O que faz uma história local cruzar fronteiras?
ProXXIma 2026: Parrot Analytics aponta autenticidade cultural, emoção e fandoms como fatores de alcance global

Adriana Pascale, analista sênior de insights da Parrot Analytics, durante o ProXXIma 2026, ela refletiu, baseando-se em dados, sobre o cenário atual do audiovisual (Crédito: Eduardo Lopes/Máquina da Foto)
Na apresentação de Adriana Pascale, analista sênior de insights da Parrot Analytics, durante o ProXXIma 2026, ela refletiu, baseando-se em dados, sobre o cenário atual do audiovisual, em que a atenção do público se tornou um dos principais ativos da indústria e histórias produzidas localmente têm encontrado novas formas de alcançar audiências globais.
Segundo a executiva, o consumo de conteúdo já não se resume ao ato de assistir a uma produção. Ele envolve descoberta, interação, conversa social e diferentes formas de engajamento. “Hoje, mais do que nunca, a atenção do consumidor está cada vez mais poluído, e quem conseguir essa atenção vai se destacar no meio do ruído”, afirmou.
A apresentação partiu de uma análise sobre a relação entre oferta e demanda no mercado audiovisual. De acordo com a Parrot Analytics, produções globais já não são orientadas apenas pelo apetite local, mas também por dados de consumo internacional, que ajudam a definir o que será produzido e para quem. A empresa aponta que os serviços globais de streaming reduziram barreiras de distribuição e tornaram conteúdos estrangeiros acessíveis em diferentes idiomas e mercados quase simultaneamente.
Esse novo ambiente, segundo Adriana, alterou o tempo necessário para uma obra atravessar fronteiras. “Um conteúdo coreano, que antes demoraria dias ou anos para chegar ao Brasil, hoje chega praticamente no mesmo momento. As pessoas do mundo inteiro assistem ao mesmo tempo, o que gera conversa e engajamento antes mesmo de o algoritmo agir”, disse.
A combinação de engajamento e audiência
Antes de se tornar um fenômeno global na Netflix, a série já havia sido exibida pelo canal espanhol Antena 3. A partir da entrada na plataforma, porém, a produção registrou picos sucessivos de demanda global em suas novas partes, chegando a alcançar um pico de quase 100 vezes mais popularidade em relação à média dos conteúdos analisados pela Parrot. Mesmo após o fim da série, a demanda permaneceu elevada, indicando continuidade de interesse do público.
Para a executiva, o alcance da produção também está ligado à combinação de símbolos fortes e de fácil reconhecimento. Adriana citou a máscara de Salvador Dalí como um elemento de autenticidade cultural com apelo visual, o Professor como personagem capaz de gerar conexão emocional, a desigualdade social como tema universal, Bella Ciao como ativo de compartilhamento e o macacão vermelho como ícone visual associado à resistência.
Outro ponto abordado foi o papel dos fandoms como redes de distribuição. Adriana citou Rivalidade Ardente, produção canadense que ganhou tração internacional impulsionada por comunidades de fãs. Segundo os dados apresentados, a demanda pela série no Brasil cresceu rapidamente após o lançamento, enquanto, em termos de “travelability”, os Estados Unidos chegaram a superar o Canadá, país de origem da produção.
“O fã é um budget de marketing. A audiência engajada é um ativo importante”, afirmou Adriana. “Rivalidade Ardente viajou pelo mundo com muita popularidade pelos fãs, que fizeram com que ela tivesse uma demanda altíssima mesmo antes de ser lançada.”
As redes sociais também aparecem como um componente relevante dessa equação. No caso de O Verão que Mudou Minha Vida, a Parrot apontou que as interações sociais representaram 35% da fatia total de demanda durante a terceira temporada. Para Adriana, a dinâmica de conversa em torno da série ajudou a sustentar o interesse do público. “Você era quase obrigado a assistir porque queria saber com quem a protagonista terminaria. Esse valor da audiência é muito grande”, disse.

Adriana Pascale, analista sênior de insights da Parrot Analytics, no ProXXIma 2026 (Crédito: Eduardo Lopes/Máquina da Foto)
O fenômeno coreano
A apresentação também destacou o impacto da chamada onda coreana. No caso de Guerreiras do K-pop, Adriana argumentou que o sucesso internacional surgiu de um processo cultural construído com o tempo, com a expansão de K-dramas, música e outros produtos audiovisuais sul-coreanos. A produção aparece como líder de demanda em mercados como Estados Unidos, México, França, Reino Unido, Canadá, Austrália, Espanha, Itália, Filipinas e Brasil.
“Guerreiras do K-pop vem de uma onda coreana que não aconteceu do nada. Ela foi construída pela música e pelo audiovisual ao longo dos anos”, afirmou. “A diáspora fazendo a ponte é importante, a globalização quebrou barreiras, e a plataforma de streaming entrega o conteúdo.”
No Brasil, a demanda por séries coreanas cresceu 340% entre janeiro de 2020 e abril de 2026, segundo dados apresentados pela Parrot. Para Adriana, a evolução indica uma mudança de patamar. “Há picos, mas o que é perceptível é a crescente. Isso deixa de ser apenas um movimento pontual e passa a ser um movimento estratégico do mercado”, afirmou.
Além da distribuição, a executiva destacou elementos narrativos que ajudam histórias locais a alcançar públicos internacionais. Entre eles, estão temas universais inseridos em contextos culturalmente específicos. O exemplo citado foi Round 6, que parte de questões como desigualdade social, endividamento e sobrevivência, mas as apresenta por meio de símbolos ligados à cultura sul-coreana, como jogos infantis, hierarquias sociais e elementos visuais marcantes.
“Não exporte sua história, exporte sua verdade”, resumiu Adriana. Segundo ela, a força de produções desse tipo está justamente na capacidade de tratar sentimentos amplos sem diluir sua origem cultural.
Emoção como ativo de conexão
A dimensão emocional também foi apontada como fator de alcance global. Nesse ponto, a apresentação citou o filme brasileiro Caramelo, que, segundo a Parrot, teve demanda média global de 6,55 vezes acima da média entre filmes brasileiros lançados na Netflix em 2025, ficando atrás apenas de O Agente Secreto no recorte apresentado.
“Caramelo quebrou barreiras porque te permite chorar. O drama e os momentos difíceis são tratados de forma muito natural, e a audiência consegue se enxergar e se ver representada nessa emoção”, afirmou Adriana. “A emoção é o único idioma que não precisa de tradução.”
A autenticidade cultural foi outro eixo da apresentação. Para ilustrar esse ponto, Adriana citou Peaky Blinders, produção ambientada em Birmingham, no Reino Unido, com sotaques locais, cenário industrial e forte detalhamento histórico. Na avaliação da executiva, a escolha representava um risco comercial no momento do lançamento, mas ajudou a dar credibilidade à obra. “A audiência sentiu que era algo real, natural, sem ser forçado. Isso engajou muito”, disse.
Para Adriana, a expansão internacional de conteúdos locais não deve ser vista apenas como uma tendência passageira, mas como uma mudança estrutural da indústria. “Não se depende mais apenas de produtoras e emissoras. O conteúdo está a um clique de distância”, afirmou. “O Brasil é aberto à cultura. Exporte a sua verdade, porque haverá audiência para esse conteúdo.”
