Como o avanço da IA está tornando a tecnologia mais feminina
IA triplica mulheres na tecnologia, que agora lideram a humanização da inovação com foco em diversidade.
Nós, mulheres, nunca nos interessamos tanto pela carreira em tecnologia como agora. Vamos pegar o exemplo do Brasil: um estudo inédito da Unico Skill, com base em dados do Censo da Educação Superior do Inep, mostra que o número de estudantes do sexo feminino em cursos de graduação em tecnologia mais do que triplicou em 15 anos. Nenhuma outra área de conhecimento registrou um crescimento tão grande.
E mais do que interesse: as mulheres estão mostrando a que vieram. A programação do SXSW deste ano é uma mostra disso. A palestra mais aguardada, mais uma vez, é de uma professora (com A no final!): a futurista Amy Webb, que fez da interpretação do futuro um método de trabalho. Já faz anos que o mundo TODO para pra ouvir suas análises das tendências tecnológicas e dos sinais capazes de transformar negócios, economia e a sociedade. A programação em Austin também terá outras mulheres que estão ajudando a moldar o debate sobre novas tecnologias, como Timnit Gebru e Karen Hao.
E foi justamente uma nova tecnologia, a mais disruptiva desde a invenção da internet, que está por trás desse aumento do interesse feminino por chips, programação, robôs etc. Sim, estou falando da inteligência artificial. O estudo da Unico Skill mostra claramente como o início da popularização do ChatGPT, Claude, Gemini e outras ferramentas baseadas em modelos de linguagem fez disparar o número de matrículas em cursos relacionados. Até meados da última década, a quantidade de brasileiras estudando tecnologia vinha caindo ano a ano. Desde 2020, o crescimento anual é de dois dígitos!
E, acredite, esse interesse é ainda maior entre as mulheres que já estão no mercado de trabalho. Segundo o estudo, elas representam 40% de todos os brasileiros que fazem graduação, pós, especialização ou cursos livres em tecnologia por meio da Unico Skill. Isso é mais do que o dobro da proporção registrada no Censo do Inep (19%).
Não é coincidência que boa parte do grupo de profissionais que viajarão comigo para o SXSW seja composta de mulheres. Assim como eu, elas estão indo para Austin não apenas para entender o que está acontecendo no mundo de hoje, mas para participar das discussões que moldam o mundo de amanhã. E não há melhor momento para isso do que nesse início da era da inteligência artificial.
Em certa medida, a IA está “resetando” o conhecimento. Muitas das certezas acumuladas ao longo de décadas estão sendo reconfiguradas, e pessoas de diferentes áreas começam a partir de um lugar mais parecido: todas precisam aprender a trabalhar com essas novas ferramentas. Isso cria uma janela rara de oportunidade porque diminui a distância entre quem estava dentro e quem estava fora. Para nós, mulheres, que historicamente tivemos menos acesso e espaço na área de conhecimento, esse “reset” é a chance de influenciar em como a tecnologia é construída, para quem ela serve e quais problemas ela resolve.
É aí que as habilidades essencialmente humanas, que as máquinas não conseguem reproduzir, ganham ainda mais valor. Estamos falando de pensamento crítico, criatividade, empatia, capacidade de comunicação, entre outros. Ou seja, as soft skills, desenvolvidas com naturalidade pelas mulheres ao longo da vida, e que agora estão sendo aprimoradas de forma intencional. O estudo da Unico Skill mostra que esses cursos são os segundos mais procurados da plataforma, atrás apenas de idiomas. As mulheres estão trazendo para a indústria da tecnologia as competências que a era da IA mais valoriza.
É justamente nesse ponto que a discussão sobre diversidade e tecnologia se conecta à discussão sobre o futuro do trabalho. Quanto mais diferentes forem as perspectivas presentes nesse ecossistema, maiores são as chances de fazermos perguntas melhores, identificar riscos com mais rapidez e construir soluções que realmente façam sentido para todos nós, independentemente de gênero, raça, idade, cultura ou origem social.
Humanizar a tecnologia passa por isso. Não é torná-la menos avançada, mas deixá-la mais conectada à nossa realidade – já que, no fim das contas, o objetivo é (ou deveria ser) o bem-estar das pessoas. Em outras palavras: potencializar os impactos positivos e mitigar os negativos.
É por isso que os debates na SXSW serão tão relevantes. Em Austin, a grande pergunta sobre inteligência artificial não será apenas o que a tecnologia é capaz de fazer, mas como as pessoas vão trabalhar, aprender e evoluir ao lado dela. E quanto mais ampliarmos as vozes que participam dessa conversa, especialmente as femininas, maiores são as chances de construirmos uma tecnologia que não apenas transforme negócios, mas amplie oportunidades e gere impacto positivo para a sociedade. Algumas das mentes mais brilhantes da SXSW são de mulheres. E isso não é detalhe, é parte da razão pela qual o nível do debate é tão alto.