O Vine vai voltar?

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O Vine vai voltar?

Especialista e criadores de conteúdo da extinta rede opinam sobre nova criação do cofundador do Vine

Thaís Monteiro
22 de fevereiro de 2018 - 8h04

Dom Hofmann, confundador do extinto Vine, anunciou que lançará um novo aplicativo semelhante este ano. Denominada v2, a plataforma, que se encontra em fase alpha de testes, será restrita a publicação de vídeos com duração entre dois e seis segundos e meio, e que seguem em looping. O app não terá filtros ou geolocalização como o Snapchat e o Stories do Instagram, mas permitirá que os usuários publiquem vídeos já produzidos e terá uma timeline cronológica.

 

Tuíte de Dom Hofmann divulgando o logo e nome do novo aplicativo (Crédito: Reprodução)

Espaço para humor e criação de conteúdo, o Vine, rede social de vídeos de até sete segundos semelhante aos princípios do v2, teve um fim prematuro diante de seu grande sucesso entre jovens. Adquirido pelo Twitter pelo valor de US$ 30 milhões antes mesmo de ser lançado, o aplicativo estreou em 2013 e teve fim três anos depois, em 2016, deixando um vácuo para influenciadores cuja popularidade foi construída por meio de conteúdos publicados no app.

Dentre os motivos para sua descontinuação, se sobressaem três: falta de investimento do dono e anunciantes, dificuldade de aumentar a base de usuários e concorrência com o Instagram (que introduziu vídeos de 15 segundos na plataforma em 2013) e o Snapchat. No Brasil, a ferramenta foi celeiro para criadores como Lucas Rangel, Maju Trindade e Victor Meyniel. Hoje, todos se fazem presentes no YouTube, além do Instagram, Twitter e Facebook.

Para evitar uma premeditação de falhas pelo passado do Vine, desta vez Hofmann instituiu algumas medidas para atender às críticas dos usuários e ajudar no crescimento da base. Dois desafios que, de acordo com Eric Messa, coordenador do Núcleo de inovação em Mídia Digital (NiMD) da Faap, são os principais no começo de qualquer plataforma. Em entrevista ao portal Techcrunch, Hoffmann disse que está entrando em contato com antigos usuários influentes na plataforma e outras estrelas das redes sociais para convidá-los a se juntar ao app e dar feedback quando ele for lançado. Ele também criou fóruns no Twitter para pedir opiniões e colaboração dos usuários para aprimorar a plataforma. “Para fazer sucesso, a primeira barreira a ser transposta é a do número de usuários que, consequentemente, vai ao encontro da questão do influenciador. Ele precisa de uma audiência qualificada para decidir em quais redes sociais apostar”, diz o professor.

Outra solução que o fundador encontrou para atrair creators, ou “artists”, como os influenciadores serão apelidados no v2, foi anunciar alternativas para remuneração pelo conteúdo publicado na plataforma, algo que não era possível através do Vine. “Quero que todos que quiserem possam ganhar dinheiro com o v2. Há diversas maneiras de como lidar com isso, mas não é momento de decidir ainda. Agora estamos na fase de convidar às pessoas a experimentarem o app”, disse à reportagem do Techcrunch.

“É uma briga complicada de entrar”, avalia Eric Messa, coordenador do Núcleo de inovação em Mídia Digital da Faap

Para Messa, há dois lados a serem considerados para avaliar se a volta do Vine como v2 pode prosperar diante das inúmeras redes sociais existentes: o formato e o histórico da plataforma. Para ele, o Vine tentou se sobrepor ou substituir seus concorrentes ao invés de coexistir com eles. “Esse histórico de concorrência acirrada causa dúvidas sobre a intenção do fundador agora. Nesse mercado em que grandes plataformas estão investindo em vídeo, como o Facebook, é uma briga complicada de entrar”, avalia o professor.

O fato de o v2 se consolidar como uma plataforma de vídeos, no entanto, também tem seu lado positivo. Uma pesquisa da Provokers para o Google e Meio & Mensagem, divulgada em setembro, aponta que, nos últimos três anos, o consumo de vídeo na internet aumentou 90%. “É inegável que o vídeo está em evidência nos últimos anos. Muitas marcas olham para esse formato e pode ser uma oportunidade ter um aplicativo como o Vine de volta, mesmo com players como Instagram, Snapchat e YouTube na mesma categoria”, diz Messa. A melhor maneira de se reinventar, segundo ele, sem tentar tomar a base de usuários de outra rede social, seria procurar atuar junto com um nicho específico. “Quem gosta de produzir conteúdo não vai produzir em um só canal, vai estar em todos. O Musical.ly eu vejo como um case de sucesso porque é popular entre os mais jovens e tem a música como ferramenta principal de expressão”, explica o professor.

