Dez insights sobre o Web Summit

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9 de novembro de 2018 - 12h30

Crédito: divulgação

A chegada em Lisboa e o credenciamento para o Web Summit, ali mesmo na área exterior do aeroporto com muita eficiência e rapidez, a partir das orientações do aplicativo do evento já sinalizavam que a experiência prometia. Era domingo, um dia antes da abertura do que se chama aqui de cimeira, e o tema que tomava conta da cidade (além do WS, é claro) era o maior desfile militar desde a democratização de Portugal para comemorar os 100 anos do Armistício da Primeira Guerra Mundial, na tradicional Avenida da Liberdade, com direito à presença do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa e do primeiro-ministro, António Costa, além de outras autoridades.

A discussão eram as lições – e uma homenagem aos 7.500 portugueses mortos no conflito – que aquele ato trazia para a Portugal do Século 21, que reluz hoje como um dos países do Bloco Europeu que melhor colhe frutos de um modelo mais à esquerda de desenvolvimento econômico e bem-estar social, após o país quase ter quebrado em 2011 e ter sido socorrido pela Comissão Europeia e o FMI.

No dia seguinte, na abertura do Web Summit, o que impressionou foi o choque com a grandiosidade que fica evidente em alguns números: 69.304 pessoas de 159 países; 1.200 palestrantes divididos em 24 áreas temáticas; 1.800 startups expositoras de todo o mundo divididas nas faixas Alpha, Beta e Growth; 2.600 veículos de mídia credenciados para a cobertura; e impacto do evento para a economia local da ordem de 500 milhões de Euros.

Criado pelo empreendedor irlandês, Paddy Cosgrave em 2009, o Web Summit foi realizado pela primeira vez em Dublin para pouco mais de 200 convidados. Desde 2016, acontece em Lisboa, aproveitando-se do momento favorável do então novo governo e sua política de investir na economia digital como motor de transformação econômica e social. Nesta edição, que contou com a presença do primeiro ministro Costa na abertura e do presidente Rebelo de Sousa, no encerramento, em um discurso entusiasmado com direito a aplausos de pé, o governo português anunciou a realização do Web Summit por mais 10 anos em Lisboa e um programa de incentivo para profissionais qualificados que queiram vir trabalhar em tecnologia no País. A seguir alguns insights desses quatro últimos dias por aqui:

1 – A distopia da web e seus riscos para o futuro: Convidado de honra do WS, responsável pela palestra de abertura, Tim Berners-Lee alertou que a web que ele ajudou a inventar em 1989 está “funcionando de maneira distópica” devido à extrema concentração corporativa e insignificantes salvaguardas de privacidade para os consumidores. “Por muitos anos houve a sensação de que as coisas maravilhosas na web iriam dominar e teríamos um mundo com menos conflitos, mais compreensão, mais e melhor ciência e boa democracia. Só que o que temos hoje são abusos on-line, preconceito, polarização e notícias falsas”. Berners Lee aproveitou a ocasião para a necessidade de um novo contrato para a web. A proposta do contrato chamado For the Web (https://fortheweb.webfoundation.org/) é lançar uma carta de princípios em prol de uma internet livre e aberta. “A web está num ponto crucial no qual 50% do planeta estará conectado em 2019. Somos responsáveis por ambos – pela metade online e pela outra não conectada também”, disse o inventor da web ao citar que governos, empresas e usuários individuais da Internet têm um papel a desempenhar nesse contexto.

2 – É tudo sobre política: Há cerca de três meses, uma das atrações anunciadas pelo maior evento de empreendedorismo e tecnologia da Europa foi Marina Le Pen, líder da Frente Nacional, partido de extrema direita francês. As reações do governo de Portugal à escolha fizeram com que Paddy Cosgrave voltasse atrás e retirasse o convite, alegando que a questão do ódio, da liberdade de expressão e das tecnologias de plataforma definem o ano de 2018, admitindo esforços para abordar essa questão difícil no Web Summit com mais cuidado. Após comentar os resultados das eleições intermediárias norte-americanas e afirmar ser 100% contra o Brexit, falou sobre o GDPR, a regulamentação europeia de proteção de dados pessoais e foi enfático: “Precisamos de liderança, métricas claras e saber que são os donos do algorítimos”.

