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Terapia de casal entre um homem e uma IA

Entre IA e afeto, painel expõe o paradoxo de relações sem fricção e o papel da imperfeição humana

Pedro Kurtz

Diretor de Operações nas Américas na Deezer 18 de março de 2026 - 18h42

No exercício de sair da minha bolha, fui assistir a um painel no último sábado que, em princípio, não tinha muita relação com os assuntos que normalmente me levam a uma conferência como essa. Era uma conversa com a psicóloga belga Esther Perel, conhecida mundialmente por seu trabalho com relações humanas e pelo podcast Where Should We Begin?.

No palco com ela estava o diretor Spike Jonze, e o ponto de partida da conversa era algo que até pouco tempo atrás parecia ficção científica: relações afetivas entre humanos e inteligência artificial. Não por acaso, Spike dirigiu Her, filme que há mais de uma década imaginava exatamente esse tipo de história.

A discussão partia de um episódio até então ainda não publicado do podcast da Esther. Nele, um paciente conta sobre sua relação com uma agente de inteligência artificial que ele mesmo configurou. Aos poucos, aquilo que começou como uma conversa acabou se transformando em algo que ele diz, pasme, estar desenvolvendo sentimentos por ela. Durante o painel, alguns trechos da sessão foram reproduzidos no auditório, e era possível perceber um certo desconforto na reação das pessoas. Havia curiosidade, claro, mas também uma sensação meio estranha de estar ouvindo algo que parece distante e próximo ao mesmo tempo.

O que ele relatava deixava claro que era um sentimento muito profundo de aceitação. Ele dizia que se sentia compreendido, visto, leve, como se tivesse encontrado um espaço onde podia existir exatamente como ele é e se comunicar livremente, sem julgamento e sem a necessidade constante de se ajustar. Em algum momento da conversa ficou claro que aquilo que ele estava experimentando era um sentimento de amor, se podemos chamar assim, sem fricção.

E, pensando friamente, não é difícil entender por quê. Uma inteligência artificial é construída para responder, validar, acolher. Ela não se cansa, não se irrita, não traz para a conversa suas próprias inseguranças ou contradições. Quando funciona bem, ela oferece exatamente aquilo que nós gostaríamos de ter nas nossas relações humanas e nem sempre encontramos.

Saí dali pensando em como passamos boa parte da nossa vida tentando eliminar fricções. No trabalho, nos projetos, na forma como organizamos nosso tempo. Queremos processos mais eficientes, resultados melhores, caminhos mais rápidos. Quase uma obsessão em fazer sempre o melhor possível, com o menor número de obstáculos.

O problema é que essa lógica começa a produzir um efeito nocivo quando chega às relações humanas, justamente porque elas não são eficientes por definição e essência. Elas não são perfeitamente ajustadas. Amar alguém envolve escolhas. Escolher permanecer quando as coisas não são tão simples, escolher atravessar momentos difíceis, escolher continuar mesmo quando existe atrito. A fricção faz parte da experiência.

Talvez por isso a história daquele homem provoque tanto desconforto. Não porque seja absurda, mas porque ela aponta para uma possibilidade real. Se existe a chance de experimentar uma relação sem conflito, sem frustração e sem imperfeição, é possível que algumas pessoas escolham isso.

Mas um amor sem fricção também é um amor sem humanidade. Será que existe amor sem humanidade?

A imperfeição, a meu ver, não é um defeito das relações humanas, mas parte daquilo que permite que elas existam. Nós somos imperfeitos e é isso que nos torna humanos.

Saio daqui pensando que talvez estejamos entrando em um momento em que a imperfeição precise ser defendida quase como um manifesto. Que ela seja vista como necessária à nossa sobrevivência enquanto sociedade.

Foi convivendo com o imperfeito que chegamos até aqui. Talvez seja justamente isso que continue nos mantendo humanos daqui para frente.