Conexão Austin

O valor inesperado da imperfeição

Entre IA, saúde e esporte, o evento lembra: tecnologia avança, mas são as falhas humanas que nos conectam

Gustavo Teitelbaum

Co-CEO da Lukso 15 de março de 2026 - 15h50

Em uma maratona de conteúdo, é preciso de planejamento para não quebrar. O receio de estar perdendo alguma coisa em Austin é real e físico, porque tudo acontece ao mesmo tempo.

Para sobreviver, a resposta é fazer o simples: manter rotina de sono, alimentação e exercício. Falando em sono, como um bom brasileiro estava alguns minutos atrasado para o ponto de encontro da corrida de rua do SXSW. Chamei um Uber para chegar mais rápido e dei sorte: veio um carro autônomo da Waymo. Naquele momento, agradeci por ter me atrasado. Fui fazer algo tão humano quanto correr e quem me levou foi um carro sem motorista. Há algo de poético em deixar a máquina te levar para fazer o que ela não consegue fazer por você.

A corrida já estava esgotada de inscrições e não é por acaso. Vivemos uma virada geracional em relação à saúde, que Scott Galloway resumiu bem horas depois: ele acredita que o GLP-1 (canetas emagrecedoras) é uma tecnologia mais transformadora para nós do que a inteligência artificial. O argumento é simples: tudo que o GLP-1 faz nos ajuda como seres humanos. A socializar, a viver mais, a ter mais qualidade de vida. Essa é uma distinção que vale guardar: tecnologia que nos serve versus tecnologia que potencialmente nos substitui.

Pensando em novos hábitos de consumo, colocaram chocolate (Renata Vichi, Board Member da Kopenhagem) e bebidas alcoólicas (Guilherme Martins, CMO da Diageo Brasil) para debater os equilíbrios entre o prazer e o excesso. E definitivamente, estamos vivendo o fim da romantização do excesso. O consumidor não quer abrir mão de um bom drinque ou de um bom chocolate, só quer que essa experiência recompense mais.

A moderadora e CEO da WGSN, Carla Buzasi, fez então a pergunta mais interessante da sessão: é mais difícil mexer nos ingredientes ou na narrativa? Sem hesitar, a resposta foi a narrativa. Reformular um produto é um desafio de engenharia. Reconquistar a percepção das pessoas é um desafio humano.

Na fala de abertura, o passador de slides da Carla travou. Ela esperou, clicou de novo, a sala esperou junto. Ela riu, todo mundo riu. Quando a máquina erra, a gente se irrita. Quando um humano se atrapalha, a gente empatiza. E isso não é por acaso, é porque nos identificamos. A imperfeição é o que nos aproxima.

Tom Sachs, artista nova-iorquino, constrói toda a sua obra em cima dessa ideia. Ele recria objetos de design e tecnologia à mão, com imperfeições visíveis, porque acredita que a arte torna a ciência mais humana. Enquanto todo mundo acorda e pega o celular, ele acorda e pega a escultura para remodelar. O que levamos disso? Mais uma vez, as marcas do trabalho humano ficam e isso é intencional.

O dia precisava encerrar voltando pro esporte, então fui ver Moro Ojama, jogador de futebol americano do Philadelphia Eagles em uma conversa sobre tecnologia. Com 24 anos, ele descreveu o próprio time como 32 empresas milionárias que jogam juntas para performar melhor. E isso pode ser feito através dos dados e da ciência. Ele falou que os torcedores são muito resistentes a mudanças no esporte. Mas quando o esporte muda, é um indicador de que a tecnologia realmente avançou.

Talvez essa seja a síntese dos últimos dois dias: a tecnologia avança, mudam os esportes, a forma de dirigir os carros, de emagrecer, de otimizar as campanhas. E em algum momento no meio disso tudo, um slide trava e a gente se lembra do que realmente conecta as pessoas.