A revolução das canetas
Queda de patente no Brasil do princípio ativo do Ozempic abre novas perspectivas para um segmento cujos impactos econômicos e sociais vão muito além dos efeitos esperados nos pacientes
Uma das falas mais provocativas do SXSW foi dita por um dos veteranos do festival, que realizou sua edição 2026 neste mês, em Austin. Para Scott Galloway, professor da NYU Stern, autor de best-sellers como The Four e Post Corona e apresentador do podcast Prof G Markets, a tecnologia por trás das canetas emagrecedoras é mais transformadora para a economia do que a inteligência artificial (IA). “Qualquer pessoa com QI superior a 90 discorda de mim, mas a IA é supervalorizada. Já a GLP-1 tem mais pontos favoráveis, tanto em termos sociológicos e econômicos quanto para os acionistas”, disse Galloway, em referência ao hormônio cuja ação é imitada pelos medicamentos que retardam o esvaziamento do estômago e aumentam a sensação de saciedade.
Sua tese é a de que as canetas emagrecedoras desestabilizam mercados, ao mudarem os hábitos de consumo e impactarem negativamente setores como os de alimentos e bebidas e os gastos com saúde gerados pelos cuidados necessários com doenças como diabetes e obesidade. Há também o contraponto de maior autocontrole e ganho de autonomia aos seres humanos, sua socialização e qualidade de vida, à epidemia da solidão e às consequências da substituição de força de trabalho causados pela evolução e disseminação da IA.
Galloway também engrossa o coro dos que dizem que, em grande parte, a IA tem sido usada como falso álibi para justificar cortes em grandes empresas. Veio dele, anos atrás, a expressão “Corporate Ozempic”, inicialmente para se referir a casos em que o objetivo era o de eliminar o excesso, mas manter em segredo a razão do movimento. Atualmente, é usada como referência aos casos de cortes de gorduras nas folhas de pagamento para gerar picos de curto prazo na valorização de ações, o que, para muitos analistas, desvia o olhar de um dos principais problemas corporativos de muitas companhias, que é a necessidade de construir musculatura organizacional no longo prazo.
Nas páginas 22 e 23, a jornalista Taís Farias escreve sobre as primeiras consequências da queda da patente da semaglutida, que encerrou, neste mês, a exclusividade no Brasil da comercialização pela Novo Nordisk deste princípio ativo, usado pela farmacêutica no Ozempic e no Wegovy — medida que permite a entrada no mercado de concorrentes e versões genéricas, e muda as estratégias de preço e comunicação dos produtos. Paralelamente, as marcas estabelecidas se mobilizam para enfrentar a banalização no uso dos medicamentos que ajudam a controlar o diabetes e causam rápido emagrecimento.
Entre os efeitos colaterais das canetas emagrecedoras está uma mudança radical nos planejamentos e práticas de redes de farmácias, que se entusiasmaram com os produtos de alta demanda e valor agregado, que desencadeiam outras ondas de consumo, como nos medicamentos gastrointestinais e produtos de higiene e beleza, mas, por outro lado, têm agora que conviver com uma impressionante alta nos assaltos. No afã de atrair consumidores, algumas unidades das grandes redes chegaram a fazer publicidade irregular das canetas emagrecedoras: levantamento de Meio & Mensagem contou ao menos oito processos julgados sobre o tema no Conar, no ano passado, com decisões de sustação contra grandes conglomerados, como RD Saúde, Grupo DPSP e Pague Menos, que, entre outras ações, fizeram anúncios de pré-venda do Mounjaro (a patente da tirzepatida segue preservada pela Eli Lilly).
O maior controle no varejo, a desinformação e o combate à pirataria são temas urgentes, especialmente quando se antevê um aumento exponencial no número de marcas disputando o mercado das canetas emagrecedoras, com a perspectiva de entrada de laboratórios nacionais, entre os quais EMS, Cimed e Hypera, como narra a reportagem desta edição. O potencial pode ser medido por pesquisa da NielsenIQ, detalhada na matéria, que aferiu que a penetração das canetas emagrecedoras no Brasil é de 4,6% dos domicílios. A quebra de patentes inicia um novo ciclo, no qual os efeitos positivos dependem da legitimidade e do engajamento de toda a cadeia, das farmacêuticas à mídia.