Otimismo ou apocalipse? A escolha sobre a IA ainda é nossa
Da TV à IA, o desafio não é usar mais tecnologia, mas qualificar o tempo e o valor das conexões humanas
Assim como todas as pessoas…Eu já fui o mais jovem do departamento, claro. Naquela época, só eu sabia mexer no PowerPoint. Parecia algo revolucionário: o fim das propostas feitas no Word. Sem dúvida que aquela “revolução” foi bem menor do que o impacto que a inteligência artificial provoca hoje, mas foi a primeira vez que percebi como a tecnologia afeta diferentes gerações.
Tive a sorte de estar entre os primeiros profissionais a trabalhar em uma empresa americana de Pay TV no Brasil, a Turner, hoje parte da Warner/Discovery e da Paramount (como tudo mudou!). Naquele tempo, o único canal feito 100% para o Brasil era o Cartoon Network. Todos idolatravam, pois era líder de audiência e fazia sucesso com as crianças (e com os adultos também). Mesmo assim, já era comum encontrar pais preocupados com o tempo que os filhos passavam em frente à TV. O tempo passou, as crianças cresceram e os responsáveis, pais e mães, começaram a questionar o tempo que seus filhos, agora adolescentes, passavam diante do computador.
Depois veio o iPad, o videogame e o smartphone. Mas, com a inteligência artificial, tudo escala (como gostamos de falar) muito mais e o celular, depois do ser humano, passa a ser outro importante personagem nessa série sem fim. Uma invenção fantástica, mas que requer cuidados quanto ao tempo e à forma de uso.
No SXSW, tive a oportunidade, junto com cerca de 500 pessoas, de assistir ao documentário “AI Doc: Como Me Tornei um Apocaloptimista (Apocalipse + Otimismo)”. O filme coloca, mais uma vez, o ser humano no centro da discussão, com bastante equilíbrio. Um pai, que acaba de ter uma filha, se questiona sobre qual será o impacto da IA na vida dela. Por meio de entrevistas rápidas e diretas, o documentário mostra como pensadores e pesquisadores enxergam o futuro. De um lado, estão aqueles que acreditam que a IA irá prejudicar ainda mais o ser humano. Do outro, estão os que acreditam que ela irá revolucionar positivamente nossas vidas.
Mas existe também um terceiro elemento que, pessoalmente, considero muito importante: os donos das empresas de IA. Nos Estados Unidos, eles são idolatrados, mas são concorrentes. Querem vencer, ganhar mercado e muito dinheiro. Como em qualquer indústria, também passarão por fusões e confusões. Somos hoje mais de 8 bilhões de pessoas. Geramos dados como nunca antes. Sabemos, em grande parte, o que muitas pessoas pensam, consomem e desejam. Mesmo assim, seguimos cheios de medo, dúvidas e receios.
Será que, com tantos dados, ainda precisamos viver assim? Será que vamos temer mais uma onda tecnológica que veio para ficar? Se foram colocados cintos de segurança nos carros, será que não conseguimos fazer algo semelhante com o uso dos celulares para termos realmente uma vida melhor? E aqui vejo um papel fundamental para nós, do mercado de influência e da comunicação. Nossa missão deixa de ser apenas disputar segundos de atenção e passa a ser a de qualificar esse tempo. Se as pessoas vão estar conectadas, que seja para consumir conteúdos que informem, divirtam de verdade ou inspirem, criados por vozes humanas e autênticas.
A IA pode ajudar a encontrar a cura para muitas doenças, mas também pode, infelizmente, contribuir para situações não tão boas. No fim das contas, a escolha continua sendo humana. Mais uma vez, tudo está em nossas mãos. O documentário será lançado nos cinemas dos EUA no dia 27 de março. Ainda não encontrei informações sobre o lançamento no Brasil, mas vale a pena esperar. Concordando mais com o otimismo ou com o apocalipse, é um filme que precisamos assistir.
Eu, particularmente, prefiro ser otimista. Prefiro ter esperança. Assim vivo melhor. Mas confesso: estou preocupado com a quantidade de horas que passo no celular. O desafio não é parar de usar, mas usar melhor, transformando conexão em valor real, e não apenas em tempo perdido.