3 – O novo petróleo e a confiança: Ben van Beurden, presidente global da Shell, fez um mea culpa sobre erros da indústria que representa em um painel com o sugestivo título “Is Big Tech the Big Oil? And how can tech avoid oil’s errors?”. “Eu trabalho na indústria petrolífera. Vocês confiam em mim?”, perguntou van Beurden logo na abertura ao ouvir um sonoro “Não” da plateia formada basicamente por pessoas ligadas ao mundo da tecnologia. Além de pedir desculpas pela empresa ter manipulado dados superestimando suas reservas em 20% em 2004, o executivo admitiu que o setor petrolífero é o maior responsável pelas mudanças climáticas por conta da exploração dos combustíveis fósseis. E também colocou na conta da sociedade. “Das cadeiras em que estão sentados aos seus telefones, todos os produtos dependem de energia. No meu setor temos de admitir que os nossos produtos produzem emissões de carbono poluentes. Temos de assumir isso”, afirmou com um pedido de voto de confiança em um tom humilde raro em executivos dessa envergadura e ausente na indústria de tecnologia.

Crédito: Regina Augusto

4 – Women in tech: O Web Summit celebrou 44,5% de participação feminina em 2018. Há três anos, esse número não passava de 25%. A nona edição do evento acontece em meio a crescentes preocupações sobre o sexismo no mundo da tecnologia, com milhares de funcionários do Google realizando protestos recentes em todo o mundo contra a resposta da empresa à má conduta sexual e à desigualdade no local de trabalho. Foi criado o espaço Women in Tech com painéis e mentoria patrocinada pela Booking.com. Gillian Tans, CEO da Booking disse que “90% das mulheres na tecnologia experimentam algum tipo de discriminação no local de trabalho, 48% revelam não terem mentores, e 42% não têm exemplos a seguir. Estes são os três obstáculos que evitam que as mulheres avancem nas suas carreiras ou escolham carreiras tecnológicas.”

5 – Paz digital e revolução moral: Dentre os vários executivos globais que estiveram no Web Summit um dos que mais impressionou foi Brad Smith, presidente e Chief Legal Officer da Microsoft. Ele chamou a atenção para os danos de ciberataques como o WannaCry que em 2017 afetou 300 mil computadores de 150 países causando prejuízos de US$ 8 bilhões. Para ele é essencial trabalharmos para alcançar a paz digital. “Estamos vendo as ferramentas que criamos se transformarem em armas”. De acordo com o executivo, a tecnologia avançou muito rápido, e as instituições não conseguiram acompanhar o ritmo. “A revolução científica e tecnológica precisa também de uma revolução moral. Esse é o grande desafio da nossa época. Para esse século ser melhor, nós precisamos fazer melhor”. Os governos precisam ser mais eficientes ao proteger seus cidadãos, suas eleições e a internet”. Ele defende ainda criar regulamentações modernas e tentar emplacar leis internacionais. “Precisamos de uma Convenção de Genebra digital”, sugere ao lançar o manifesto Digital Peace (https://digitalpeace.microsoft.com/), iniciativa da Microsoft para discutir propostas de regulamentações em torno desse tema.

6 – Grandes poderes e grandes riscos: Apelidada por Donald Trump como a “senhora dos impostos” ao ganhar fama por aplicar multas bilionárias contra gigantes do Vale do Silício, especialmente o Google, a comissária de Concorrência da Comissão Europeia, a dinamarquesa Margrethe Vestager aproveitou o palco do Web Summit para falar sobre os atuais desafios da revolução digital. “Aqui é o lugar onde se molda o futuro, um futuro que evolui tão rapidamente que ninguém consegue dizer que tipo de tecnologia vamos ter daqui a 20 anos. Mas podemos dizer que vai mudar as nossas vidas”.

Como tecnologia afeta a democracia e a vida de todos os cidadãos é preciso haver alguns cuidados neste campo, alertou. Margrethe Vestager sublinhou, porém, que a revolução digital tem “imensos poderes para fazer bem”. Mas deixou o recado: “Com grandes poderes vêm grandes riscos”. E falando diretamente de seu inimigo número um alfinetou o Google: Há muitos anos a Google foi um dos nossos grandes inovadores. Mas porque é que todos os dados têm de estar na mão de uma só empresa? Não interessa o que o Google já fez para os avanços da internet. Não podemos olhar para o lado quando se põe em risco a livre concorrência”, afirmou.

