A FOMO que virou FOME. Estamos incapazes de prestar atenção?
No SXSW, um comportamento apareceu: pessoas cercadas de conteúdo, mas menos presentes no que estavam vivendo
Participar do SXSW inevitavelmente ativa um tipo específico de ansiedade: a sensação constante de que sempre tem algo relevante acontecendo em outro lugar. A programação é extensa, os temas se cruzam, e, em muitos momentos, cinco ou seis palestras que você gostaria de assistir acontecem ao mesmo tempo. Escolher deixa de ser uma decisão simples e começa a carregar um pequeno incômodo, como se qualquer escolha viesse acompanhada de uma perda silenciosa.
Essa sensação tem nome. O FOMO, o medo de estar perdendo algo importante, já faz parte da experiência de qualquer evento desse porte.
Mas, ao longo dos dias, esse sentimento começou a ganhar outra forma. Não era mais apenas sobre não conseguir estar em todos os lugares. Era sobre uma tentativa quase compulsiva de não perder nada, mesmo quando isso significava não estar de fato presente em lugar nenhum. Como se escolher já não fosse suficiente. Como se fosse preciso dar um jeito de acompanhar tudo.
E é nesse momento que algo muda. O medo de perder deixa de ser o problema principal. O que aparece no lugar é a necessidade de ter tudo, mesmo que isso custe a experiência de viver qualquer coisa por inteiro.
Registrar passou a competir com a atenção
Em paralelo às palestras, começou a surgir um comportamento curioso. Não era algo oficial, nem organizado de forma estruturada, mas rapidamente ganhou espaço entre os participantes. Grupos e mais grupos se formando para compartilhar transcrições, anotações e resumos das sessões em tempo real.
A princípio, isso parece positivo. Uma forma de dividir conteúdo, ajudar quem não conseguiu estar em todos os lugares e ampliar o acesso ao que estava sendo discutido.
Mas, observando com mais atenção, algo começava a ficar estranho.
Pessoas que estavam dentro das palestras acompanhavam os grupos enquanto a sessão acontecia.
Outras demonstravam mais interesse no resumo que circulava depois do que no conteúdo ao vivo.
Em alguns momentos, a atenção deixava de estar no que estava sendo apresentado e passava a ser disputada pelo que estava sendo registrado.
Sem perceber, o que deveria apoiar a experiência começou a interferir nela.
A história do Sapo e da irmã da Amy Webb
A situação ficou ainda mais clara quando resolvi testar esse comportamento de forma prática.
Peguei uma palestra real e reconstruí a narrativa com pequenas distorções. Disse que a apresentação tinha sido feita pela irmã da Amy Webb, a Sam Johnson Webb, e criei uma linha de raciocínio que conectava elementos que, isoladamente, até existiam, mas que não tinham relação entre si daquela forma. Falei sobre experimentos desde os anos 60, mencionei a gelatina como um material que mudava de formato e sugeri que essa descoberta teria alguma conexão com a membrana do sapo, avançando até os xenobots e a ideia de que esse seria um dos caminhos mais relevantes para o futuro da inteligência artificial.
Ou seja, misturei fatos com interpretações e construí uma história coerente, mas que nunca tinha sido apresentada daquele jeito.
Compartilhei o texto e em poucos minutos, começaram a aparecer respostas de pessoas dizendo que tinham assistido à palestra, concordando com a narrativa como se ela fosse fiel ao que tinha sido discutido ali.
O mais curioso foi a facilidade com que ele foi aceito. Porque, naquele momento, não se tratava mais de alguém ter entendido errado. Era como se reconhecer o tema fosse suficiente para validar a experiência, mesmo sem ter passado por ela.
A lógica do acúmulo substituindo a lógica do aprendizado
Eventos como o SXSW sempre foram espaços de repertório. Lugares onde a escolha fazia parte do processo. Assistir uma palestra significava abrir mão de outra, e essa renúncia era parte do que tornava a experiência valiosa.
O que começa a aparecer agora é uma tentativa de eliminar essa perda.
Se alguém pode transcrever, resumir ou gravar, então nada precisa ser realmente perdido. Tudo pode ser recuperado depois.
Quando tudo pode ser acessado a qualquer momento, o momento deixa de ter valor.
Quando tudo pode ser acessado a qualquer momento, o próprio momento perde valor, e com ele a capacidade de sustentar atenção ao que está acontecendo. Ainda assim, a sensação predominante não é de profundidade. Isso gera uma fome de conteúdo que não nasce da curiosidade e sim da ansiedade.
O desconforto da falta de atenção
Ao longo dos dias, a sensação que fica não é apenas sobre excesso de conteúdo. É sobre um deslocamento mais sutil.
Estamos começando a valorizar mais o fato de ter acesso do que a capacidade de compreender.
Mais o registro do que a experiência. Mais a circulação da informação do que o impacto que ela realmente gera.
Temos mutia informação disponível, mas cada vez mais dependemos de alguém para interpretar por nós. Nunca foi tão fácil acessar ideias relevantes, mas cada vez mais difícil sustentar atenção suficiente para extrair algo delas.
Se alguém consegue dizer que assistiu a algo que não viu, concordar com algo que não entendeu e compartilhar algo que não viveu, o problema já não está mais no conteúdo.
Está na forma como estamos nos relacionando com ele. E, nesse ritmo, a pergunta deixa de ser sobre o que estamos aprendendo e sim se ainda estamos, de fato, prestando atenção.