Apresentadoras maduras refletem sobre carreira e legado
Na segunda reportagem da série, Angélica, Sandra Annenberg e outras compartilham suas trajetórias e visões de entretenimento e jornalismo
Sandra Annenberg é, hoje, apresentadora do Globo Repórter, mas sua trajetória na televisão começou aos seis anos de idade. A mãe, radialista e produtora de TV, conseguiu o primeiro trabalho da filha num teleteatro na TV Cultura. Quando criança, ela a levava para o trabalho e Sandra brincava pelo estúdio, sonhando em um dia estar na televisão.
Antes de ser conhecida como apresentadora de telejornais, Sandra teve uma carreira como modelo e atriz, com atuação em novelas e séries como Tarcísio e Glória (1988), Pacto de Sangue (1989) e República (1989). Sua inserção no jornalismo ocorreu quando um produtor da Globo a chamou para ser a “moça do tempo” e, desde então, ela segue no ao vivo há 35 anos.
“Apresentei todos os programas jornalísticos da TV Globo. Todos, sem exceção”, conta Annenberg. Eles incluem Globo Rural, Jornal Hoje, Jornal da Globo, Fantástico, Bom Dia Brasil, Bom Dia São Paulo, SP1, SP2 e Jornal Nacional.

Sandra Annenberg, apresentadora do Globo Repórter (Crédito: Bob Paulino/Globo)
Angélica, apresentadora do Angélica Ao Vivo, no GNT, teve um começo semelhante. Iniciou na televisão ainda aos quatro anos de idade, onde atuava em novelas e comerciais. No início, tudo parecia uma grande brincadeira, mas ao chegar à adolescência, aquilo se tornou mais sério. Ali, ela entendeu que se tratava de um trabalho de verdade, com responsabilidades para além de si mesma.
Ser uma adolescente famosa não foi fácil, ela afirma. “Já é uma fase complicada por si só, e quando você vive isso publicamente, a cobrança interna fica ainda maior. E quando vem junto a pressão da mídia, dos fãs e do próprio trabalho, isso se intensifica muito.”
Do impresso à TV
Leilane Neubarth, Maria Cândida e Silvia Poppovic tiveram trajetórias diferentes. Maria nunca teve a ambição de ir para a televisão. Seu interesse era no impresso, onde estavam os profissionais que admirava. Na redação, no entanto, os colegas identificaram que ela tinha perfil para atuar na TV. “Aos poucos, fui fazendo testes, passei, e acabei entrando para a televisão quase por um empurrão do destino”, lembra.
Para Leilane, o objetivo sempre foi alcançar o maior número de pessoas como jornalista. “Naquela época, uma pesquisa do IBGE dizia que havia mais casas no Brasil com televisão do que com geladeira. Num país com tantos analfabetos e tanta desigualdade social, onde muitas pessoas não têm dinheiro para comprar comida, elas não vão comprar jornal. Então, se eu quisesse de fato me comunicar com a população brasileira, pensei que precisaria estar num veículo de massa”, diz.
A televisão surgiu para Leilane ainda na faculdade de jornalismo, em Brasília. Seu professor enxergou seu potencial para a TV e indicou que ela procurasse Toninho Drummond, à época diretor da Globo em Brasília. Ela bateu em sua porta e ele deu uma oportunidade de estágio.
Aos 20 anos, em plena ditadura militar no Brasil, Leilane iniciava sua carreira como jornalista. Um episódio marcante desta época foi logo no início, quando seu chefe pediu que ela entrevistasse o ministro do interior sobre uma rebelião indígena. “O ministro ficou vermelho, respirou fundo, mas respondeu. Quando cheguei à Globo, soube que ele tinha ligado e pedido minha demissão. Por sorte, meu chefe assumiu a responsabilidade, disse que a ordem tinha sido dele, e eu continuei”, lembra.
Leilane também apresentou diversos jornais da Globo: Fantástico, Globo Repórter, Jornal Hoje, Bom Dia Rio. “Fiz tudo, só não apresentei o Jornal Nacional. Ouvi que não tinha biotipo para aquilo, que eu era rebelde demais. As apresentadoras tinham cabelo liso, curto, eram morenas. Sempre tive cabelo cacheado, mas isso nunca me doeu. Ao contrário, me dava satisfação. Hoje essa visão mudou”, conta.
“Peguei todas as transformações tecnológicas: comecei com filme, passei para VT, fita, disco, cartão. Da máquina de escrever ao computador. De uma televisão engessada, que exigia blazer e imagem careta, a uma TV mais livre”, reflete Leilane. Em 2009, ela recebeu o convite para apresentar um novo jornal na GloboNews, a edição das 18h, que logo se tornou um sucesso de audiência, onde permaneceu por mais de uma década. Hoje, ela apresenta o Conexão GloboNews.
Pandemia e criação de conteúdo
Ao contrário das colegas, Maria Cândida teve passagens por diferentes emissoras, como SBT, Globo e Record, até oportunidades internacionais na CNN e na Bloomberg TV, nos Estados Unidos. No SBT Repórter, rodou o mundo com reportagens especiais: “Fiz a Rota 66 de Harley-Davidson, morei 10 dias no Xingu para mostrar a vida indígena de perto, percorri o Vietnã de Hanói a Ho Chi Minh e visitei os túneis subterrâneos usados pelos vietcongues na guerra”, conta a jornalista.

