O ‘efeito Waymo’ na educação
Como a IA nos convida a repensar a experiência em sala de aula
Minha recente imersão no SXSW 2026, em Austin deixou uma marca profunda, não pelas tecnologias em si, mas pela reflexão sobre como as utilizamos. Ao circular pela cidade, é impossível não notar os carros autônomos da Waymo. Eles carregam um paradoxo visual curioso: o veículo é idêntico ao que conhecemos, com assento do motorista e volante, embora a tecnologia já permita que opere de uma forma completamente disruptiva. Inovamos na inteligência, mas mantivemos o design de uma era anterior.
Essa imagem funciona como um espelho para a educação. O risco que corremos hoje é tentar ‘encaixar’ a IA dentro de um modelo de sala de aula desenhado para quando a informação era escassa e centralizada. O convite não é para usar a tecnologia para substituir o educador, papel que é, por natureza, insubstituível, mas para redesenhar a dinâmica escolar. Quando a IA assume a carga ‘operacional’ do conteúdo e a personalização de trilhas, ela não esvazia o banco do motorista, porém libera o professor para exercer sua potência máxima de mentor e facilitador em uma jornada de conexão real com cada aluno.
Muitos educadores sentem, com razão, um misto de ansiedade e animosidade diante da IA. É um medo legítimo de perda de função social. Mas a verdade é que os alunos já adotaram essa tecnologia, ela faz parte da forma como eles pesquisam, criam e se comunicam fora (e dentro) da escola. Quando o ambiente escolar tenta banir ou ignorar essa realidade, não está apenas proibindo uma ferramenta, está fechando um canal de diálogo com o aluno.
Essa desconexão entre gerações já dava sinais antes mesmo da inteligência artificial. Séries como Adolescência ilustram bem como adultos e jovens podem falar línguas distintas, mesmo usando o mesmo idioma. Banir é afastar. E afastar é desconectar.
Em vez disso, é preciso encarar a IA a partir de outra perspectiva. Se o acesso ao conhecimento se tornou uma ‘commodity’, como destacou Julia Germosen, fundadora do Trust Capital Ai, em sua palestra, o papel do educador precisa evoluir. Quando o docente se posiciona apenas como detentor da informação, ele acaba competindo com ferramentas como GPT, Gemini ou Claude. Por outro lado, ao se estabelecer como arquiteto do pensamento crítico, deixa de ser comparável para se tornar verdadeiramente insubstituível.