Refletindo com os Grackles
Entre tecnologia e tensão social, SXSW expõe limites da IA e reforça a urgência da resistência humana
Em Austin, tem um passarinho algazarrento chamado grackle. Ele anda em bandos e é o dono das ruas, dos parques, dos estacionamentos. Observá-lo nos gramados, saltitando nos galhos dos carvalhos-vivos, é um panegírico à liberdade de ir e vir.
Numa palestra sobre a resistência de líderes minoritários à brutalidade ignorante da polícia de fronteira e do ICE em Minneapolis, Austin e Filadélfia, uma senhora pegou o microfone: “Sou venezuelana. Saí do meu país porque não tinha trabalho. Tenho cidadania americana, mas me escondi no banheiro ontem, quando suspeitei de um controle no restaurante mexicano onde comia.” E, visivelmente emocionada, perguntou: “O que posso fazer? Me digam, o que faço?”. Enxuguei duas lágrimas e tive vontade de abraçá-la. Mais tarde, a grande Jane Fonda parafraseou a pequena Greta e, num brado inspirado, disse: “Quando começamos a agir, a esperança está em todos os lugares”. E, para lutar contra a repressão, a injustiça, a selvageria na Tailândia, na China, nos Estados Unidos, em outra sala, alguns palestrantes falavam de resistência encriptada em memes e metadados.
Procurei palestras sobre agentes de inteligência artificial que nos ajudem a lutar contra um mundo cada vez mais fragmentado e cheio de outro tipo de agentes: os da intolerância, da brutalidade e da ignorância. Não me parece que já tenham surgido empreendimentos que não tenham sido otimizados apenas para o engajamento, a velocidade e o lucro, mas também para a verdade, a liberdade e a sabedoria. Parece bem distante o tempo em que acreditávamos na internet como um espaço de redenção da opressão e dos desequilíbrios sistêmicos.
Mas achei muitos gritos de resistência no SXSW. Alguns mais políticos me deliciaram: Stacey Abrams, James Talarico e Kamau Bell; e outros mais filosóficos me confortaram: a inteligência artificial é uma ferramenta fabulosa, mas não irá roubar nosso futuro enquanto formos capazes de cultivar nossa sensibilidade e exercitar o músculo cerebral. Enquanto ainda soubermos interagir com troca de fluidos, valorizar o capricho, o detalhe e o esforço como na linda palestra de Greg Greenberg sobre seu trabalho para a Apple na TBWA\Media Arts Lab, dá para maravilhar-se.
Por vezes, soava apenas ansiolítico e, virada a página, tudo recomeçaria ainda mais distópico.
Mas hoje de manhã acordei muito cedo para voltar para casa. Mais cedo do que precisava. Eu queria correr na praça do Capitólio, sem fone de ouvido. Eu queria ouvir os grackles despertando o céu com seus cantos articulados e estridentes. Parei e deitei-me na grama gelada. Tomei tempo para dialogar com eles.
Enquanto não sucumbirmos ao fácil, ao rápido, à performance vulgar, em detrimento da originalidade, do olhar oblíquo e do charme, ainda há muito o que fazer.
Enquanto resistirmos à tentação dos entorpecentes da inteligência, somos livres.