Maria Cândida, jornalista, apresentadora, criadora de conteúdo e CEO da Indira Filmes (Crédito: Divulgação/Thom Foxx)
Na mesma emissora, apresentou transmissões de prêmios como Oscar e Grammy, e teve a oportunidade de entrevistar celebridades como Brad Pitt, Meryl Streep, Sandra Bullock, Tom Hanks, Denzel Washington, Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, James Cameron e George Lucas. Na Record, atuou como repórter especial do Domingo Espetacular e como apresentadora do programa diário ao vivo o Programa da Tarde.
“Em 2009, tive um burnout, parei por dois meses e, nesse período, criei o formato do que realmente queria fazer: rodar o mundo entrevistando mulheres. Viajei por quatro meses, passei por 12 países e entrevistei 144 mulheres sobre a revolução feminina. Esse projeto marcou o início da minha investigação sobre o feminino, tema que sigo aprofundando até hoje”, afirma Maria.
Em 2019, começou a produzir conteúdo sozinha e lançou seu canal no YouTube. O formato chamou atenção de uma produtora da Globo, que a convidou para ser repórter do É de Casa, no quadro Sábado Curioso, totalmente produzido a partir de seu celular, e onde permaneceu até 2024. Desde então, ela segue na produção independente, com projetos pessoais que incluem livros, eventos e a própria produtora audiovisual, a Indira Filmes. Hoje, é pesquisadora de longevidade, palestrante e criadora de conteúdo focada na maturidade feminina.
Silvia Poppovic, por sua vez, iniciou a carreira no impresso e depois migrou para a televisão, quando o veículo ainda estava se consolidando como meio de comunicação no Brasil. Até então, a TV era marcada pelo entretenimento, e ainda era vista com certo preconceito por parte dos jornalistas. Aos poucos, os profissionais da imprensa tradicional começaram a migrar, e Silvia foi uma delas.
“Saí do Estadão, um jornal super tradicional, para fazer um programa vespertino voltado para mulheres. Só que, em vez de ficar restrita à culinária, que era o máximo que se fazia na época, começamos a trazer jornalismo ao vivo, com repórteres na rua, entrevistas e debates”, conta Poppovic.
Silvia passou por muitas mudanças na televisão, para além das transformações tecnológicas. Acompanhou quando a TV começou a mostrar o corpo inteiro dos apresentadores, ao invés de somente da cintura para cima. Esteve presente quando mulheres começaram a cobrir temas como política, economia e esportes.

