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Ponto de vista

Bem-vindo à capital da invenção

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25 de janeiro de 2012 - 9h46

“Sabadão clássico! Vou descer pra praia e curtir um UFC”, pensou em 1532 João Ramalho, enquanto descia o Caminho do Mar (a então chamada Trilha dos Goianases) acompanhado pelos índios Tibiriça, para auxiliar Martim Afonso de Souza num quebra-pau com as tribos litorâneas.

Não que Martim Afonso de Souza merecesse ajuda. Numa tradição que perdura até hoje, o foco do seu governo era esfolar o contribuinte e atrapalhar sua prosperidade: foi ideia dele exigir uma licença da Coroa para qualquer um que quisesse subir a Serra do Mar, inventando o primeiro pedágio extorsivo da Imigrantes. Foi sua patroa, D. Anna Pimentel, que inventou outra tradição muito popular: a de liberar para a galera enquanto o marido viajava. Não me entenda mal. D. Anna Pimentel liberou, em 1544, o Caminho do Mar para o trânsito geral e deixando que o amor finalmente subisse a serra.

Vir a São Paulo, então chamada Piratininga, desde o começo era inventar uma dor de cabeça para si: uma escalada de 700 metros salpicada por ataques de índios canibais.

Então, afinal, por que diabos alguém viria para cá?

Porque São Paulo, desde a sua fundação é o lugar para onde vem aqueles que querem inventar um outro Brasil.

Por exemplo, se Portugal favorecia escravos negros, que em seu trajeto desde a África rendiam três ou quatro instâncias de cobrança de impostos à Coroa, os paulistas inventaram de escravizar os índios locais. Antônio Raposo Tavares, o famoso bandeirante, que muitos responsabilizam por ter dado origem ao trânsito da Granja Vianna, de fato foi o inventor do shopping center. Isso aconteceu quando ele resolveu parar de sequestrar índios no varejo e teve a ideia maligna de capturá-los todos de uma vez, aos milhares, nas missões jesuítas. O primeiro “one-stop shopping experience” do Brasil.

Eu poderia seguir infinitamente com as analogias, mas acho que já deu pra entender minha teoria: São Paulo, por suas infindáveis adversidades exigiu de seus moradores, desde o começo, um esforço de invenção e resolução tão grandes que transformou seus habitantes em sua maior invenção.

Ainda hoje, o paulistano precisa mostrar seu valor diariamente. Seja pelas condições geográficas adversas (sem dúvida ainda hoje SP é a cidade com o maior número de valetas de chuva do mundo, transformando os passeios do exilado carioca Seu Jorge em sua Lamborghini um verdadeiro sofrimento), intempéries climáticas (que outra cidade pode vangloriar-se de ter um app de iPhone chamado Alaga São Paulo) e vicissitudes sociais (como a Cracolândia, que graças a esforços recentes do governo deixou de ser a “Disney World do crack” para se tornar apenas o “Hopi-Hari do crack”).

Mas tivemos de esperar o raiar do novo milênio para assistir ao reconhecimento de São Paulo como a capital cultural do País. A cidade é considerada hoje, ao lado de Berlim, na Alemanha, a capital mundial da arte urbana. Seus grafiteiros, como Os Gêmeos, Speto, Titi Freak e Stephan Doitschinoff fazem parte da cultura pop mundial. A moda feita por aqui entrou no circuito internacional com o sucesso do São Paulo Fashion Week. Estão sediadas na cidade algumas das agências de publicidade mais criativas do mundo. A música pop tem hoje a melhor cena, que inclui talentos como Emicida, Criolo, Tulipa Ruiz, Céu e Bixiga 70. Antes apontada como centro econômico provinciano, a cidade finalmente conquistou o posto que lhe cabia graças à inventividade de seus habitantes.

Quando chega o aniversário da cidade é sempre bom parar pra ver se há realmente o que se comemorar. Não concordo com Criolo. Existe sim amor em SP. E faço da poesia antigramatical do Emicida um salve de parabéns a todos os paulistanos: A rua é nóis!

Rodrigo Leão é sócio e diretor de criação da Casa Darwin

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