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Mercado mostra medo do futuro e a urgência de sonhar

Festival destacou riscos do futuro e a urgência de imaginar caminhos possíveis e desejáveis para ele

Leandro Herrera

Fundador e CEO da Tera 18 de março de 2026 - 19h43

O maior evento de inovação do mundo dedicou sua edição de 2026 a falar sobre o que pode dar errado no futuro. Não naquele futuro distante, mas em um futuro bem pertinho. Quase na borda do presente. 

É curioso. O SXSW sempre foi o lugar onde a gente vai para ver o que vem pela frente e se empolgar com isso. Este ano, vi gente brilhante olhando para a IA do tamanho que ela é e se sentindo pequena. Embasbacada. Como se tivéssemos construído algo grande demais para nós mesmos e agora não soubéssemos o que fazer com ele. 

O problema é que ninguém constrói o futuro a partir de uma lista de catástrofes possíveis. Constrói a partir da coragem de imaginar como as coisas podem dar certo. 

O relógio descompassou, e isso é pode ser uma boa notícia

Neil Reding, futurista que pesquisa a relação entre IA e liderança, cunhou um termo interessante: “clock drift” (relógio descompassado, em tradução livre). Basicamente, é a ideia de que a IA executa mais rápido do que organizações decidem. Alguém constrói uma ferramenta funcional em uma tarde, mas leva três semanas para conseguir aprovação para testar. 

Fiz uma visita na Indeed  e vi o que acontece quando você leva isso a sério. Segundo a VP de IA da empresa, 75% dos funcionários são usuários regulares de IA e 77% se sentem confiantes, partindo de quase zero há um ano. O segredo foi o treinamento por função: vendedores aprendendo a vender com IA, marketeiros aprendendo a criar campanhas com IA, power users virando coaches dos colegas. Resultado: 7 a 10 vezes mais produtividade versus simplesmente distribuir uma ferramenta e torcer para a turma usar. 

O descompasso do relógio assusta quando você olha pelo lado do atraso. Mas pelo outro lado, ele diz algo animador: quem se mover agora tem uma vantagem absurda. A maioria das empresas não redesenhou um único cargo ao redor de IA. Isso significa que o campo está aberto e que a diferença entre empresas que prosperam e empresas que estagnam nos próximos dois anos não será tecnológica. Será da capacidade de reorganizar e qualificar suas equipes para uma nova era. 

O universo que a gente ainda não sabe ouvir

A palestra mais surpreendente da semana não foi sobre negócios. Aza Raskin, do Earth Species Project, explicou que a IA consegue construir representações geométricas de qualquer linguagem e que essas geometrias são universais. Inglês, japonês, aramaico, finlandês: todas encaixam numa “mesma forma”. Imagens, DNA, música, movimento robótico também. Tudo pode ser traduzido de e para qualquer outra coisa. É por isso que IA avança em todos os campos ao mesmo tempo. É um insight só, aplicado em mil direções.

A equipe dele começou a aplicar IA para decodificar comunicação animal. O que encontraram é perturbador de tão bonito: corvos têm um vocabulário inteiro de chamados sussurrados que cientistas nunca registraram. Nos golfinhos, metade dos chamados são nomes próprios. Baleias transmitem cultura pela linguagem há 34 milhões de anos, 85 vezes mais do que nossa espécie existe.

Raskin fez uma pergunta que ficou comigo: “Seja lá o que for a solução para os nossos problemas, eu diria que não é a imaginação humana. Porque se fosse, já estaríamos fazendo.” Onde encontrar, então? Talvez em 34 milhões de anos de cultura que nunca ouvimos. 

A última vez que construímos um telescópio e apontamos para o universo, descobrimos que a Terra não era o centro. Dessa vez, disse Raskin, vamos descobrir que a humanidade não é o centro. E isso, por incrível que pareça, é libertador. Porque nos tira da obrigação de ter todas as respostas e abre espaço para uma postura mais rara e mais útil: escutar.

O que as pessoas realmente precisam quando as máquinas fazem tudo

Jennifer B Wallace estuda um assunto que ela chama de “mattering,” a sensação de importar. Ela mede esse fenômeno com algumas perguntas simples: quanto os outros prestam atenção em você, quanta falta fariam, quanto mostram que se importam. A pesquisa dela explica por que 70% dos funcionários do mundo estão desengajados. Talvez seja autoproteção. Dói menos parar de tentar do que continuar se esforçando num lugar onde você se sente invisível.

Ela contou a história de uma fábrica em Wisconsin na qual a gestão colocou um cartão em cada estação de trabalho com a foto e a história da pessoa que usaria a peça fabricada. Operários choraram descrevendo como se sentiam. Uma engenheira disse que sentir-se valorizada no trabalho dava a ela a energia emocional para ser a mãe que queria ser. O que fez a diferença não foi tecnologia, nem salário, nem benefício. Foi um cartão com uma foto e um nome.

Líderes de tecnologia preveem que em dez anos, humanos podem não ser necessários para a maioria das tarefas. Se isso for verdade, mesmo que parcialmente, a pergunta que importa não é “como automatizar mais? é “como faço as pessoas sentirem que importam quando a máquina faz o trabalho que era delas?”. Isso é um problema de liderança, não de tecnologia. 

O SXSW 2026 mostrou que sabemos descrever em detalhes o futuro que tememos. Falta exercitar o músculo oposto: descrever com a mesma precisão o futuro que queremos. Porque o medo é um bom diagnóstico, mas um péssimo arquiteto. E o futuro vai pertencer a quem ainda sabe sonhar junto.