

Portanto, não é apenas “sensação”: existe uma queda/volatilidade de frequência. O comportamento que emerge é: menos idas, mais seletivas, com vantagem competitiva para “eventos” (franquias, formatos premium, filmes com conversa social forte).

Se a pergunta for “então, por que insistir em cinema?” A resposta é porque o cinema continua sendo o lugar que cria valor simbólico e descoberta coletiva e isso alimenta toda a cadeia depois.

Streaming como continuidade da experiência

M&M – O streaming pode ser continuidade da experiência e porta de entrada para novos universos narrativos?

Sabrina – Sim. Inclusive por um motivo muito concreto: o Brasil ainda tem grande desigualdade de acesso a salas (muitas cidades sem cinema).

Dessa forma, o streaming vira primeiro contato com obras, talentos e universos narrativos.

De fato, para filmes que viram conversa, o streaming funciona como segunda onda.

Para filmes médios, a estratégia precisa ser caso a caso: às vezes, uma janela mais curta ajuda; às vezes, mata o evento antes de ele nascer.

Buzz, ROI e awareness

M&M – Estreias simultâneas ou com janelas reduzidas são capazes de gerar buzz concentrado, acelerar o ROI e alimentar o awareness cross-plataforma? De que forma isso pode acontecer?

Sabrina – As janelas reduzidas ou estratégias híbridas podem funcionar, mas não substituem o valor da janela exclusiva de cinema, especialmente quando falamos de construção de marca, prestígio e percepção de qualidade.

Na experiência da Elo Studios, o cinema continua sendo o gatilho simbólico que legitima o conteúdo.

Assim, a estreia em sala cria: evento cultural, relevância editorial, pico de conversa orgânica e um selo de qualidade que reverbera depois nas demais janelas.

Vimos isso claramente em títulos como Medida Provisória. O lançamento cinematográfico foi determinante para gerar cobertura espontânea na grande imprensa, ativar debates sociais, atrair parcerias de marcas interessadas em se associar ao impacto cultural do filme e, posteriormente, ampliar o alcance nas plataformas digitais.

O valor gerado pela campanha e divulgação orgânica equivale a mais de R$ 70 milhões, por exemplo.

De fato, janelas mais curtas funcionam melhor como aceleração de ROI, mas somente quando o cinema é tratado como origem da narrativa, e não como etapa descartável.

Quando bem planejados, cinema e streaming se retroalimentam. Não competem.

Blockbuster como plataforma de negócios

M&M – O blockbuster pode ser definido como plataforma de negócios de forma a se desdobrar além do filme?

Sabrina – Depende do filme. Se for:

– Filmes-plataforma: são aqueles com vocação natural para desdobramentos como animações, franquias, universos narrativos expansíveis e conteúdos familiares ou juvenis. Nesses casos, o filme é apenas o ponto de partida para produtos licenciados, experiências ao vivo, ativações com marcas, conteúdo educacional, jogos, música e publishing.

– Filmes-evento: em outros casos — como grandes épicos autorais ou filmes de espetáculo — o negócio principal é a bilheteria. Um exemplo clássico é Avatar, em que o valor econômico está concentrado na escala, na experiência imersiva e na força do evento cinematográfico em si.

Na Elo, avaliamos isso projeto a projeto. Nem todo filme precisa virar franquia — mas todo filme pode virar território de comunicação, se bem-posicionado.

Ativações antes, durante e depois da sessão

M&M – Para as marcas, quais são as alternativas e como podem se situar para fazer ativações antes, durante e depois da sessão?

Sabrina – A Elo tem trabalhado fortemente com integração de marcas ao audiovisual, indo muito além do product placement tradicional.

Assim, antes do filme: associação da marca ao tema e aos valores da narrativa, conteúdo editorial e branded contente e presença no lançamento e nos materiais de comunicação.

Durante o filme: integração orgânica no roteiro, presença simbólica ou contextual, ações pensadas junto aos criadores, e não “encaixadas”.

Um exemplo emblemático é De Virada, coproduzido com a Amstel. Ali, a marca não entrou como anunciante, mas como coautora.

Dessa forma, teve alinhamento com território de futebol feminino/liderança feminina, protagonismo feminino, ativações digitais e eventos e narrativa pensada desde o desenvolvimento.

Finalmente, depois do filme, há ações de legado, debates, sessões especiais e continuidade da conversa em outros meios.

Em Medida Provisória, vimos marcas se associarem ao lançamento não dentro da narrativa, mas no impacto cultural do filme, ampliando awareness e posicionamento institucional.

Foram mais de 20 mil pessoas impactadas por meio de sessões patrocinadas por marcas como L’Oréal e Magalu, que, dessa forma, promoveram o debate antirracista para além das telas.

Salas e publicidade

M&M – As salas mudaram e podem ser espaços imersivos, ambientes sensoriais e pontos de contato premium. Como isso se traduz em publicidade e ações para os anunciantes?

Sabrina – As salas são premium por definição, ambientes de alta qualidade técnica e espaços de atenção plena.

Isso permite que haja sessões especiais para marcas, pré-estreias exclusivas, debates, talks e experiências presenciais e ativações sensoriais conectadas ao conteúdo.

O cinema deixa de ser apenas mídia e passa a ser experiência, o que é algo cada vez mais raro num mundo fragmentado.

M&M – Os cinemas também podem funcionar como hubs de branded entertainment? Como isso funciona?

Sabrina – Sem dúvida. São poucos os ambientes que oferecem 90 minutos de atenção contínua, sem multitela e com alto envolvimento emocional.

Isso cria um cenário único para marcas participarem desde a construção da narrativa até ativações presenciais e digitais.

Hoje, não faz mais sentido a marca se restringir aos 30 segundos.

Estamos, por exemplo, filmando um longa cujo tema central é menopausa — um assunto ainda pouco tratado no audiovisual de grande público — e já em diálogo com diversas empresas interessadas em conversar com mulheres maduras de forma profunda, respeitosa e relevante.

O cinema vira ponto de encontro entre narrativa, marca, comunidade e experiência.

Cinema advertising

M&M – Sobre o retorno do cinema advertising, agora, é mais fácil segmentar geografia, perfil de público e tipo de filme. Na prática, como isso pode ser usado para marcas de abrangência nacional e para as regionais?

Sabrina – Hoje é possível segmentar geografia (praça, região, cidade), perfil de público e tipo de filme e gênero.

Isso, na prática, permite que marcas nacionais possam testar mensagens diferentes por região, que marcas regionais ganham eficiência ao falar com públicos específicos e que campanhas ficam mais contextualizadas e menos genéricas.

Isso transforma o cinema numa mídia menos massiva e mais estratégica.

M&M – O fato de as salas de cinema terem atenção 100%, ambiente sem multitela e alto recall publicitário permite criar formatos publicitários específicos? Como agências e anunciantes desenvolvem campanhas nesse contexto?

Sabrina – Sim e isso muda completamente o jogo.

O ambiente de atenção total permite narrativas publicitárias mais longas, formatos híbridos entre conteúdo e publicidade, maior recall e associação emocional.

Agências e anunciantes que entendem isso desenvolvem campanhas pensadas para o ritmo do cinema, conectadas ao filme exibido e não simples reaproveitamentos de TV ou digital.

O cinema não é só uma tela maior, é um estado mental diferente do espectador.

Quem entende isso, cria valor real.