Quando a ciência aprende com a arte (e vice-versa)
O painel da Colossal Biosciences no SxSW 2026 conectou conservação genética, narrativa cultural e responsabilidade de governos — e deixou perguntas que vão além da biotecnologia
No dia 13 de março, em Austin, Ben Lamm, CEO da Colossal Biosciences, conduziu uma conversa no SxSW 2026 que começou pela identidade de marca da empresa e terminou em filosofia. No meio do caminho, passou por vacinas de mRNA para elefantes, coalas com edições genéticas, uma HQ dos anos 1960 em que um Moa enfrenta o Superman e uma proposta de rede distribuída de bio vaults a ser construída com governos ao redor do mundo.
Para quem estava na plateia, ficou claro que a sessão tocava em algo além de tecnologia — tocava no modo como civilizações escolhem o que preservar.
Merecia mais destaque no festival – foi um painel de inovação em essência.
A arte não apenas decorou o futuro. Em alguns casos, ela o antecipou.
Um dos momentos mais diretos da fala de Lamm foi sobre Jurassic Park. Ele não citou o filme como um problema de comunicação a ser corrigido — mas como um documento cultural que preparou terreno e educou pessoas para que a ciência chegasse até aqui.
“Muitos cientistas de genética escolheram essa carreira por causa de Jurassic Park”, disse Lamm. “Não porque queriam criar dinossauros — mas porque o filme tornou tangível uma tecnologia que estava quase ao alcance.”
A arte — o cinema, os quadrinhos, a ficção científica — não apenas entretém. Ela cria repertório de imaginação em larga escala. Quando a tecnologia chega, o terreno cultural já foi preparado por ela. A Colossal operou com essa lógica de forma consciente: misturou rigor científico com referências visuais da cultura pop, nomeou salas de reunião com espécies extintas e enviou HQs emolduradas para o centro de pesquisa dos Māori na Nova Zelândia — que as exibe com orgulho porque reconhece a própria cultura nelas.
Isso sugere que a distância entre arte e ciência é, em parte, uma questão de comunicação. E que quem entende os dois lados tem uma vantagem na construção de narrativas que durem.
Estudos robustos não têm prazo de entrega de startup
Outro ponto presente em vários momentos do painel foi o tempo. A Colossal trabalha com 17 parceiros universitários, mais de 100 pós-doutorandos e 260 cientistas. Processos regulatórios envolvem governos da Austrália, do Oriente Médio e do Canadá. Grupos de trabalho de rewilding com cerca de 25 pessoas se reúnem trimestralmente por anos antes de qualquer animal ser reintroduzido ao habitat.
Lamm foi preciso: “O rewilding é tão complexo quanto a ciência — às vezes mais demorado, porque envolve consenso entre muitas vozes.”
Em um ambiente que valoriza velocidade acima de quase tudo, a Colossal opera em um ritmo diferente — não por escolha filosófica, mas por necessidade prática. Pesquisa de ponta depende de parceiros universitários. Parceiros universitários dependem de financiamento de longo prazo. Esse circuito não se comprime sem perda de qualidade.
A memória como ativo que precisa de infraestrutura
Há uma linha que atravessa todo o trabalho da Colossal e que raramente é nomeada diretamente: a preservação de memória como responsabilidade coletiva.
Os bio vaults que Lamm propõe não são apenas estruturas científicas. São repositórios de identidade — genética, cultural, histórica. Uma linhagem celular de uma espécie ameaçada carrega informação acumulada por milhões de anos de evolução. O genoma de um marsupial australiano compartilhado globalmente tem valor de bem público — assim como o lagarto-monstro-de-gila, cujo veneno deu origem ao GLP-1 e movimentou a economia farmacêutica mundial.
O problema concreto é que a maioria dos governos ainda não tem infraestrutura para essa responsabilidade. O biobanking atual é fragmentado, competitivo de forma pouco produtiva e frequentemente incapaz de entregar células vivas a um pesquisador em tempo útil. Lamm foi direto: “Governos gastam muito em coisas de baixo impacto. Isso aqui é importante. E precisa de infraestrutura.”
A demanda por armazenamento de memórias — físicas, genéticas e digitais — vai crescer. Governos que não se prepararem agora vão chegar tarde. A pergunta que fica : o que significará estar atrasado?
O que o painel deixou como pergunta
O SxSW reúne, por tradição, indústrias que normalmente não se falam. Este painel colocou na mesma conversa a lógica da startup, a paciência da pesquisa básica, a profundidade da cultura indígena e a urgência da crise ambiental.
Não há resposta pronta saindo dali. Mas há um conjunto de perguntas úteis — sobre o papel da arte na antecipação de futuros possíveis, sobre o tempo necessário para ciência de qualidade, sobre o que os governos precisam guardar e por quê.
São perguntas que o Brasil também poderia estar fazendo — com o mesmo grau de seriedade — sobre seus biomas, sua biodiversidade e a memória genética que abriga.
Irei armazenar a transcrição desse painel para reouvir, reouvir e reouvir – pela densidade, novidade e reflexão futura.