Produções estrangeiras no Brasil: o que querem os gringos?

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Produções estrangeiras no Brasil: o que querem os gringos?

Thiago da Costa, da Brazil Production Services, conta como é fornecer serviços a produtores americanos em busca de locações, equipes e apoio jurídico no Brasil

Karina Balan Julio
28 de janeiro de 2019 - 6h00

Bastidores de um episódio de Chef’s Table, com o chef Alex Atala, na Amazônia. Foto: Divulgação

Quem assistiu a “Vingadores: Guerra Infinita”, da Marvel, provavelmente não imagina que o planeta ficcional “Vormir”, retratado na trama, teve como locação a paisagem dos lençóis maranhenses, no Nordeste brasileiro. Também não deve imaginar que as gravações de Chef’s Table na Amazônia, com o chef Alex Atala, exigiram uma trabalhosa operação para levar a equipe e equipamentos  até as locações. Para a indústria audiovisual estrangeira, o Brasil serve como um terreno fértil para gravações de documentários, ficções e matérias jornalísticas de produtores de conteúdo gringos.

Pois foi pensando em abastecer o mercado estrangeiro interessado em gravar no Brasil, assim como o mercado brasileiro interessado em gravar nos Estados Unidos, que o produtor Thiago da Costa criou a Brazil Production Services (BPS). Enquanto a maior parte das produtoras aposta no lado glamouroso do audiovisual – concepção de projetos, propriedade intelectual e direção -, a BPS encontrou no fornecimento de serviços técnicos um filão lucrativo. Registrada oficialmente em 2015 e com sedes em Los Angeles, São Paulo e Rio de Janeiro, a empresa coordena produções estrangeiras pelo Brasil todo, fazendo a busca por locações e equipes técnicas, aluguel de equipamentos e a facilitação dos trâmites burocráticos para estrangeiros.

“Sou um produtor do tipo bucha de produção”, brinca Thiago, que tem cidadania americana e brasileira. Thiago começou sua carreira como cameraman em veículos como Fox News e Vice Media, e aos poucos foi rotacionando em diversas funções de produção. Entre as produções recentes intermediadas pela BPS, além de “Vingadores”, estão projetos como “Vai Anitta” e “Chef’s Table”, para a Netflix, “Catfish Brasil”, para a MTV; e o longa “Minha Vida em Marte”, com o comediante Paulo Gustavo. Em 2018, a BPS realizou cerca de 55 projetos e recebeu mais de 250 pedidos de orçamento. Na entrevista abaixo, Thiago da Costa conta como é trabalhar com o mercado estrangeiro.

M&M- Qual foi o contexto de criação da BPS? Por que decidiram focar em produções estrangeiras?

Me mudei para os Estados Unidos com 14 anos e comecei a trabalhar como fotógrafo aos 17. A partir daí nunca mais abandonei o audiovisual. Sou um produtor que transita entre o mercado americano e o brasileiro, e por conta da minha dupla cidadania acabei aprendendo sobre como os dois mercados operam. Já trabalhei como operador de câmera, como produtor de campo e na pós-produção em várias cidades do Brasil e dos EUA. Aos poucos comecei a vir para o Brasil com mais frequência, para desbravar o mercado brasileiro à pedido de clientes americanos. Percebi que eles tinham dificuldade de produzir no Brasil por conta da diferença de língua e cultura, entre outros fatores. Há mais ou menos dez anos soube que havia um fluxo anual entre 400 e 600 produções internacionais no Brasil, sendo muitas delas de pequeno porte, como pequenos documentários ou episódios isolados de reality shows. São produtos que não reverberam tanto quanto grandes produções e não movimentam tanto dinheiro quanto o mercado interno, mas é um mercado muito rico para quem quiser ser especialista.

“Alguns produtores americanos são super eficientes no seu trabalho, mas chegam aqui e não rendem tanto pois precisam falar com as pessoas e negociar”

M&M- Quais são as principais dificuldades dos produtores estrangeiros no Brasil?

