Conexão Austin

Nunca estivemos tão conectados e tão pouco acessíveis

O maior festival de inovação passou metade do tempo pedindo para largarmos a tela — e isso me fez rever o ROI

Marcela Lanna

Head de Mídia, Dados & Growth da Volkswagen 15 de março de 2026 - 12h55

Chegamos à metade do SXSW. E aquela ansiedade deu lugar a uma sensação diferente.

Entre dezenas de palestras sobre IA, marketing, comportamento e educação, vemos uma linha conectar tudo: a necessidade de voltar ao contato humano.

Não é um manifesto, nem uma revolução. É um alerta.

Quanto mais a tecnologia avança, mais o festival pede pra gente voltar ao básico. Antes que vire uma cena de Exterminador do Futuro, já estamos vivendo o que assistimos em Her em 2013.

Seguindo no clima de cinema, tive o prazer de ver a palestra do Steven Spielberg. Ouvir ele confessar que teme mais a inteligência artificial do que os alienígenas que ele tanto ama filmar foi forte.

E por falar em Her, Spike Jonze, o diretor do filme, subiu ao palco com a renomada psicoterapeuta Esther Perel. Ele contou que não escreveu Her como ficção científica. Escreveu sobre solidão, sobre o medo de se conectar de verdade. Esther completou com essa frase que ficou na minha cabeça: “nunca estivemos tão conectados e tão pouco acessíveis”.

Em outras palestras, ouvi pesquisadores nos lembrar que conexão social não é um luxo, é uma necessidade biológica.

O maior festival de inovação pedindo pra gente largar a tecnologia. Tem uma ironia bonita nisso, né?

Tá, mas vamos falar um pouco do lado do marketing nisso tudo.

A especialista em ciência comportamental Nancy Harhut trouxe um dado que me chamou a atenção: 95% das nossas decisões de compra acontecem no subconsciente.

Noventa e cinco por cento!

Ela explicou o conceito de “social proof”: nosso cérebro busca atalhos de confiança. Se vemos alguém que admiramos usando algo, nosso subconsciente interpreta: “ok, isso é seguro, isso é bom”. Não é uma decisão racional. É um instinto.

E foi ouvindo tudo isso que eu comecei a pensar no nosso dia a dia. Se quase tudo o que move uma pessoa a escolher uma marca acontece na confiança, na conexão, no pertencimento, por que o ROI do mês virou a única régua que importa?

Como a gente mede conexão? Qual é o CPA do “sentimento de pertencimento”? O trabalho de construção de marca, aquele que vai se construindo na cabeça das pessoas ao longo do tempo, não cabe no resultado do mês. Mas é o que faz uma marca durar.

Eu não tenho a resposta. E acho que ninguém aqui tem. Entendi que o maior desafio para marcas não é só tecnológico, como cheguei aqui achando que seria. É filosófico. É encontrar um novo jeito de medir o que realmente importa.

O trabalho de verdade não é decifrar a IA. É decifrar o valor da conexão. E isso, nenhum agente vai fazer por nós.