Keeta: demissões e mudança sobre a operação no Rio
Empresa da Meituan recua na capital fluminense e mantém foco na operação em São Paulo

Tony Qiu, presidente de operações internacionais da Keeta (Crédito: Breno da Matta)
A Keeta, da gigante chinesa Meituan, adiou por tempo indeterminado o lançamento da plataforma no Rio de Janeiro e demitiu cerca de 200 funcionários da equipe que mantinha na cidade. Os desligamentos ocorreram na quarta-feira, 4.
A decisão também levou ao cancelamento de um evento oficial de lançamento que ocorreria nesta semana com autoridades municipais.
Em nota, a Keeta afirmou que decidiu adiar a estreia na capital fluminense para concentrar esforços na melhoria dos padrões de serviço no mercado brasileiro antes de avançar com a expansão geográfica.
Segundo a empresa, a decisão também envolve a necessidade de enfrentar “questões estruturais que inibem a concorrência saudável no segmento de delivery no Brasil”.
“Em razão disso, a empresa realizou desligamentos na equipe localizada no Rio”, informou.
A companhia afirmou que manterá os cerca de 1.200 postos de trabalho existentes, concentrando o desenvolvimento das operações na região de São Paulo, onde estreou em novembro de 2025 e atua nas regiões de Guarulhos, São Bernardo do Campo, Santo André, Osasco, Diadema, Itaquaquecetuba, Barueri e São Caetano do Sul, e reiterou o compromisso de investir R$ 5,6 bilhões no País até 2030.
De acordo com a Keeta, os desligamentos ocorreram em conformidade com a legislação trabalhista e os funcionários receberam pacotes de indenização para apoiar a transição profissional.
Um vídeo que circula nas redes sociais mostra o momento em que parte da equipe recebe a notícia e reage à decisão da empresa. Nas imagens, trabalhadores demonstram revolta com o encerramento do projeto.
Em um dos trechos, uma funcionária afirma que deixou outro emprego após aceitar a proposta para integrar a operação da companhia na cidade.
“Eu larguei tudo por uma causa que vocês me chamaram naquele hotel, prometendo mundos e fundos, e aqui vocês estão rompendo com o que vocês prometeram. Isso não é uma empresa. Cadê a maior empresa do mundo? Cadê a empresa bilionária?”, diz a trabalhadora durante a reunião.
Disputa no setor
A decisão de recuar estrategicamente no Rio também está relacionada ao cenário de concorrência no mercado local de delivery.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, o CEO da Keeta, Tony Qiu, afirmou que cláusulas de exclusividade mantidas por plataformas dominantes, como iFood e 99Food, criam um ambiente de entrada mais desafiador do que o encontrado pela empresa em São Paulo.
“O cenário é ainda pior do que havíamos projetado, e pior do que encontramos em São Paulo”, afirmou o executivo ao jornal.
De acordo com Qiu, um mapeamento interno identificou cerca de 800 grandes redes de restaurantes no Brasil, das quais mais de 400 estariam vinculadas a contratos de exclusividade que impedem a atuação em outras plataformas.
Regulação
O mercado brasileiro de delivery é acompanhado de perto pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Atualmente, o iFood, líder do setor, opera sob restrições estabelecidas em acordo com o órgão, que limita a receita e a quantidade de restaurantes com contratos exclusivos por cidade.
Já a 99Food afirmou, em petição ao Cade, que seus contratos são legais, temporários e restritos a uma parcela reduzida do mercado.
A Keeta indicou que pretende intensificar o diálogo com o órgão regulador. Segundo Qiu, a empresa deve apresentar novos dados sobre o mercado do Rio de Janeiro ao conselho para discutir possíveis problemas de concorrência antes de considerar eventuais medidas judiciais.