Alguns produtores americanos são super eficientes no seu trabalho, mas chegam aqui e não rendem tanto pois precisam falar com as pessoas e negociar. Por conta da língua, eles já ficam mais rendidos. Eles também não têm o entendimento cultural de como o brasileiro pensa: o americano é mais objetivo, quer fazer uma ligação e resolver um problema, enquanto o brasileiro às vezes quer tomar um cafézinho e falar sobre a família antes de ir ao que interessa. Além da burocracia, pode existir essa confusão entre expectativa e realidade, se as coisas não forem amarradas direito.

M&M- Por que apostar em serviços técnicos como fonte de negócios, em vez de áreas criativas do audiovisual?

Há diferentes tipos de produtores. Eu gosto de pensar que sou do tipo “bucha de produção”, que é o cara que vai contratar 200 profissionais técnicos, atores e alugar o equipamento necessário. Algumas produtoras são peritas em lidar com atores e fazer a frente criativa de elaboração de conteúdo. Para muitas é mais vantajoso focar no topo da cadeia alimentar, que é produzir grandes séries e filmes com a ajuda de incentivos. Não desenvolvemos projetos e não trabalhamos com conceitos. Vendemos serviços e fazemos a parte “chata e sem glamour” para que o cliente atinja seus objetivos. Se o diretor quiser fazer um filme e precisar de um determinado ator, de um elefante rosa, de um fusca azul e de 10 pessoas na equipe, somos nós que transformaremos esta visão em um orçamento que entregue a concepção deste diretor. Não ditamos pautas e não chegamos nem perto de projetos especulativos, onde o cliente ainda está pensando no que vai acontecer. Nosso negócio é baseado em roteiros prontos e em dinheiro no banco.

“Não desenvolvemos projetos e não trabalhamos com conceitos. Vendemos serviços e fazemos a parte chata e sem glamour para que o cliente atinja seus objetivos” – Thiago da Costa

M&M – O que produções estrangeiras procuram no Brasil, e o que produtores brasileiros buscam no exterior?

Geralmente americanos procuram o Brasil por conta de elementos culturais e geográficos. Somos um país simpático para o mundo ocidental, e por isso acabamos fazemos muitos documentários sobre a natureza em paisagens brasileiras, como na Amazônia ou Pantanal, que podem parecer até meio batidos. Outras produções buscam alguns aspectos inusitados da nossa cultura. Fizemos, por exemplo, um documentário para a Netflix sobre peões boiadeiros [chamado “Fearless”], que é um tema bastante específico. Já as produções brasileiras que buscam os Estados Unidos costumam ser mais abastadas e com mais dinheiro para viajar, principalmente por conta do alto valor do dólar.  Em geral são longas ou séries encabeçadas por uma grande estrela, como foi o caso de “Minha Vida em Marte”, com o Paulo Gustavo.

M&M- Como é distribuída a receita da BPS atualmente?

Cerca de 80% de nossa receita vem de produtores estrangeiros que querem produzir no Brasil, enquanto mais ou menos 20% vem de brasileiros que querem gravar nos Estados Unidos. O fluxo do Brasil para os Estados Unidos tem crescido em importância, há alguns anos esta demanda era de 0%, mas ainda é um fluxo pequeno.

M&M- A BPS já produziu para empresas como Vice, Netflix, Google e Discovery Channel. Para quais tipos de produção a BPS tem sido mais demandada?

O fator Netflix é muito marcante e eles são grandes parceiros, já fizemos mais de 10 produções no Brasil em parceria com a empresa. Temos feito muitos documentários premium, com uma pegada mais cinematográfica e onde as necessidades de execução são mais elevadas. Estamos estudando entrar no formato de publicidade, embora este já seja um mercado bastante tomado por grandes agências e empresas dominantes, e por isso é mais difícil entrar nesta área.

 

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