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Opinião

Gênero, tempo e temporalidade

Vamos identificar, refletir e celebrar os ciclos temporais que já vivemos e ajudaram a nos tornarmos as mulheres reais que somos


19 de janeiro de 2024 - 6h22

(Crédito: Cristina Conti/Shutterstock)

Começo este ciclo na plataforma Women To Watch desejosa por reflexões mobilizadoras para nós, mulheres profissionais deste tempo. Conversar sobre temporalidade e ciclos é instigante, ainda mais no primeiro mês do ano, quando somos convidados a planejar e sonhar sobre o porvir.

Participei há alguns meses do Kess Summit, onde ouvi o jovem pesquisador Gustavo Nogueira discorrer sobre o tempo. Foi como uma alfabetização temporal. Ele explicou que temporalidade é um estado de existência no tempo, não é o tempo corrido, e que somos eventos no tempo. Se refletirmos sobre nós, mulheres, e nossa jornada profissional e pessoal, a forma como nós estamos acontecendo no tempo é o que nos constitui e edifica. A partir deste ponto de partida, penso que quanto maior o “tempo de relógio” (como se diz na Bahia), maior a probabilidade de ocorrerem oportunidades a serem vividas que agreguem experiência e senioridade aos nossos perfis e performances. E que belo é viver!

Por outro lado, segundo relatório sobre idadismo da OMS de 2022, a idade é uma das primeiras características, junto com sexo e raça, que notamos sobre outras pessoas quando interagimos com elas. O idadismo surge quando a idade é usada para categorizar e dividir as pessoas de maneiras que levam a perdas, desvantagens e injustiças, causando desgaste no relacionamento entre as gerações. O relatório ainda segue apresentando as dimensões do idadismo, que são o estereótipo, o preconceito e a discriminação, por meio de ações e comportamentos e que podem se manifestar de forma institucional, interpessoal ou contra si próprio.

Ainda não dispomos de muitas pesquisas e recortes transversais que incluam este aspecto da diversidade geracional nas organizações, mas existem algumas que ilustram bem a realidade setorial. Dados do Censo de Diversidade das Agências Brasileiras, conduzido pelo Observatório da Diversidade na Propaganda 2023, aponta que apenas 5% do quadro geral de funcionários nas agências no país têm 50 anos ou mais. E essa realidade acaba tendo um reflexo no conteúdo das campanhas entregues a esse público.

E aqui se aplica o mesmo lema utilizado pelas pessoas com deficiência, “nada sobre nós sem nós”, bastante escutado nos fóruns de Direitos Humanos. Ano passado, a Almap encomendou o estudo “A Revolução da Longevidade”, que corroborou, entre outras frentes, para a constatação de que as pessoas mais velhas não se sentem representadas pela comunicação, e que a propaganda está pensando nos mais velhos de um jeito velho, totalmente estereotipado, reforçando as dimensões alertadas no relatório da OMS.

Ora, a diversidade de profissionais é atravessada pela idade e precisamos olhar para este aspecto no mundo corporativo de forma muito séria. Estou falando de mulheres com 50+, cheias energia e sabedoria para compartilhar, iniciar e percorrer novos ciclos de projeto e de vida. Onde elas estão? Que movimento de carreira aconteceu na sua jornada enriquecida no tempo? A cultura de diversidade das organizações favorece o ambiente de trabalho para que elas permaneçam?

É contraditório reconhecer o valor da senioridade, aspecto tão rico e com potencial gigante de agregar resultados às organizações, mas o tempo cronológico que vem junto, com seus marcadores identitários, ser um fator que afasta a visibilidade e empregabilidade que naturalmente estas profissionais deveriam ter. São questões importantes a serem pensadas neste tempo que vivemos agora, pois no agora podemos agir.

Ainda no mesmo enredo, adiciono à reflexão sobre ciclos uma conversa despretensiosa que tive à beira da praia na virada deste ano com minha enteada psicóloga. Falávamos sobre a importância emocional do calendário existir e o quanto nos enchemos de esperança na virada do ano ou quando comemoramos aniversário, pois são momentos de reflexão e renovação de planos e sonhos, que o calendário nos presenteia. Também conversei com uma amiga que está próxima dos 50 e me revelou que “bateu o frio na barriga”. Acolhi. Não é bobagem esta sensação de medo e insegurança. Vivemos e somos influenciadas por uma sociedade que rotula e influencia por meio de diversas formas e canais a visão que temos de nós mesmas e do envelhecimento.

Precisamos nos ajudar, não é responsabilidade do calendário o desconforto emocional com a idade. Este desconforto é efeito também do idadismo sofrido que mencionei acima, muitas vezes velado, mas que diminui a autoestima e contamina a leitura de si própria. Outro aspecto que precisa ser incluído e respeitado e que, este sim, tem relação com o tempo cronológico para as mulheres cisgênero 50+, é a fase do climatério e todos os seus sintomas. Neste sentido, já existem empresas atentas a esta fase vivida pelas profissionais e que oferecem o apoio necessário.

Usemos o calendário para ter planos, sonhos e realizá-los no tempo. A Revista Forbes está na terceira lista de 50 mulheres que alcançaram sucesso após o 50 anos. São profissionais que conseguiram fazer com que as expectativas sociais não ditem as suas carreiras. A lista conta com diversas profissões. Além de CEOs, tem atrizes e até uma astronauta. Dar visibilidade a estas mulheres ajuda a criar referência e inspirar.

A literatura nos oferece uma série de trajetórias positivas. Só para citar algumas: Cora Coralina publicou seu primeiro livro aos 76 anos, assim como Conceição Evaristo, que só começou a assinar suas obras com 44 anos, e hoje, aos 77, segue em pleno exercício de sua capacidade lúdica e criativa. Não posso deixar de mencionar a Ana Fontes, 55, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, que impactou positivamente mais de um milhão de mulheres no Brasil.

E preciso reconhecer e valorizar igualmente outro tipo de conquista das mulheres 50+: aquelas que conseguiram romper com relações abusivas vivida por anos a fio, aquelas que iniciaram uma jornada de empreendedorismo para ter sua autonomia financeira, as mulheres que voltaram a estudar ou iniciar os estudos ou até aquelas que iniciaram prática de esporte buscando sua saúde, como minha tia Amalia, que aos 60+ passou a ser ciclista. Reverenciemos as mulheres 50+!

Vamos identificar, refletir e celebrar os ciclos temporais que já vivemos e ajudaram a nos tornarmos as mulheres reais que somos. Convido as mais experientes e as mais novas a se presentearem com o chamado tempo de qualidade, que nos permite momentos de mergulhos mais profundos para alimentar projetos profissionais eoe  pessoais, aqueles que falam para dentro e nos reformam intimamente. Não deixem o tempo passar sem que ele seja gentil com vocês!

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