Mentorias no SXSW, a forma menos óbvia de habitar o festival
Sessões 1:1 com executivos globais entregam o que nenhum keynote consegue, respostas práticas para os seus problemas específicos
Quando eu contava para as pessoas que tinha mentorias na agenda do SXSW, a reação era sempre a mesma: surpresa. “Nossa, que diferente. Nem tinha pensado nisso.” E é exatamente aí que está o ponto.
O festival oferece um programa de mentorias 1:1 com executivos e especialistas de empresas e contextos diversos. O formato é simples: você reserva uma sessão pelo mesmo sistema de agendamento dos keynotes, aparece no horário, e passa os próximos 15 minutos numa sala de reunião com alguém que tem décadas de bagagem na área que você quer explorar. Sem palco, sem auditório, sem mediador. Poucas pessoas fazem isso e eu passei dias indagando por que quase ninguém se interessa por esse tipo de interação.
O problema não é saber que existem, é a preparação que assusta
As mentorias não estão escondidas. Estão no mesmo app, no mesmo sistema de reservas, visíveis para qualquer participante. O que as torna invisíveis para a maioria é o que elas exigem antes de acontecer.
Sentar num auditório é passivo. Você separa o horário na agenda, aparece, anota algumas coisas e absorve o conteúdo. Já a mentoria exige uma postura mais intencional. Para realmente fazer valer aqueles 15 minutos, além de escolher os mentores certos, o ideal é estudar o perfil de cada um, definir qual problema você quer resolver ou qual ângulo quer a perspectiva da pessoa sobre seu desafio, estruturar as perguntas com foco, e chegar preparado para conduzir uma conversa, não para ser conduzido por ela.
No meu caso, usei a IA para acelerar boa parte desse processo. Para a curadoria inicial, coloquei todas as opções de mentoria disponíveis com as bios dos mentores, descrevi meus desafios profissionais e pedi que ela me entrevistasse para se aprofundar no meu contexto. Com base nisso, pedi então que selecionasse os perfis mais relevantes para o que eu estava buscando. Um trabalho que sozinha eu levaria horas, pesquisando LinkedIn por LinkedIn e sessão por sessão, levou apenas alguns minutos e foi bem mais assertivo do que eu teria sido. Depois disso, estudei cada perfil selecionado em detalhe, defini os ângulos que queria explorar, e preparei as perguntas, algumas delas com ajuda da IA novamente para garantir não só o foco certo, mas que também seriam assertivas o suficiente para caber nos 15 minutos de conversa. Antes de cada sessão, pedi também que a IA preparasse uma introdução de 30 segundos, para que me apresentasse e desse contexto do meu desafio à partir do ângulo que eu iria explorar com aquela pessoa, sem perder os 5 minutos iniciais divagando sobre mim e minha carreira.
No dia de cada sessão, cheguei à todas meia hora antes, sentava na sala de espera e aproveitava esse momento para me concentrar, passando a introdução e as perguntas que
montei com a IA para o caderno. Me preocupei também em ensaiar as falas todas em inglês, porque conduzir uma conversa estratégica numa língua que não é a sua exige um tipo de preparo diferente. Pode parecer excessivo, mas não acho que é. Isso é o que separa uma troca transformadora de uma conversa genérica sobre carreira.
Dentro da sala de mentoria
A dinâmica real das sessões me surpreendeu. Eu chegava com um roteiro, mas o roteiro era só o ponto de partida. Na maioria das sessões, a primeira pergunta abria uma conversa que levava a outras perguntas que não estavam no script, e em algum momento os mentores começavam a me fazer perguntas também, querendo entender melhor o contexto, a empresa, o desafio específico. O que começava como entrevista virava troca.
Com Kevin Smith, ex-Head of Enterprise Partnerships do Google e hoje investidor e CPO fracionado, trabalhei questões muito táticas sobre como posicionar design como camada estratégica dentro de organizações, e como avaliar experimentos de IA de forma pragmática, na direção certa, não só construir por construir. Saí com a cabeça explodindo de insights e precisei de um tempo sozinha caminhando pela cidade para assimilar tudo. As coisas que ele disse pareciam óbvias na hora, e é exatamente por isso que eram tão poderosas.
Com David Muntz, da StarBridge Advisors, falamos sobre capital político para design. Como falar de design com quem não entende a técnica. Como provar valor não só mostrando resultados, mas expondo os riscos de não ter design na mesa. A resposta também pareceu óbvia: fale em números e use métricas para provar valor. Incrível. Um conselho simples mas inspirador, é uma daquelas coisas que no dia-a-dia a gente não consegue parar pra pensar e executar. Ele me deu o cartão dele, pediu para eu mandar email, manter contato, e que vai compartilhar os materiais que usa nas aulas. Esse tipo de desdobramento não acontece em auditório.
Com Liz Cohen, da Crunchyroll, explorei a questão da credibilidade e postura executiva. Ela me contou como entrou na empresa sem nunca ter liderado um time e dois meses depois estava conduzindo uma das maiores aquisições da história daquela empresa. O conselho que ficou: evite demonstrar a insegurança que você sente por dentro. Postura e confiança constroem credibilidade ao longo do tempo, e essa credibilidade é o que abre as portas seguintes. Era algo que eu já sabia e de certa forma aplicava, eu visto o que chamo de capa do corporativismo todo dia de manhã. Ouvir isso de alguém com essa trajetória transformou minha intuição em convicção.
Com Ellen Kiss, do Nubank, única sessão que conduzi em português e isso mudou completamente a profundidade da troca. Falamos sobre design estratégico, sobre métricas como linguagem de influência, e sobre o papel do design na construção de sistemas agênticos. Ela me deu uma dica concreta e, mais uma vez, que parece óbvia: criar um dashboard único com todos os produtos e suas métricas de usabilidade lado a lado, para ter uma visão comparativa que hoje não existe e dar essa visão para outras lideranças também. Simples, acionável, transformador. E também reforçou algo que eu sentia mas não tinha certeza se estava só defendendo meu território: o design precisa estar na construção de agentes desde o início. Não é proteção de área, é estratégia de usabilidade.
A diferença que nenhum keynote entrega
Nos auditórios, o conteúdo é poderoso e necessário. As sessões moldam visão estratégica, expõem tendências, ampliam o horizonte de possibilidades. É o tipo de conteúdo que vai contaminar meu trabalho nos próximos meses, mas de forma gradual, à medida que eu assimilo e encontro onde encaixar.
As mentorias funcionam diferente. O que foi discutido nesses 15 minutos por sessão atende um problema específico que eu tenho hoje, não uma tendência que vai se materializar em 2030. Saio com um plano tático que consigo implementar amanhã, se eu quiser. As sessões me dão a perspectiva global. As mentorias me dão o mapa local.
O SXSW oferece acesso a pessoas que, fora daqui, você provavelmente não conseguiria alcançar numa conversa assim, pelo menos não facilmente. Executivos com décadas de bagagem, dispostos a sentar na sua frente e decupar seu problema junto com você. Não para vender um framework pronto, mas para pensar junto sobre o que faz sentido na sua situação específica. O próprio Kevin Smith disse isso com todas as letras: os frameworks mudam ao longo do tempo, mas a base é a mesma, se atenha a ela.
Talvez seja essa a coisa mais valiosa que uma mentoria pode entregar: não a resposta, mas a confirmação de que você está fazendo as perguntas certas.