Conexão Austin

O SXSW que conhecíamos acabou?

Entre marcas, mídia e entretenimento, o festival parece viver uma mudança de identidade

Natasha de Caiado Castro

CEO da Wish International e Founder do Grupo 13 de março de 2026 - 11h25

Como assim? SXSW em Las Vegas??

Pois é.
O boato que povoava as pequenas rodas foi engrossado pela deliciosa revista Texas Monthly.

Ja sabemos que Hugh Forrest, curador do caos criativo naquele que talvez seja o lugar mais gostoso de se passar março . Nossa “Disney dos intelectuais”.
O Genio que por mais de 30 anos foi a alma do evento que traduz tendencias e alimenta a nossa criatividade por meses .
Ele usava sua percepção quase antropológica da comunidade SXSWana , como termômetro e balizador para definir temas e tendencias
Mas foi demitido ano passado e não pode falar a respeito.

Sabemos que o Convention Center foi demolido, o templo kitsch onde nerds, hipsters, acadêmicos, executivos , founders, artistas e curiosos coexistiam e coabitavam fora do universo digital

Tambem tenho visto guinadas onde o artesanato intelectual, aquelas pequenas bolhas isoladas em distancias geográficas significativas se encontravam em Austin e nasciam as grandes tendencias na minha frente, no meu nariz .
Tudo isso foi sendo substituído por grandes marcas com lindas ativações de mkt, que mostram seu punch mas viram distração para a futurologia .

Ate onde entendo, a mudança começou quando a Penske Media Corporation, comandada por Jay Penske, comprou um tantão do evento.
O pulo do gato esta no fato dele tambem ser o dono do Rolling Stone, Variety, The Hollywood Reporter, Billboard, Deadline e ter outro tantao do Cannes Lions.
Traduzindo: SXSW agora faz parte de uma engrenagem internacional de mídia, conteúdo e entretenimento.
Calma , ja amarro tudo … chego la …

Primeiro vamos relembrar a historia de SXSW ?
Era uma vez um festival de musica
Deliciosos bares de uma cidade country, filas e filas e a sensaçao de que algo novo iria brotar nas esquinas da 6th street.
Tudo bagunçado, misturado improvisado . Um laboratorio cultural.

Dai chegaram os techies. Era hacker, investidor, jornalistas, geeks para todos os lados. As marcas começaram a abrir os olhos e investir de forma timida e engraçada. Foi ai que comecei a trabalhar no festival, levando as marcas dos meus clientes para ativar consumidores ha uns 15 anos. O festival virou o centro Mundial de detecção de tendencias … eu encontrava as pessoas sussurrando “voce sabia que …” e seguido de uma pérola.
Desde tendencias reais a teorias do caos.
A criatividade tinha solo fértil nos participantes.
Todas as ideias eram testadas e saiam dali para o mundo.
What’s the next big thing ?

Depois da Pandemia, as big techs tomaram conta, grandes ativações, marcas globais e ate governos (meu deus, o espirito que era anarquista ) descobriram e passaram a usar SXSW como plataforma de alcance de consumidores

Então, exercendo aqui meu direito de futurologista amadora, projeto o que pode vir pela frente neste novo cenario.

Aquele SXSW das bandas em bares, das filas intermináveis, do networking espontâneo com os malucos …

Aquele em que eu saía de uma palestra sobre psicodélicos & judaísmo e entrava em outra sobre política internacional. Corria para pegar o finalzinho da Amy Webb e dar tempo de assistir os sinos asiáticos na igreja abandonada antes da palestra feminista que antecedia a palestra sobre espionagem e terminava no Pete’s.
Tudo vira programa instagramàvel . Um grande território de ativações de marcas globais. Onde tenho que criar “lookinho” para sair na rua ?

Menos caos criativo.
Menos diversidade antropológica espontânea.
Menos encontros improváveis.

Será que estou vendo um entubamento massificado de marcas ocupando espaço do artesanato intelectual ? Ou è paranoia de quem viveu a epoca de laboratorio cultural ?

Esta o glamour do entretenimento e o reinado da necessidade de dopamina devorando a legitimidade da FOMO? (Fear of Missing Out)

E aí vem a pergunta de uma SXSWer Roots …

Poxa… Logo Las Vegas?
#voltaHughForrest