79% dos painéis de creator economy tratam creators como empresas
Na terceira vez no festival, meu olhar é comparar creator economy, IA e novas gerações
Essa será minha terceira vez no SXSW e mais um ano acompanhando de perto a trilha de creator economy e os assuntos que atravessam new gen.
Diferente da minha primeira experiência, quando tudo era novidade, agora vou para Austin com um olhar comparativo. Já não se trata apenas de observar tendências, mas de entender como o sistema está evoluindo.
A edição de 2026 contará com 3.059 sessões em diversos formatos, como painéis (304), mentorias (472), workshops (57), apresentações (94) e keynotes (5). O volume reforça o papel do evento como um dos principais pontos de leitura sobre cultura, tecnologia e negócios.
No recorte geracional, o movimento é curioso. Em 2025, as palestras que mencionavam diretamente a GenZ tiveram uma queda de aproximadamente 63% e a Gen Alpha um crescimento 50% em relação a 2025. A queda no número de sessões focadas exclusivamente em gerações não me parece perda de relevância, pelo contrário, fico com a sensação que o debate amadureceu. A geração deixa de ser tema isolado e passa a estar diluída nas discussões estruturais sobre trabalho, inteligência artificial, economia e cultura.
O InstitutoZ, núcleo de pesquisa da Trope-se, analisou 397 atividades dentro de oito trilhas: Brand Marketing, Tech & AI, Creator Economy, Culture, Design, Health, Sports & Gaming e Workplace, para mapear necessidades básicas, megatendências, macrotendências e microtendências.
Entre as necessidades básicas, “autoaperfeiçoamento” aparece em 54 palestras (13%), refletindo a pressão constante por atualização em um mundo acelerado por IA. “Controle” surge em 37 sessões (9%), indicando a busca por previsibilidade em ambientes mediados por algoritmos. Já “segurança” aparece em 32 painéis (8%), com debates sobre deepfakes, mídia sintética e insegurança profissional.
A megatendência dominante será a integração da Inteligência Artificial na rotina, presente em 98 palestras ou 24% do total. A IA não aparece mais como ferramenta isolada, mas como camada que reorganiza busca, compra, produção e tomada de decisão. O debate deixa de ser experimental e passa a ser operacional.
No campo da Creator Economy, que contará com 34 palestras (contra 36 em 2025, uma queda de 6%), a necessidade básica foi “reconhecimento”, citada em 8 palestras (23,5%), indicando que criadores deixaram de buscar só alcance e passaram a disputar reconhecimento concreto como profissionais e autores. “Creator Inc.” foi a megatendência mais presente, com 27 palestras (79%), reforçando como os creators querem ser vistos como profissionais e empresas.
Entre as macrotendências, “Empreendedorismo” aparece com força em 15 palestras (44%). Por fim, a “M.E.O (consumidor-criador)” se destacou como microtendência em 14 sessões (41%), mostrando que para os creators produzir sozinho deixou de ser exceção e virou estratégia central, impulsionada por IA, ferramentas acessíveis e mentalidade empresarial.
Além desses recortes, a análise também aponta outras forças estruturais que atravessam o evento. Entre as megatendências mapeadas nas atividades, “poder às pessoas” aparece em 55 sessões (13%) e “era da cura” em 49 palestras (12%), indicando uma busca por autonomia, reconstrução de confiança e novas formas de desenvolvimento em um ambiente digital instável.
No campo das macrotendências, “novos modelos de negócios” surge em 62 sessões (15%) e “economia da experiência” em 60 (15%), evidenciando um mercado que tenta operar além da lógica exclusiva do tráfego, valorizando comunidade, vivência e credibilidade. Já entre as microtendências, “fandom 3.0” aparece em 24 palestras (6%) e “Verif-AI” em 22 (5%), reforçando que pertencimento e verificação se tornam infraestruturas de valor em um ecossistema saturado por conteúdo sintético.
O que me chama atenção este ano é que o foco deixa de estar apenas no comportamento das novas gerações e passa a estar na arquitetura do mercado. Modelos de negócio, experiência, trabalho híbrido com IA e verificação de informação aparecem como temas centrais.
O ponto, agora, é entender quais desses movimentos fazem sentido para o Brasil e quais ainda dependem de maturidade estrutural. Somos um dos países mais relevantes em consumo de redes sociais e influência digital, mas ainda estamos ajustando nosso modelo de profissionalização da creator economy.
Este ano, quero realmente avaliar se essa evolução de maturidade ainda é um ponto de discurso, ou se realmente as pautas de creator economy e novas gerações têm demonstrado avanços claros, com aplicabilidade prática e real. E, como nos outros anos, meu objetivo é traduzir o que se aplica para a realidade latina e como tangibilizar as conversas em pontos de ações para o mercado.