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A inteligência artificial de uma mosca

Experimento com mente de mosca ilustra avanço do XR e os dilemas entre dados, imersão e privacidade

Daniel Bottas

CCO e Sócio da 20DASH 16 de março de 2026 - 17h52

Cientistas de uma startup chamada Eon Systems juntamente com diversas universidades americanas criaram um experimento para fazer o upload digital da mente de uma mosca.

Mas o que significa isso?

Eles escanearam o mapa de neurônios de uma mosca e replicaram esse mapa em um ambiente digital. Além disso, criaram um ambiente virtual 3D para a mente da mosca viver.

Isso não é a nova temporada de Westworld ou de Black Mirror.

Essa é a nova era do XR (Mixed Realities), onde novas realidades estão sendo criadas através da neurociência e da inteligência artificial.

O XR sempre foi uma parte importante do SXSW, e a minha rota de hoje foi em cima desse assunto. Desde que trabalhava na Meta, venho investindo o meu tempo em descobrir como podemos usar a realidade virtual e aumentada não só para o marketing mas também de uma forma funcional para outras áreas da sociedade.

Na Exposição de XR que iniciou hoje, podemos perceber uma evolução da interatividade no storytelling dos projetos apresentados. A gamificação da narrativa é inevitável, a história contada em uma realidade mista precisa de alguma forma que o próprio espectador seja um personagem dessa história.

A experiência desses projetos encanta as pessoas pois a mente humana é facilmente enganada quando estamos imersos em uma realidade mista. Por mais que seja claro para os nossos olhos o que é verdade e o que é mentira, para o subconsciente não é tão claro assim. Assim conseguimos entrar dentro da fantasia de uma forma muito mais fácil.

No painel “The next Evolution of XR” um dos pontos que foi discutido foi justamente que um diretor precisa entender uma cena 360 graus e não apenas o enquadramento da câmera. Pois justamente a base desse tipo de experiência é que quem decide o foco de visão é o usuário, ou seja, a interatividade está na base do conceito da realidade mista.

E é por isso que os dados de comportamento do usuário são tão importantes para desenvolvedores e plataformas, é impossível criar algo tão tecnológico sem informação de como as pessoas absorvem esse novo tipo de tecnologia, principalmente quando estamos falando de Marketing.

Foi exatamente isso que foi discutido em outro painel chamado “Operating Systems of the 3rd Millennium: AI + XR + Neuro”.

Em um debate meio caótico sobre os dados absorvidos por todos os wearables tecnológicos que estamos usando em nosso dia a dia, a grande preocupação é a quantidade de dados pessoais que as plataformas têm acesso, e principalmente a utilização desses dados. O debate é sobre como evoluir uma tecnologia sem dados, a contradição é que as pessoas querem os benefícios da tecnologia mas ao mesmo tempo querem a privacidade dos seus dados. Segundo Matt Angle, CEO da Paradromics, uma empresa de Neuro tecnologia, essa conta não fecha, pois é impossível evoluir sem os dados que vem direto da mente do usuário.

Assim como a mosca virou imortal em um mundo virtual, muitos de nós vamos querer também prolongar a vida em um possível “upload da mente” na nuvem, mas para isso vamos precisar doar não só dados mas o nosso banco de dados inteiro.

A inteligência de uma mosca nunca foi tão valorizada. Ela é a mistura de tudo que pude vivenciar nessa minha rota de XR. A mistura da AI, da Neurociência e da arte. É só o início de uma história fascinante que eu espero que não acabe afogada dentro de uma sopa.