Opinião

Qual é o meu papel nessa tal segurança psicológica?

Entre acusações e mea culpa, somos todos responsáveis

Sharon Menasce

Head de redação 25 de fevereiro de 2026 - 6h00

Eu me comprometi a dar um tempo nos artigos inconformados, então abro este texto dizendo que desta vez o dedo está apontado para mim. Desde que me embrenhei nas profundezas da saúde mental corporativa, escuto sobre segurança psicológica. Seja em cursos, seja em eventos da área, seja em conversas de bar.

E o que é essa tal segurança psicológica? Nas palavras da maior autoridade no tema, Amy Edmondson (tradução livre): segurança psicológica é a crença que o indivíduo não será punido ou humilhado por expressar ideias, dúvidas, preocupações ou erros, e que o time está seguro para discordar entre si.

Resumindo de forma bem superficial, um ambiente corporativo que tem segurança psicológica permite que nós sejamos nós mesmos. Parece simples? De acordo com a SHRM, 40% dos colaboradores têm medo de represálias se compartilharem ideias ou oferecerem feedbacks. Mas como estamos seguros neste espaço, quero dividir uma reflexão.

Em uma das últimas aulas como aluna do curso de Saúde Mental nas Organizações, promovido pelo Centro de Ensino Einstein, o tema era — para surpresa de ninguém que está lendo — segurança psicológica. Já cansada na reta final de meses de conteúdo intenso e completamente despreparada para o que viria a seguir, me peguei pensando que talvez eu tivesse responsabilidade na não promoção de ambientes 100% psicologicamente seguros.

Logo eu, que falo de saúde mental aos quatro ventos. Logo eu, que me orgulho de ter sido uma líder que fazia diferente. Logo eu, que estudo há anos o tema. Sim. Ensaiei meia dúzia de frases me defendendo para escrever aqui, mas ser vulnerável é o grande barato de exercitar ambientes seguros. Justificar não muda nada, é preciso fazer diferente.

Não pense que segurança psicológica está completamente relacionada a grandes mudanças, muitas vezes os pequenos atos do dia a dia são os que mais impactam. O cientista social Timothy Clark criou um modelo com quatro estágios que abordam a permissão para pertencer, aprender, contribuir e questionar, ou seja, o básico do respeito entre pessoas.

E segurança psicológica não é sobre evitar desconfortos, conversas difíceis ou feedbacks e sim sobre poder fazer tudo isso de forma segura e construtiva. É comprovado que times que se sentem seguros trazem mais resultado para as empresas. Do que adianta ter um time de altíssima qualidade sem autonomia ou liberdade para dar ideias?

Afinal, qual é então o meu papel na criação de ambientes seguros? Identifiquei falhas minhas em pelo menos três dos quatro estágios do Timothy Clark. Já fui a pessoa sem paciência com os menos experientes, já olhei torto para ideias de colegas no meio de um brainstorming, já reagi mal a críticas. Aos meus colegas e aos meus times, peço desculpa pelas vezes que deixei o ambiente corporativo mais difícil do que ele já é.

Porque a segurança psicológica é, em parte, responsabilidade minha, sim. E sua. As empresas nada mais são do que um conglomerado de pessoas e somos todos corresponsáveis pelo ambiente que criamos para nós mesmos e para os nossos parceiros do dia a dia. E entre acusações e mea culpa, o que podemos fazer de diferente hoje para deixar o mundo corporativo um pouco melhor do que ele foi ontem?