Brasil chega para negociar, não apenas para aprender
O Brasil se consolida como polo estratégico de exportação de cultura e propriedade intelectual para o mundo
O South by Southwest (SXSW) é o epicentro da convergência entre tecnologia e cultura. Contudo, sob a ótica de quem observa os bastidores das negociações globais, Austin torna-se algo diferente: um ambiente onde tendências viram conversas, e conversas viram transações. E o Brasil, apresenta um forte ativo à mesa: a Propriedade Intelectual (IP). Estamos deixando de ser apenas um mercado consumidor para nos tornarmos um polo estratégico de exportação de ativos intangíveis.
Historicamente, o capital estrangeiro interpretou o Brasil pela lente da escala de audiência. Os indicadores sustentam o interesse, afinal, o país detém a terceira maior base de usuários de redes sociais no mundo, com um tempo médio de conexão de 9h13 diárias — superando a média global em 39%, de acordo com dados da PWC e Hootsuite. Contudo, o que se observa agora é uma mudança na natureza desse interesse. O Brasil sempre foi visto como mercado de destino, onde o conteúdo chega. Agora, passa a ser visto como mercado de origem, onde o IP nasce.
A conversão de cultura em balanço financeiro
A redefinição dessa percepção encontra lastro em números que convertem cultura em patrimônio financeiro. A economia global de Mídia e Entretenimento projeta atingir US$ 3 trilhões até 2027, conforme o estudo Global Entertainment & Media Outlook da PWC, com o mercado brasileiro estimado em US$ 40 bilhões. O engajamento massivo do público local deixa de ser métrica social para tornar-se fundamento de valuation.
Estúdios globais não buscam mais apenas “distribuir” conteúdo em território nacional; eles buscam o controle das histórias, das comunidades e dos direitos autorais que nascem aqui. Esse fenômeno acompanha a massificação da cultura latina, que vê no Brasil a próxima fronteira de ativos intangíveis após a consolidação dos mercados hispânicos.
A estratégia das gigantes é o controle total da cadeia de valor. Movimentações bilionárias de consolidação entre estúdios e plataformas de streaming — que buscam transformar distribuidores em proprietários massivos de IP —, simbolizam o ápice dessa jornada, como a aquisição da Warner Bros. por US$ 110 bilhões, concluída pela Paramount, por exemplo.
No setor musical, o movimento é análogo e agressivo. Empresas como Sony e Warner Music Group estruturaram veículos robustos, como o fundo de US$ 2 bilhões anunciado pela Sony em parceria com o GIC, dedicado exclusivamente à aquisição de catálogos e direitos fonográficos. O objetivo é claro: ser dono do “ouro invisível” que gera receita recorrente em streaming, licenciamento para IA e gaming.
Austin como mesa de negociações
Nos bastidores do SXSW, palestras são pretexto — o que move o evento são as conversas que acontecem fora do palco. O “Brasil Core”, essa identidade cultural exportável, está saindo do campo da estética para entrar nas planilhas de due diligence.
O Brasil não vai a Austin apenas para ver o futuro; vamos negociar a nossa parte nele. O mundo percebeu que a criatividade brasileira é um ativo de alto valor. Resta saber como nós, do lado de cá, vamos precificar esse protagonismo.