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Efeito Scarpa

O meia do Atlético Mineiro tem usado a própria visibilidade para indicar livros, e o Brasil está lendo

Regina Augusto

Diretora Executiva do Cenp e Curadora de Conteúdo do Women to Watch 22 de setembro de 2026 - 8h36

(Crédito: Reprodução/YouTube)

(Crédito: Reprodução/YouTube)

Estamos acostumados a ver jogadores de futebol nas manchetes por motivos que pouco inspiram: polêmicas, provocações, excessos. Por isso é tão alentador o que Gustavo Scarpa, meia do Atlético Mineiro, vem fazendo fora das quatro linhas. Ele usa a própria visibilidade para indicar livros, e o Brasil está lendo.

Aos 32 anos, Scarpa já é conhecido por dividir leituras nas redes, de Dostoiévski a Kafka e Machado de Assis. Há algumas semanas, publicou no seu canal no YouTube uma resenha de pouco mais de dez minutos de A Morte de Ivan Ilitch, novela do russo Liev Tolstói. O vídeo passou de 500 mil visualizações. O livro é a história de um juiz que, diante da própria morte, é obrigado a repensar o sentido de tudo o que construiu.

Não é uma leitura de praia, e mesmo assim as buscas dispararam e o clássico do século 19 chegou ao primeiro lugar entre os mais vendidos da Amazon Brasil. Algumas edições esgotaram.

O efeito não parou no carrinho de compras. Torcedores do Galo criaram o Galeitura, um clube de leitura cujo nome junta “Galo” e “leitura” e que tem o livro de Tolstói como primeira escolha. Em um dia, o grupo de WhatsApp passou de 400 participantes. O perfil no Instagram já tem mais de 26 mil seguidores.

A organização é simples. São três semanas de leitura, com blocos de capítulos, conversas semanais sem spoilers e um encontro online para fechar. Uma turma que costuma se reunir para discutir escalação agora discute Tolstói. Até o argentino Tomás Cuello, companheiro de Scarpa no ataque, ganhou um exemplar de presente do colega.

O tema chegou também ao gramado. Depois de o Atlético eliminar o Santos da Copa Sul-Americana nos pênaltis, na Arena MRV, na quarta-feira 16, Scarpa deu um recado a Neymar e aproveitou para indicar outro livro de Tolstói, De quanta terra precisa um homem?

A escolha não foi por acaso. No conto, um camponês obcecado por ter cada vez mais terra descobre, no fim, que a quantidade de que precisava era a de sua própria cova. É uma fábula sobre ambição, vaidade e limites. O recado foi dado com humor e elegância, e sem uma palavra de agressão.

Quem acompanha o esporte lembra do efeito Haaland. Depois da Copa do Mundo, o atacante norueguês virou referência de disciplina, com sono regrado, meditação e uma dieta baseada em produtos locais, e as crianças da Noruega passaram a pedir cenoura. O consumo do vegetal cresceu cerca de 25% entre julho e meados de agosto, algo como 500 toneladas a mais, segundo dados da imprensa local.

O efeito Scarpa é primo desse fenômeno. Em vez de cenouras no prato, temos Tolstói na cabeceira. E a lição é a mesma: ídolo influencia, e o que ele faz com essa influência importa.

Numa época em que o comportamento de tantos atletas rende mais crítica do que inspiração, Scarpa mostra que dá para ser referência sem deixar de ser jogador. Ele não virou crítico literário nem quer ser. É um leitor que compartilha o que o emocionou, com a simplicidade de quem recomenda um livro a um amigo. Exatamente por isso que funciona.

O placar que importa aqui é outro. Milhares de pessoas, muitas delas leitoras pela primeira vez de um clássico russo, estão em contato com uma obra que fala de tempo, de morte e do que realmente vale a pena. Se isso é obra de um meia canhoto do Galo, que venham os próximos capítulos.