7 – A mídia na era da atenção remunerada: Ev Williams foi um dos sócios fundadores do Twitter de onde saiu em 2011. No ano seguinte, fundou o Medium, uma plataforma de publicação de conteúdo. Sua trajetória lhe dá credencial para a ótima análise que fez do contexto atual da mídia diante dos desafios enfrentados hoje pelo que chama de Economia da Atenção. “O problema enfrentado no jornalismo e na mídia é reflexo do desafio que enfrentamos enquanto sociedade. Nós remuneramos a atenção e não a qualidade”, diz. As métricas mais usadas atualmente, afirma ele, dizem respeito ao número de visualizações ou tempo de permanência da página, mas não é tão fácil medir se as pessoas realmente gostaram daquele conteúdo. Segundo Ev, é preciso fazer uma transição do modelo que remunera a atenção — com anúncios — para um que pague pela qualidade, com assinaturas de conteúdo. E se o modelo é assinatura, o conteúdo precisa fazer com que o usuário se sinta bem, sinta que aquilo valeu o tempo e o dinheiro gastos. Se o modelo é baseado inteiramente em publicidade, afirma ele, não importa se a pessoa gostou ou não, o que importa é se gastou seu tempo com aquilo. Essa mudança foi o que aconteceu, por exemplo, com serviços como Netflix e Spotify. “Sou otimista, acho que conseguiremos fazer essa transição, e acho que vai haver um ótimo momento para contar histórias e para o jornalismo”.

8 – Colonialismo digital: Num tom e emotivo e em clima de DR que puxou aplausos da plateia lotada do palco principal do Web Summit, Christopher Wylie, ex-diretor de pesquisa da Cambridge Analytica lamentou o episódio em que se tornou pivô, chamando-o de A Grande Falha Institucional. Wylie foi quem entregou ao jornal The Guardian documentos comprovando o uso não autorizado de dados de 87 milhões de usuários pelo Facebook durante a campanha eleitoral nos Estados Unidos em 2016. “Vamos permitir que as empresas tecnológicas colonizem as nossas sociedades?”, questionou. “Esta é uma história de colonização. O Facebook explora os dados que são hoje os recursos mais valiosos do planeta e os nossos governos e sociedades não estão preparados para lidar com essa realidade”. “As apps que a Cambridge Analytica criou entraram no processo de aprovação do Facebook. O Facebook sabia desde o início e não fez nada sobre isso.” “A minha viagem como delator passou por perceber esse grande erro. Até agora ninguém foi responsabilizado”.

9 – A Ética e a Inteligência Artificial: O presidente da Samsung Electronics, Young Sohn, esboçou um futuro quase distópico no qual cada detalhe de vida das pessoas – até o DNA individual – é rastreado por vastos “bancos de dados biológicos” que armazenam o genoma, ajudam a diagnosticar doenças e oferecem prognósticos de prevenção. Os bancos de dados farão parte de uma explosão de empresas baseadas em dados que saberão quase tudo sobre você, em um mundo de “penetração de sensores”. Os sensores de dados fornecerão detalhes fantasticamente detalhados para rastrear seu sangue, seu carro, sua comida, a temperatura de sua casa e usar inteligência artificial para informar mapas e transporte público, disse ele. Em sua palestra, Sohn descreveu a próxima explosão de dados baseados em IA como uma “oportunidade”. Em seu discurso, no entanto, ele também advertiu: “Temos questões que realmente temos que pensar … a ética da IA”. Em entrevista ao Business Insider após sua palestra, ele detalhou esses riscos ao citar o exemplo chinês. “Na China, por exemplo, o governo começou a usar a pontuação de crédito dos cidadãos contra eles, restringindo a viagem de pessoas com baixa pontuação, reduzindo seu acesso à Internet e impedindo que seus filhos frequentem as melhores escolas”.

10 – Silicon Avenue: O Web Summit não é um evento sobre comunicação e quem vai a Lisboa com o mindset de Cannes pode ficar bastante frustrado. Criatividade, no entanto, é um drive presente em quase todos os painéis, das startups aos novos modelos de negócios e setores da sociedade que são impactados hoje pela tecnologia a palavra ideia também é uma constante. Nos espaços PandaConf, Creatiff e ContentMakers, foi possível encontrar muitos painéis que traziam bons insights sobre jornada do consumidor, growth marketing, influenciadores e uma nova agenda para a comunicação. No painel intitulado “Silicon Avenue” Per Pederson, Global Creative Chairman da Grey, em tom bem humorado disse que a indústria publicitária passa por uma grande disrupção na qual o modelo de interrupção deve dar lugar a contexto e relevância e tem muito a aprender com a indústria da tecnologia. “Quanto menos parecer publicidade, melhor. No entanto, ideias, dados e o craft nunca foram tão bem valorizados como agora e aí reside uma grande oportunidade para nossa indústria”.

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