Conexão Austin

A fila é o produto

No SXSW, filas viram espaço de conversa e mostram o valor da fricção nas conexões

Fernando Figueiredo

Sócio e CEO da Bullet 13 de março de 2026 - 11h14

Cheguei no SXSW esperando palestras.

Encontrei filas.

Muitas filas. Filas que dobram esquinas. Filas sem sinalização. Filas que ninguém sabe bem onde terminam. Filas que, dizem os veteranos, fazem parte da experiência.

Os veteranos têm razão. Mas nunca foi tão fácil discordar deles.

O convention center que distribuía o fluxo não está mais lá. Tudo ficou concentrado num raio menor. E quando tudo se concentra, o caos se multiplica. Austin improvisou. O SXSW parece estar improvisando junto.

Falta sinalização. Falta organização. Sobra gente com crachá e sem direção.

Mas então aconteceu algo interessante.

Numa das poucas palestras que consegui assistir — e eu disse poucas, porque a logística levou a melhor em boa parte do dia — Kevin Ashton abriu com uma frase que parou a sala:

“Language did not give us stories. Stories gave us language.”

Ashton cunhou o termo Internet das Coisas, lá atrás no MIT. Hoje escreve sobre histórias. Sobre como o storytelling não é uma ferramenta da comunicação — é a origem dela. Não contamos histórias porque temos linguagem. Temos linguagem porque sempre contamos histórias.

A segunda palestra foi sobre solidão.

Sobre como, num mundo de conexão infinita, nunca fomos tão sós. Quarenta por cento dos adultos americanos se sentem sozinhos. Jovens preferem conversar com chatbots a lidar com a complexidade de uma pessoa real.

E aí veio o conceito que vai ficar comigo por um bom tempo.

Fricção intencional.

A ideia é simples. Brutal. E verdadeira.

No passado, conectar-se era difícil. Você escrevia uma carta. Escolhia as palavras. Comprava o selo. Ia ao correio. Todo esse esforço filtrava o que importava de verdade. A fricção tinha propósito.

Hoje, você pode falar com qualquer pessoa no mundo em três segundos. E não fala com quase ninguém. A facilidade eliminou a intenção.

Conexão sem fricção é só ruído.

Parei na fila e olhei para os lados.

À minha esquerda, um cara de São Paulo. À direita, uma mulher de Lagos. Atrás, dois founders de algum lugar da Europa que não entendi direito.

A fila era péssima. A conversa foi ótima.

É possível que o SXSW saiba muito bem o que está fazendo.

A bagunça não é um bug. É o feature.

A fricção não é um problema de organização. É o produto.

Porque foi na fila que troquei o cartão. Foi no corredor que ouvi a ideia mais interessante do dia. Foi no caos que surgiu a conversa que, numa sala organizada, com assentos numerados e wifi perfeito, nunca teria acontecido.

Kevin Ashton estava certo. As histórias não nasceram da linguagem. Nasceram da necessidade de contar o que vivemos para alguém que ainda não viveu.

Essa necessidade começa, às vezes, numa fila.