Ao prompt que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver
Sobre quando passei dessa pra melhor em Austin
Morri em Austin. Sou apenas um espectro vagando pela cidade. O vento gelado que muitos sentiram enquanto trafegavam entre os Hiltons, Mariotts e Targets da cidade nos últimos dias era a minha presença mórbida procurando respostas para meu inesperado passamento.
Não, não fui atropelado por um carro autônomo e nem atacado por um robô humanoide. Minha causa mortis será desvendada por uma perícia técnica altamente desenvolvida por IAs e manipulada por braços robôs que dissecarão meu coração.
Minhas últimas lembranças em vida, confusas, misturadas, são de painéis, keynotes e sessões onde ouço vozes sobrepostas falando sobre a beleza da bagunça e do caos humano. Ou sobre autenticidade e intencionalidade. Também sobre se importar com as pessoas. Sobre a importância de se desenvolver conexões significativas num mundo que está caminhando pra merda.
Essas vozes seguem gritando e reverberando na minha cabeça, enquanto a voz de um aclamado diretor de cinema sussurra que em vez de ouvir a voz alta do seu cérebro, é preferível escutar os sussurros da sua intuição.
Por um momento cheguei a acreditar que o grande pêndulo das tendências humanas finalmente deixava de oscilar rumo à certeza de uma inteligência impessoal e voltava a balançar rumo à valorização das incertezas humanas.
Acho que foi nessa hora que me virei distraído e o pêndulo acertou em cheio meu lobo frontal, me levando à óbito. Quando percebi estavam todos ao meu redor, num funeral que não era o meu, festejando o fim da era das tendências. E celebrando o início da era da convergência. Amy Webb estava no palco eufórica, regendo uma banda escolar que “animava” o velório.
E aí percebi que toda aquela humanidade defendida nos palcos soava distante, falsa, artificial.
Lembrei que uma semana antes do SXSW começar, já na fase de organização do evento, um atentado tirou a vida de três pessoas e feriu mais 14 em Austin. Nenhuma menção a isso em nenhuma palestra. Tudo transcorria na cidade como se nada tivesse acontecido. Nenhuma homenagem. Nenhum minuto de silêncio.
Minto. Houve um minuto de silêncio, mas para a morte de um relatório de tendências.
Sim, vivos amigos, a valorização da humanidade, das relações humanas, do se importar com o outro, do comprometimento, do pertencimento… tudo isso me pareceu ter virado um mero tema de palco, daqueles que as pessoas anseiam ouvir, mas talvez não estejam tão preocupadas em aplicar na vida real. Pelo menos aqui.
Posso estar errado. Tudo isso pode ser só fruto de um viés desenvolvido em vida, após trabalhar muito tempo com comunicação de interesse público. Um olhar enviesado que me faz crer que toda comunicação, seja ela de interesse público ou não, exige comprometimento público.
Sigo vagando torcendo para estar errado. Principalmente quando na confusão da minha cabeça surge mais uma voz falando sobre rituais de luto aplicados a fim de processos e jornadas. E dá-lhe painéis como When the future dies, Thrive or survive, The brand is dead? Sei que a morte é algo inerente a humanidade. Mas existe algo mais humano que querer viver a vida na sua plenitude?
Foi em busca dessa plenitude que dobrei uma esquina da Congress Ave e, distraído, fui novamente atingido pelo pêndulo, que me acertou de novo na cabeça.
Morri novamente.
Agora não sou mais vento, sou som. O som de uma sanfona acompanhando a voz afetuosa e calma de João Gomes cantando na noite gelada de Austin: Resgate suas forças e se sinta bem/ rompendo a sombra da própria loucura/ Cuide de quem corre do teu lado e quem te quer bem/ Essa é a coisa mais pura.
Isso aquece o coração, visse? Tô cercado de gente rindo e se divertindo, dançando coladinhas, cantando e rindo alto, brindando junto, trocando contatos e propostas. Comerciais ou não.
Marrapá, a gente sabe viver, viu! Mesmo morrendo de trabalhar. E sabemos muito, muito mesmo, sobre interações humanas. Sejam elas virtuais ou presenciais.
Peraí que tô ouvindo João cantando mais um trecho bonito agora: Viver, viver e ser livre/ Saber dar valor às coisas mais simples/ Só o amor constrói pontes indestrutíveis
Em Austin, vi que os gringos têm muito a nos ensinar sobre inovação. Mas somos nós, brasileiros, que temos sensibilidade pra ensinar ao mundo como colocar em prática essa tal humanization.
Como é bom morrer em Austin. E renascer no Brasil.