Não é sobre o futuro como muitos pensam
Criatividade deixa de ser produzir e passa a ser escolher e dar sentido ao excesso de possibilidades
Esteja preparado! Vamos entender o que já aconteceu e ninguém percebeu!
Todos os anos, antes do SXSW, surge a mesma pergunta: o que vamos ver no festival este ano? Quais serão as tendências.
Quais tecnologias vão dominar as conversas. Qual startup vai explodir? Qual plataforma vai redefinir a comunicação? Quais palavras novas vamos repetir nos próximos meses.
É um ritual previsível. E, talvez por isso mesmo, profundamente enganoso para aqueles que só repetem e não refletem.
Depois de alguns anos passando pelo festival entendi que o SXSW nunca foi uma vitrine de tendências. Sempre foi um radar de confirmação. Quando algo aparece em Austin, na verdade já está em curso há algum tempo. O festival não revela o futuro; revela aquilo que já começou a acontecer e ainda não conseguimos interpretar completamente.
Por isso, talvez a pergunta mais honesta sobre o SXSW 2026 não seja o que veremos lá. A pergunta é outra: o que já mudou no mundo e ainda não estamos conseguindo enxergar (ou está difícil assimilar)?
E, olhando para este momento específico da história, suspeito que estamos diante de algo muito mais radical do que uma nova tecnologia, uma nova plataforma ou um novo modelo de negócio. Estamos diante de uma mudança na própria natureza da criatividade, da comunicação e da tomada de decisão e isso já vem se mostrando, mas confesso que estou curiosa para ver como isso se apresentará esse ano.
O fim silencioso da ideia de “tendência”
Durante décadas, festivais como o SXSW funcionaram como radares de tendências. Sim eu adoro essas sessões, mas as salas menores, acabam atraindo a atenção. Grandes palcos nos dão uma lista relativamente clara do que observar nos próximos anos, de social media, ao streaming, da creator economy passando pela Web3, chegando até realidade aumentada e a Inteligência Artificial.
Vivemos hoje em uma realidade em que tecnologias evoluem mais rápido do que nossa capacidade coletiva de transformá-las em narrativas. O ciclo entre invenção, adoção e saturação ficou curto demais. Quando uma tendência chega ao palco, ela muitas vezes já está madura demais.
Talvez por isso embarca para o SXSW 2026 menos curiosa sobre descobrir o próximo grande tema e mais sobre perceber que entramos em uma era em que tendências deixaram de ser o principal motor de transformação e atitude e comportamento passam a ser decisivos. O que está mudando agora não é uma tecnologia específica. É a própria relação entre humanos e sistemas inteligentes.
Durante décadas, a indústria criativa operou sobre um pressuposto simples de que ideias nascem de pessoas. Ferramentas ajudavam. Softwares ampliavam possibilidades. Plataformas distribuíam conteúdo. Mas, no fundo, criatividade era vista como algo profundamente humano. Esse paradigma começou a se dissolver, mas não deveria.
Hoje, textos podem ser escritos em colaboração com máquinas. Imagens podem ser geradas instantaneamente. Campanhas podem nascer de prompts. Estratégias podem ser sugeridas por sistemas treinados com bilhões de dados.
Não se trata apenas de automação criativa. Trata-se de algo mais profundo. A autoria começou a se tornar híbrida e de verdade perdeu a graça, pois nos perdemos nesse processo. E só para esclarecer, não sou contra a IA, até porque trabalho com ela diariamente, eu só vejo que estamos usando e esperando coisas que distorcem a realidade.
Se a última década foi marcada pela disputa por atenção, a próxima pode ser marcada por algo ainda mais sensível, que é a disputa por quem controla as interfaces de pensamento assistido. Motores de busca já organizavam informação, plataformas já organizavam conversas, agora sistemas começam a organizar raciocínios, comportamentos e ação.
Quando um executivo pede a uma IA para analisar um mercado, quando um criativo pede ideias para uma campanha ou quando um estudante pede ajuda para estruturar um argumento, algo novo acontece. A máquina deixa de ser ferramenta e passa a participar do processo mental, isso cria uma camada de poder tecnológico que ainda discutimos pouco. Quem controla esses sistemas? Quem define seus parâmetros? Quem molda os dados que alimentam esses modelos?
Essas perguntas raramente aparecem em painéis, mas talvez sejam as mais importantes da próxima década trazendo um novo paradoxo da criatividade
A promessa da Inteligência Artificial era libertar as pessoas para serem mais criativas, mas conseguimos inclusive confundir esse conceito, e no final como nunca foi tão fácil produzir ideias, imagens, conceitos e narrativas e quando todos podem gerar ideias instantaneamente, o valor da ideia muda e criatividade passa ser o que?
Criatividade deixa de ser apenas gerar algo novo. Passa a ser sobre saber escolher, interpretar e dar sentido ao excesso de possibilidades. A escassez não está mais na produção e sim na curadoria. Certa vez eu tive um professor que me disse, “busque explorar o que você não sabe sobre o que você sabe e saber que existe muito que você não sabe que não sabe.” Parece um jogo de letrinhas, mas leia novamente e quando você entender isso o seu universo se amplia e a sua capacidade de criatividade e curadoria também.
Talvez o criativo do futuro não seja apenas quem cria, será quem consegue discernir.
O SXSW sempre foi um festival curioso porque mistura tecnologia, cultura, negócios e comportamento de forma quase caótica, rola tanta coisa ao mesmo tempo que isso acaba deixando ele legal. Confesso que sinto falta de mais diversidade, mas, ainda assim, gosto do clima e de como me sinto quando estou por lá.
Se observarmos com atenção o SXSW 2026, talvez percebamos algo interessante e o que percebo é que o festival passou a refletir um momento em que várias transformações estruturais começaram a acontecer ao mesmo tempo.
Inteligência artificial, interfaces cognitivas, mudanças culturais, novos modelos de criação e novas disputas de poder tecnológico. Nada disso é exatamente novo, mas a combinação dessas forças talvez seja.
Estamos preparados para um mundo onde pensar deixou de ser uma atividade exclusivamente humana?
Essa não é uma pergunta sobre tecnologia. É uma pergunta sobre cultura, sobre educação. sobre liderança, pessoal e como tudo isso junto e misturado vai aterrizar nas próximas semanas e meses.
E se puder deixar um recado, mais importante que qualquer apresentação, gravação ou documento, foquem na IA – Intenção para Ação.