Google e Facebook reagem à proposta de lei australiana

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Google e Facebook reagem à proposta de lei australiana

Projeto quer fazer empresas de tecnologia pagarem pelo conteúdo jornalístico em suas plataformas

Thaís Monteiro
3 de setembro de 2020 - 6h00

Um projeto de lei em discussão na Austrália implica que as empresas digitais, como Google e Facebook, devam pagar aos publishers pelo compartilhamento de notícias nas suas plataformas. Se aprovado, o Facebook afirmou que deixará de permitir que usuários publiquem notícias nacionais e internacionais no Facebook e Instagram e proibirá páginas de publishers nas redes.  O Google diz que o desfecho pode piorar os resultados das buscas na Austrália.

 

Empresas argumentam que publishers menores se beneficiam da visibilidade nas plataformas (Crédito: Matthew Guay/Unsplash)

De acordo com o Facebook, essa é a última escolha da companhia, mas seria a única forma de se proteger contra “um resultado que desafia a lógica e vai prejudicar, a longo prazo o setor de notícias e mídia da Austrália”, diz o comunicado assinado por Will Easton, diretor-geral do Facebook na Austrália e Nova Zelândia.

Já o Google afirmou que o projeto os obrigaria a oferecer resultados de busca dramaticamente piores e colocaria serviços de notícias gratuitos em risco na Austrália, além de fazer com que a companhia fornecesse dados para grandes empresas de mídia. Apesar disso, a empresa não anunciou nenhuma medida imediata de restrição.

“Essa lei não afetaria apenas a maneira como o Google e o YouTube trabalham com empresas de mídia de notícias — isso afetaria todos os nossos usuários australianos, por isso queríamos que você soubesse. Vamos fazer tudo o que pudermos para que essa proposta seja alterada para que possamos proteger a forma como o Search e o YouTube trabalham para vocês na Austrália e continuar a construir parcerias construtivas com empresas de mídia de notícias — não escolher uma em vez da outra”, diz Mel Silva, managing director do Google na Austrália, em comunicado.

A proposta de lei, liderado pela Comissão Australiana de Concorrência e Consumidores, foi submetida em decorrência da queda nas receitas de empresas de mídia devido ao número mais baixo de assinantes e migração de anunciantes para empresas digitais. Na Austrália, um terço do investimento em publicidade é destinado ao Google e Facebook. O projeto propõe que essas big techs paguem às empresas de mídia pelo conteúdo postado em suas plataformas e que os acordos podem ser definidos individualmente ou coletivamente.

O parlamento deve dar seu parecer sobre a proposta até o final do ano. Os players de tecnologia acreditam que uma negociação com os publishers e o governo seja mais válida do que a criação de uma proposta somente entre grupos de mídia e o governo.

O Facebook argumenta que a proposta não compreende a dinâmica da Internet e causará danos às próprias organizações de notícias que o governo está tentando proteger e que vai prejudicar a longo prazo o setor de notícias e mídia da Austrália.

Conforme comunica Will Easton, empresas de mídia optam por postar notícias no Facebook e incentivam seus leitores a compartilhá-las para ampliar a audiência de suas histórias. “Isso, por sua vez, permite que elas vendam mais assinaturas e publicidade. Nos primeiros cinco meses de 2020, enviamos 2,3 bilhões de cliques do Feed de Notícias do Facebook para sites de notícias australianos sem nenhum custo – um tráfego adicional estimado em 200 milhões de dólares australianos para publishers no país”, detalha.

O executivo ainda afirma que a suposição da comissão de que o Facebook se beneficia do compartilhamento de notícia é falsa, pois notícias são uma fração do conteúdo que o público vê em seu feed de notícias e não representam uma fonte de receita significativa.

Histórico
O Facebook tem um histórico de pequenas divergências com publishers por conta de mudanças do algoritmo da plataforma. Em junho de 2016, a rede passou a priorizar postagens e compartilhamentos feitos por amigos e familiares em detrimento do conteúdo de páginas, o que diminuiu o alcance de publishers. Empresas de mídia, então, passaram a adotar estratégias que as fizesse menos dependentes da plataforma.

Apesar disso, ao longo dos últimos anos, a big tech tem investido em workshops, treinamentos e programas de apoio a empresas jornalísticas. Talvez o maior esforço nesse sentido foi o anúncio, em agosto, da expansão do Facebook News, página que concentra conteúdos jornalísticos e que remunera veículos de imprensa lançada em 2019 nos Estados Unidos, para garantir que o conteúdo seja disponibilizado na ferramenta. O Brasil, inclusive, está na rota de lançamento.

De acordo com o diretor-geral do Facebook na Austrália e Nova Zelândia, o plano era trazer o serviço para a Austrália. Se aprovada a nova lei, o projeto não deve ser implementado no país. De acordo com Facebook e Google, as empresas já investiram milhões de dólares em empresas de notícias australianas e ofereceram investir mais um montante quando as discussões sobre a legislação começou a ganhar fôlego. O Facebook News seria uma resposta a esse anseio que o Facebook vê com legitimidade, porém aplicado de forma errônea pelo governo australiano.

“Compartilhamos do objetivo do governo australiano de apoiar organizações de notícias em dificuldade, principalmente jornais locais, e nos engajamos amplamente com a Comissão Australiana de Concorrência e Consumidores (ACCC, em Inglês), que tem liderado esse esforço. Mas sua solução é contraproducente para esse objetivo. A lei proposta é sem precedentes”, declarou no comunicado. Corre-se o risco de que alguns dos projetos de incentivo e treinamento do Facebook seja interrompido no país a depender do desfecho da proposta.

A questão do investimento publicitário concentrado em ambas as empresas já é debatido em outros países. Em 2017, empresas de mídia dos Estados Unidos começaram a formar alianças para lidar com o “duopólio” da publicidade digital.

**Crédito da imagem no topo: Eugenesergeev/iStock

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