Saúde social e as previsões alarmantes sobre IA
Um exercício de reflexão
Em Austin, no SXSW, a tecnologia continua brilhando, mas me chamou atenção outra palavra: social. Em vários palcos, especialistas colocaram a saúde social — qualidade das nossas conexões, comunidade, redes de apoio — no mesmo nível de importância da saúde física e mental, sinalizando uma mudança de paradigma na forma como entendemos bem estar e desempenho.
Isso me lembrou de uma história. Uma amiga querida, à beira de um burnout, foi a um médico homeopata quando nada mais resolvia seu desgaste. A receita dele foi uma só: paz. Menos estresse, mais tranquilidade. Após ótimas férias com a família e ao aderir à meditação, ela foi se recuperando. O Dr. da Paz, convicto de que o remédio mais eficaz é o equilíbrio da vida, é um futurista brasileiro sem saber. É exatamente esse olhar integrado — saúde física, mental e social vistas de forma holística — que os pesquisadores do SXSW estão pedindo que o mundo adote.
Mas enquanto a saúde social pedia mais humanidade nos palcos, em outra sala o tema era o seu oposto.
Pesquisadores e palestrantes descreveram a saúde social como “onde a saúde mental estava há 10–15 anos”: ainda pouco compreendida, mas prestes a se tornar pauta central de políticas públicas, desenho de cidades e, principalmente, culturas empresariais. Mais de 300 sessões desta edição exploram como relações, pertencimento e comunidade impactam longevidade, resiliência e capacidade de lidar com crises.
Esse foco tem implicações diretas para o mundo do trabalho. Aplicado à empresa, esse pilar é sobre pessoas que têm com quem contar para pedir ajuda, elaborar frustrações, celebrar vitórias e experimentar coisas novas sem medo de punição. Quando times se sentem socialmente saudáveis, crescem a troca de conhecimento, a criatividade coletiva e a disposição de atravessar transformações difíceis — exatamente o que a era da IA exige. Cultura organizacional deixa de ser “clima de escritório” e passa a ser um sistema vivo de relações que pode adoecer ou fortalecer um negócio.
Em outra ala do festival, uma palestra trouxe números do McKinsey Global Institute: com a aceleração da inteligência artificial generativa, atividades que respondem por cerca de 30% das horas trabalhadas na economia americana podem ser automatizadas até 2030 — um acréscimo de aproximadamente 8 pontos percentuais em relação às projeções anteriores à nova onda de IA. A nuance importante, muitas vezes perdida nas manchetes, é que esse impacto se dá no nível das tarefas, não do emprego inteiro. A automação tende a substituir etapas repetitivas e processuais — não, de forma linear, “30% das pessoas”. Será mesmo? Quando chegamos a pontos de virada histórica, a destruição criativa acontece — e esse foi exatamente o argumento dos vencedores do Nobel de Economia de 2025. Pergunto, sem ironia: alguém aqui conhece uma datilógrafa empregada, atuante ?
O tom dominante em Austin, porém, é outro: “a IA vai tomar TODOS os empregos”, “as máquinas vão nos substituir”, “prepare se para a irrelevância”.
As profissoes e nossas atuações irão mudar, ainda há toda incerteza do que virá.
Em uma das sessões, o próprio palestrante chamou atenção para o papel do Vale do Silício nessa narrativa: muitas das histórias mais apocalípticas sobre IA também servem a um propósito econômico — inflar expectativas, atrair capital e valorizar empresas que prometem automação total. O medo, aqui, vira combustível de mercado. Vista de fora, como brasileira otimista e futurista, essa ansiedade americana soa diferente.
Para quem está em países em desenvolvimento, a IA aparece menos como ameaça existencial e mais como oportunidade de salto histórico: acesso democrático a capacidades de criação antes restritas a grandes centros, aceleração de produtos, serviços e políticas públicas, amplificação de vozes que tradicionalmente ficaram fora do jogo. Em vez de imaginar milhões de pessoas descartáveis, eu enxergo milhões de pessoas finalmente equipadas com ferramentas de elite. Isso não significa romantizar. A grande questão deixa de ser “a IA vai acabar com os empregos?” e passa a ser “quem controla os insumos desse novo ciclo?”. Quem tem dados em escala, soberania sobre esses dados, poder computacional e conhecimento técnico define as regras do jogo. É aqui que o desconforto americano faz sentido: países e empresas que hoje concentram essas infraestruturas sabem que, se a IA se tornar realmente acessível e distribuída, parte do seu poder relativo pode ser redesenhado.
Para o Brasil, o risco maior não é a automação em si, mas a dependência estrutural: rodar modelos treinados em dados que não nos representam, em nuvens que não controlamos, seguindo regras que não ajudamos a escrever. Se queremos que a IA seja vetor de igualdade — e não de nova dependência —, a agenda precisa incluir soberania de dados, investimento em infraestrutura local com alto poder computacional e formação de talento técnico capaz de adaptar essas tecnologias à nossa realidade. Não basta usar ferramentas; é preciso participar da arquitetura do sistema. E é aqui que a saúde social volta ao centro. A capacidade de construir ecossistemas colaborativos — entre empresas, universidades, governos, comunidades e criadores — é o que pode transformar IA em ativo compartilhado, e não em instrumento de concentração de poder. Times socialmente saudáveis criam pontes, não muros; compartilham aprendizados, constroem padrões abertos e cuidam para que novas tecnologias não aprofundem exclusões antigas.
Sai do segundo dia do SXSW com a sensação de que estamos diante de duas narrativas que ainda não conversam o suficiente. De um lado, um país que teme perder o controle de um ativo que ajudou a criar. De outro, regiões que enxergam na mesma tecnologia uma chance rara de competir em igualdade de condições. Entre os dois extremos, a saúde social aparece como infraestrutura invisível: é ela que vai determinar se usaremos IA para ampliar abismos ou para aproximar mundos.
E, como sempre, quem entende de gente antes de entender de máquina tende a chegar mais longe.