Atenção: isto é uma armadilha

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Atenção: isto é uma armadilha

Onde sempre vi um potencial gigantesco para a exploração criativa e expansão do conhecimento, outros vêm razões para acreditar que nossa sociedade está sendo sistematicamente corroída


12 de fevereiro de 2016 - 3h35

(*) Por Mauro Cavalletti

A chamada em El País dizia — Zygmunt Bauman: “As redes sociais são uma armadilha.” Bum! Adoro as manchetes apocalípticas que a grande imprensa usa para abordar o papel da cultura digital nos nossos tempos.

Sociólogo respeitado mundialmente, Bauman tem discurso claro e raciocínio brilhante, embasados na sabedoria de seus 90 anos. Na entrevista, dizia: “Não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você.” Argumentava que as relações sociais pedem o enfrentamento de dificuldades e conflitos, o que fica excluído nas formações das redes.

No dia seguinte, almocei com uma amiga recém-solteira que me contava que o Tinder revolucionou sua vida. Aparentemente, o que ela mais apreciava no aplicativo era justamente o controle pessoal que exercia na administração de sua rede. Fiquei curioso sobre o que Bauman diria das relações geradas pelo aplicativo.

Já entre o autor da manchete e eu, há um oceano de interpretações possíveis, que provavelmente não se limita ao texto da entrevista. Onde sempre vi um potencial gigantesco para a exploração criativa e expansão do conhecimento, outros vêm razões para acreditar que nossa sociedade está sendo sistematicamente corroída. Depois de tantos anos vivendo da imaginação e da criatividade, posso dizer com certeza: no que diz respeito à realidade, cada um vê o que quer.

Quando eu era estudante de arquitetura, li sobre o carteiro francês Ferdinand Cheval, que um dia bateu sua bicicleta em uma pedra e pirou que aquela rocha era, na verdade, um pequeno fragmento de um castelo que estava todo em pedaços, espalhados por ali. Passou, então, a reconhecer e recolher os outros pedacinhos do palácio que supostamente estavam pelo terreno. Passo a passo, “remontou” o Palais Idéal, que existia somente em sua “memória”, investindo décadas de trabalho criativo na construção de uma obra gigantesca e realmente linda.

Naquela época, eu andava fascinado pelo trabalho do arquiteto catalão Antoni Gaudí e sempre achei que os dois tinham muito em comum. Criador de alguns dos edifícios mais inquietantes e bonitos da história, Gaudí era dono de uma visão muito pessoal e tinha capacidade de foco absoluto. Quanto mais percorria os espaços de sua mente singular, mais trazia de volta ao mundo formas surpreendentes e detalhes incríveis. Viveu e morreu viajando. Quanto mais famoso ficava, menos social se tornava. Um dia foi atropelado por um bonde, enquanto fazia, distraído, sua caminhada matinal. Estava tão maltrapilho que não foi reconhecido e não recebeu socorro imediato. Três dias depois, metade de Barcelona se vestia de luto por ele.

O processo criativo, sim, é uma grande armadilha. Quando o trabalho revela harmonia ou beleza estética, as pessoas se encantam e podem ficar no mesmo raciocínio para sempre. Falo de jornalistas, sociólogos, publicitários, arquitetos e artistas, medianos ou geniais, tanto faz. Da criação de palácios a crônicas diárias, de uma maneira ou outra somos um pouco escravos do nosso próprio ideário.

Cheval e Gaudí eram contemporâneos, desenvolveram suas obras épicas na virada do sé- culo 20, na beira de grandes definições e de novos pensamentos, como os que vivemos agora. Bauman nos dá uma pista desta estrutura: “Estamos em um estado de interregno, entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai a substituir isso. As certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos experimentando novas formas de fazer coisas.”

O mundo está mudando, como sempre mudou. Só que agora é a nossa vez. Vivemos momentos empolgantes e podemos nos embriagar de medo, ansiedade ou criatividade, a escolha é toda nossa.

(*) Mauro Cavalletti é head of creative shop do Facebook
 

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