Silvia Poppovic, jornalista e criadora de conteúdo digital (Crédito: Reprodução/Facebook)
Ela foi também uma das precursoras em falar sobre comportamento na televisão. Abordava temas como homossexualidade, ciúme e vida a dois em programas com plateia de até 400 pessoas. “Ajudamos a educar o público a falar desses temas em casa, em família, quebrando preconceitos que antes eram inaceitáveis no ambiente doméstico”, reflete. Foi também responsável por transformar a audiência feminina da tarde em público qualificado para os telejornais da noite, segundo Silvia.
Com a chegada da pandemia, aos seus mais de 60 anos, Poppovic foi afastada das gravações por segurança. Até chegou a fazer alguns programas em sua casa, com o celular, mas o formato não vingou. Apesar disso, a jornalista enxergou o momento como uma nova oportunidade. “No início, eu achava bobo. Falava com milhões na TV aberta, agora ia falar pelo celular? Mas deu certo. Mostrei meu cotidiano, minha casa, e o público conheceu uma outra Silvia”, conta.
Hoje, ela acumula mais de um milhão de seguidores no Instagram, além dos mais de 700 mil no Facebook, e se comunica com diferentes gerações de mulheres, das meninas jovens até as mães e avós que a acompanhavam na televisão. “Quem envelheceu comigo está vendo que é possível viver bem. E quem é mais jovem já não carrega essa barreira tão rígida da idade”, afirma.
Orgulho e legado
O envelhecimento na televisão nunca foi um problema para Silvia. “Sempre estive fora dos padrões. Eu era gorda, então meu diferencial nunca foi beleza. Sempre foi conteúdo, espontaneidade, repertório, a capacidade de falar sobre muitos assuntos e o bom humor. Foi isso que construiu minha carreira”, reforça a jornalista.
Sandra Annenberg também acredita que seu maior orgulho é a carreira que trilhou. “Mas, principalmente, ter conseguido me manter quem sou. Ou, talvez, no plural: me manter as pessoas que sou, as que fui, as que atravessei e a que sou hoje”, reflete.
Para Angélica, o legado que deixa é servir de referência para as próximas gerações femininas. “Comecei tão cedo na televisão e percebo o quanto minha imagem pode impactar positivamente a vida das pessoas. Gosto de poder usar a minha voz para comunicar coisas que realmente possam melhorar a vida delas, principalmente das mulheres e meninas”, ressalta.
Bagagens da maturidade
Apesar do estigma que ainda existe em torno do envelhecimento, essas apresentadoras destacam como a maturidade traz ganhos importantes tanto para a vida pessoal como para a profissional. Para Angélica, a segurança é um dos lucros da passagem do tempo. “A experiência traz segurança para se colocar mais e ter mais certeza daquilo que você pensa.”
“A maturidade também traz essa liberdade de não querer agradar todo mundo. O importante é estar conectado com a própria verdade. E isso a maturidade traz muito: a experiência do que já viveu, do que já fez, e essa segurança de ser quem se é”, continua.
Para além disso, a apresentadora salienta que a passagem do tempo também provoca uma vontade de retribuir. “A maturidade traz esse olhar mais coletivo e menos egoísta. Quando amadurecemos, e ainda mais quando temos filhos, passamos a ter uma visão mais ampla. Começamos a perceber que está tudo interligado, que é tudo uma coisa só e que não estamos sozinhos nessa loucura que é a vida”, acentua.

Angélica, apresentadora (Crédito: Bella Pinheiro/GNT)
Silvia enfatiza que o envelhecimento não significa fechar-se para o mundo, mas um momento muito oportuno para descobrir coisas novas. “O que importa é ter curiosidade e vontade de aprender. Não estou fechando, estou fazendo escolhas”, reforça. “Você entra numa fase diferente, com limites, sim, mas também com possibilidades. Pode ser uma fase muito rica se você souber fazer escolhas, respeitar seus limites e buscar o que ainda não viveu”, acrescenta.
Para Leilane, a maturidade trouxe uma visão mais aguçada para interpretar o contexto. “Claro, o envelhecimento faz a gente perder colágeno e massa muscular, mas dá tranquilidade, compreensão, calma e capacidade de observar o entorno”, pontua. “Aguça a perspicácia, a percepção das pessoas que estão ao seu redor, das coisas que estão sendo propostas, do que funciona ou não”, destaca a jornalista.
Sua habilidade de trabalhar em equipes também foi aprimorada com o tempo e, hoje, tem orgulho de ter uma relação próxima de amizade com os profissionais com quem trabalha. Além disso, a experiência trouxe outra competência importante: a capacidade de lidar com crises. “Já vivi tantas crises. Financeiras, emocionais, familiares, de amizade, de trabalho. Tantas que a crise deixou de ser uma coisa que assusta tanto. Hoje, tenho muito mais calma e capacidade de olhar para a crise, respirar e dar um ‘zoom out’”, pondera Neubarth.
“Misturei a ousadia e a naturalidade que tinha aos 20 e 30 anos com 46 de aprendizado. No começo, fazia muito no instinto. Hoje, avalio tudo ao meu redor com muito mais consciência e preparo para lidar com todas as situações que se apresentam, tanto na minha profissão quanto na minha vida pessoal”, acrescenta.

Leilane Neubarth, jornalista e apresentadora do Conexão GloboNews (Crédito: Globo/ Beatriz Damy)
Apesar da presença de mulheres maduras na televisão hoje, Maria Cândida acredita que ainda é preciso evoluir. “A representatividade ainda não reflete a realidade demográfica do país, onde as mulheres vivem mais, trabalham mais e seguem ativas por décadas após os 50”, reforça.
Para ela, existe uma infinidade de recortes dentro das mulheres maduras, de corpos, raças, realidades econômicas, orientações sexuais e histórias de vida. “A televisão ainda mostra um recorte muito estreito de quem é essa mulher.”
Cada uma dessas mulheres apresenta suas camadas, histórias e visões, mas juntas deixam um recado importante. Segundo Maria, seu cabelo branco na televisão é um ato político. “É uma forma de dizer que estamos aqui, que temos o direito de estar aqui e que podemos ser extremamente competentes nesse lugar, mesmo fora do padrão de juventude que sempre foi exigido”, finaliza.