SXSW

Confiança, identidade e a dinâmica das relações entre humanos e máquinas

Confiança e a validação do real viram pilares centrais contra o avanço das IAs e deepfakes

José Restrepo

CMO da Unico 11 de março de 2026 - 15h14

O South by Southwest (SXSW) de 2026, que se inicia em 12 de março, é um momento
importante na maneira como vemos a relação entre seres humanos e tecnologia. Mais do
que antecipar tendências, o evento costuma abrigar os debates essenciais que vão modelar
o futuro da sociedade.

Neste ano, um dos temas que atravessa diferentes trilhas do festival é a redefinição da
relação entre humanos e máquinas, especialmente em um cenário em que a inteligência
artificial avança rapidamente na geração de conteúdo, na automação de decisões e na
mediação das interações digitais.

Esse debate ganha relevância quando observamos os dados do mercado. Segundo pesquisa
“State of AI 2024” da McKinsey, 65% das empresas já utilizam inteligência artificial em ao
menos uma função de negócio, praticamente o dobro do registrado em 2017. Ao mesmo
tempo, o avanço tecnológico traz novos desafios de governança, segurança e confiança
digital.

Outro levantamento relevante é o relatório “Top Strategic Technology Trends 2026”, da
Gartner, que aponta que a próxima onda de inovação tecnológica será estruturada em três
grandes frentes: a construção de bases digitais para IA (“The Architect”), a orquestração de
sistemas inteligentes (“The Synthesist”) e o fortalecimento de mecanismos de segurança,
confiança e governança (“The Vanguard”).

Nesse último grupo, ganham destaque tecnologias como cibersegurança preemptiva,
plataformas de segurança para IA e soluções de rastreabilidade digital, iniciativas que
buscam garantir autenticidade, proteger dados e mitigar riscos em um ambiente mediado
por inteligência artificial.

Esse contexto ajuda a explicar por que discussões sobre autenticidade, identidade e
confiança digital aparecem com tanta força na programação do SXSW 2026. Em um
ambiente em que conteúdos podem ser gerados, manipulados ou replicados com extrema
facilidade, a pergunta que começa a orientar líderes de tecnologia e negócios passa a ser
“como garantir que aquele insumo é real?”.

Entre os painéis que ajudam a expandir esse debate estão sessões como “The Price of
Influence: Why Undefined Value Kills Trust”, que discute como a influência digital enfrenta
um momento de redefinição em meio à proliferação de conteúdo sintético, e “Reclaiming our
Humanity in the Age of AI”, que explora como podemos moldar o futuro da inteligência
artificial para beneficiar as pessoas, de modo a refletir uma nova visão que coloca a
humanidade no centro do desenvolvimento tecnológico.

O pano de fundo dessas discussões é um fenômeno que já preocupa empresas, governos e
plataformas digitais: o crescimento acelerado de conteúdos sintéticos e deepfakes. Segundo
o relatório “Deepfake banking e risco de fraude de IA”, da Deloitte Insights, os custos
globais relacionados a fraudes habilitadas por IA podem ultrapassar US$40 bilhões até
2027, impulsionados pela evolução das tecnologias de geração de imagem, áudio e vídeo.

Nesse cenário, a confiança passa a ser um componente estrutural das plataformas digitais.

Isso porque, quando consumidores, empresas e governos interagem em ambientes
automatizados, a capacidade de garantir que existe uma pessoa real do outro lado da tela se
torna elemento central para a sustentabilidade dos negócios digitais.

No dia 16 de março, por exemplo, Davi Reis, Tech Advisor da Unico, fará a palestra
“Authenticity vs. Deepfake: Who Validates What’s Real?”, que aborda justamente um dos
desafios mais urgentes da economia digital: como validar a autenticidade das pessoas,
conteúdos e interações em um ambiente cada vez mais permeado por inteligência artificial. A discussão é particularmente relevante quando observamos a evolução recente das fraudes
digitais.

Dados da Unico indicam que tentativas de ataques sofisticados cresceram 1.082% em 2025
em comparação com o ano anterior, impulsionadas pelo uso de tecnologias de manipulação
de imagem e vídeo.

Esse tipo de movimento evidencia uma mudança estrutural na forma como a segurança
digital precisa ser pensada. Não se trata apenas de proteger sistemas, mas de garantir a
integralidade das identidades que participam das interações digitais. Em outras palavras, à
medida que a inteligência artificial amplia as possibilidades de criação e simulação, cresce,
também, a necessidade de mecanismos robustos de verificação de identidade.

A grande virada de chave deste ano no SXSW é a compreensão de que as mesmas
tecnologias que desafiam a realidade estão sendo orquestradas para protegê-la. O
surgimento de ecossistemas baseados em identidade digital soberana, biometria
comportamental de alta precisão e protocolos de rastreabilidade em tempo real não serve
apenas para barrar fraudes; eles existem para que possamos continuar confiando uns nos
outros, algo essencial para os negócios. Ao priorizarmos a confiança como o pilar central do
desenvolvimento tecnológico, estamos assegurando que, no futuro mediado por IAs, o que
prevaleça seja, acima de tudo, a nossa humanidade compartilhada