Opinião MWC

Dia 3: A inteligência artificial sob os testes da escala e do retorno

O evento está maduro. Vemos isso na exigência por indicadores concretos de resultado

Paulo Tavares

líder de Redes na Accenture América Latina 5 de março de 2026 - 10h26

À medida que o volume de lançamentos se acumula no MWC Barcelona 2026, fica mais fácil identificar onde há consistência estrutural. Depois de três dias intensos de anúncios, demonstrações e conversas estratégicas, o padrão que se consolida está no impacto visual das vitrines e, principalmente, na forma como a inteligência artificial começa a se integrar de maneira coerente aos modelos de negócio.

O debate ganha contornos financeiros, com foco crescente em retorno e escala. A IA aparece incorporada à arquitetura de produtos, operações e serviços com uma expectativa clara de impacto mensurável. O centro da conversa se desloca para métricas concretas, ou seja, receita incremental, retenção, eficiência operacional e confiabilidade em ambientes críticos.

Na robótica, o engajamento do público continua alto, especialmente em demonstrações humanoides e interfaces avançadas. No entanto, a vantagem competitiva se define pela consistência operacional em escala. O discurso enfatiza testes de qualidade, padronização e integração com processos industriais reais. Em aplicações como logística leve, inspeção remota e suporte assistido, a conectividade de baixa latência, o edge computing e a observabilidade contínua passam a ser componentes estruturais da proposta.

Essa mesma maturidade aparece em soluções voltadas a infraestrutura essencial. A integração de inteligência artificial em sistemas de água, energia e outros ativos críticos se materializa na redução de perdas, na previsão de falhas e na otimização de ativos. O valor é percebido na eficiência sistêmica e na continuidade operacional, com implicações econômicas e sociais claras.

Outro sinal relevante do dia está na consolidação de stacks completos e modulares de infraestrutura para IA. A atenção se volta para arquiteturas que equilibrem capacidade computacional, controle e previsibilidade financeira. Modelos híbridos e flexíveis ganham tração conforme as empresas buscam acelerar adoção sem comprometer governança ou gestão de custos.

No núcleo das telecomunicações e da mídia digital, o foco comercial ganha protagonismo, com ênfase em retenção e LTV. Redução de churn, melhoria de qualidade de experiência e aumento de conversão digital aparecem como prioridades explícitas. A integração entre dados de rede e dados de consumo começa a sustentar decisões comerciais com maior agilidade, aproximando áreas técnicas e times de negócio em torno de indicadores comuns.

A chamada silver economy também surge como vetor consistente. Soluções de cuidado conectado combinam dispositivo, aplicativo e serviço contínuo em modelos de assinatura recorrente, apoiados em confiança e valor emocional. A conectividade, nesse contexto, funciona como habilitadora de uma proposta que transcende o hardware e se aproxima de uma plataforma de relacionamento de longo prazo.

Mesmo fora dos palcos principais, a dinâmica do evento reforça essa consolidação. O networking intenso, concentrado em reuniões executivas e negociações objetivas, indica que a agenda está orientada à implementação. Pilotos, parcerias e roadmaps de escala ocupam o centro das conversas.

O evento está maduro. Vemos isso na exigência por indicadores concretos de resultado. A inteligência artificial já percorreu o caminho da demonstração e da industrialização. O critério que passa a definir relevância é a capacidade de sustentar crescimento, eficiência crítica e retorno financeiro com escala operacional.

Depois de três dias, a tendência dominante pode ser sintetizada como uma consolidação: a IA permanece como eixo transversal da inovação, mas agora submetida ao teste definitivo da monetização e da confiabilidade em ambientes reais. É nesse território, em que a tecnologia encontra a disciplina de execução e métricas claras é que a próxima fase da indústria começa a se desenhar.