A revolução não será twitada

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Ponto de vista

A revolução não será twitada


1 de junho de 2011 - 9h10

A primeira vez que eu chorei quando um cantor morreu foi quando o Elvis nos deixou pra ir cantar na Las Vegas do além. Naquela época o Elvis dominava a Sessão da Tarde e a Sessão da Tarde dominava o meu horizonte cultural. Eu era uma criança. Não gostei nada daquilo. A outra foi sexta passada, quando o poeta e cantor americano Gil Scott-Heron, autor do clássico poema musicado “The Revolution Will Not be Televised” faleceu. Pois é, chorei. Fiquei triste pois Gil me parecia um voz crítica — política, musical e poética — muito necessária e interessante num mundo que sofre cada vez mais da carne-de-vaca-lização cultural e mental. Muita Britney e pouco Dylan.

Mas voltando ao assunto, “The Revolution Will not Be Televised” é um aviso de que a revolução, que Gil morreu esperando, não nasceria ou seria transmitida pelo filtro catártico e imobilizante da TV. A TV serve pra gente se desligar, não pra acender uma revolução. Em um determinado trecho ele diz: “A revolução vai ser ao vivo”.

Não sabia ele que trinta anos depois da sua previsão o mundo inteiro estaria conectado por um meio ainda mais complexo e surpreendente em sua capacidade de nos unir ou nos distrair. A Internet, diziam e ainda dizem gurus da mídia, vai finalmente nos dar o poder de mobilização que tanto queremos e que vai mudar o mundo. Será?

Nos últimos meses tenho sido constantemente acossado por mobilizações via Internet: o ataque aos pelos animais nos calçados da Arezzo, a luta contra a represa de Belo Monte, o Churrasco de Gente Diferenciada, a Marcha da Maconha e subsequente a Marcha da Liberdade pra protestar contra os abusos policiais cometidos contra os manifestantes da Marcha da Maconha.

Foi então que eu me lembrei de um corajoso artigo do jornalista e autor de best-sellers de psicologia social Malcom Gladwell com o mesmo título deste post, publicado na revista New Yorker ano passado e que causou a maior polêmica (leia aqui).

Em seu artigo, Gladwell, que não tem medo de contrariar o senso comum, defende que as redes sociais criam vínculos de baixa intensidade entre as pessoas e que mudanças e revoluções são feitas por pessoas com vínculos de alta intensidade formados na vida real. Para isso ele compara algumas causas promovidas na Internet com o movimento não-violento pelos direitos civis dos negros americanos nos anos 60. Uma coisa é dar um “like” no Facebook ou re-twitar um alerta pra uma passeata. Outra é sentar na frente de centenas de policiais racistas do Alabama e esperar que eles venham espancar você.

Vale a pena ler o artigo pois é bem mais rico e complexo do que dá pra comentar num post. O mundo não muda sozinho pra melhor. E já ficou claro que a TV não será o estopim de nenhuma revolução. E a internet? Será que é este o meio que vai nos ajudar a ter um mundo mais justo? Será que todo mundo que grita no Twitter com tanta moral tem coragem de ouvir a borracha dos cassetetes cantar nas suas próprias costas pra mudar o mundo? Gladwell diz que não. Eu já não tenho tanta certeza.

A Arezzo tirou os pelos de animal de sua coleção, Belo Monte segue com o Governo no controle, o Churrasco de Gente Diferenciada foi cancelado por excesso de quorum que ameaçava descambar pra desordem com 40 mil inscritos — mas atendido 600 gatos pingados que não aceitaram desistir — e as Marchas da Maconha e da Liberdade ajudaram a aumentar a discussão sobre soluções possíveis para o dilema das drogas. De alguma forma as redes sociais contribuíram para estes resultados. Por outro lado, concordo que a Internet sim gera relações de baixo envolvimento real e que algumas dessas situações acabam se resolvendo pra evitar a multiplicação de fatos negativos para políticos e marcas.

A resposta pra isso tudo o Gil Scott-Heron e Elvis já sabem, mas só contam pra gente quando a gente for lá assistir a um dueto dos dois.

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