Fernando Pagani, criador de conteúdo (Crédito: Reprodução)

“Eles me verão no v2, com certeza”

Fernando Pagani, de 27 anos, começou sua trajetória como criador de conteúdo no Vine entre 2014 e 2015. Lá, seus vídeos curtos começaram a fazer sucesso e atraíram a atenção de um outro aplicativo despontando com o mesmo formato, o Musical.ly, que o convidou para alimentar um perfil na plataforma também. Desde que o Vine foi descontinuado, Pagani entrou para os destaques do Musical.ly, trabalhou como community manager para a empresa e ganhou o prêmio de Muser do Ano em 2016 na categoria masculina. Atualmente, ele tem 1,5 milhão de seguidores no app.

Para ele, não restam dúvidas sobre o sucesso que o v2 pode atingir ou até superar em comparação com o Vine, desde que a rede aposte nos criadores de conteúdo. “O Vine instigava criação e entretinha quem o assistisse de forma instantânea, se o v2 atrair e investir em criadores ele tem tudo para crescer mais que da primeira vez”, conta Pagani. Além disso, como sinalizam ambos o influenciador e professor da Faap, os nomes Dom Hofmann e Vine já são famosos, o que dá mais chances da nova criação vingar. “Se fosse um aplicativo independente e sem presença no mercado, seria muito mais difícil disputar contra os grandes”, afirma Messa.

Ainda que ao longo dos anos o conteúdo em vídeo tenha sido difundido em outras plataformas, o influenciador diz que o Vine deixou um vácuo pela sua instantaneidade, humor e leveza. “O Vine foi o primeiro app de videos curtos que viralizou e apresentou a maioria dos novos criadores da internet hoje. Nenhum dos outros apps conseguiu superar o sucesso que foi o Vine mundialmente”, diz o creator. Pagani avalia esse retorno como uma oportunidade para novos produtores de conteúdo que ainda não estabeleceram-se em uma rede social específica e, para os mais antigos, como uma nova forma de se desafiar a mostrar seu talento para um público novo.

Fernando opina que a aquisição do Vine pelo Twitter prejudicou o potencial da plataforma: “Dom Hofmann vendeu o Vine antes de seu lançamento para o Twitter. Com o sucesso do Vine em meio à crise do Twitter, o app foi deixado de lado e perdeu força, Dom assistiu o Vine morrer sem poder fazer nada naquela época. Ele aprendeu na prática muitas coisas nesse meio tempo, o mesmo aconteceu para os viners que mantiveram e aumentaram seu sucesso em outras plataformas. O v2 voltando e os viners levando seu público de volta junto com uma audiência curiosa e mais nova, que não conheceu o vine, tenho certeza que será um sucesso”.

Lucas Rangel, criador de conteúdo (Crédito: Reprodução)

“Não vou dizer que não voltaria, mas também não se tornaria minha principal rede”

Consolidado no YouTube com cinco milhões de inscritos, Lucas Rangel teve sua decolagem também no Vine. Hoje, ele participa de campanhas da Coca-Cola, McDonald’s e outros grandes anunciantes. Ele foi um dos influenciadores que mesmo com o Vine ainda ativo, se consolidou em outras redes que deram suporte a seus criadores de conteúdo. “Quando houve o anúncio do fim fiquei triste por conta das memórias e da trajetória (tanto que até salvei vários vines antigos), mas feliz por onde ele me levou”, diz.

Apesar de acreditar que sempre existe espaço pra novas redes sociais desde que caiam no gosto do público, Rangel não tem uma opinião formada quanto ao sucesso do v2. Ele diz que o diferencial do v2 será o limite de tempo estipulado para os vídeos publicados na plataforma, fora isso, o aplicativo pode sofrer forte concorrência principalmente com o Musical.ly e o Instagram. “O segredo do aplicativo não era postar vídeos, pois já existia o YouTube, e sim a magia de postar conteúdo em seis segundos. O Instagram tornou-se uma das principais redes para publicar vídeos”, conta.

Hoje, Rangel prefere apostar em plataformas que dialoguem com os influenciadores. “O segredo de toda rede social é ouvir seus criadores, eles que a alimentam e a mantém de pé”. Ele diz não saber se vai apostar no v2, mas essa não será sua rede principal novamente. Sua estratégia de conteúdo está voltada ao YouTube, onde, recentemente, produziu um reality show patrocinado pela Disney, Nestlé e o próprio YouTube. “Amo a rede e quero crescer nela cada dia mais”, afirma.

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