Propósito é problema

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Propósito é problema

Quem ainda não tem um propósito sente-se ansioso para encontrar o seu. Mas, buscar um propósito que se encaixe em um resultado predefinido é inverter um pouco a ordem das coisas e, consequentemente, dificultar a sua busca


11 de setembro de 2018 - 12h00

Crédito: PeopleImages/iStock

Numa época em que até o saquinho de açúcar já vem com propósito estampado no verso, quem ainda não tem um propósito sente-se ansioso para encontrar o seu. Ouço de colegas, alunos e empresas descrições de seus desejos de ajudar as pessoas, melhorar o planeta ou deixar um legado: propostas admiráveis, humanas, nobres, mas frequentemente sem maiores detalhes táticos. Sonhos apenas, com pouca ou nenhuma definição de como ou quando irão se concretizar.

Isso é natural. É a nossa tendência de nos apaixonarmos pelo lado belo das coisas. Como o chef de cozinha argentino Francis Mallmann disse em uma entrevista sobre o início de sua carreira: “Comecei na gastronomia pelo teatro da coisa: as mesas, a decoração, a música, a alegria”. Todos nós já começamos algo pelo teatro da coisa: pensando no resultado final, na reação alheia, no impacto que gostaríamos de causar, no reconhecimento que gostaríamos de receber.

Buscar um propósito que se encaixe em um resultado predefinido, entretanto, é inverter um pouco a ordem das coisas e, consequentemente, dificultar a sua busca. Não que exista um processo para isso. Tampouco sou um especialista no tema. Mas compartilho aqui uma descoberta que mudou a maneira como vejo o assunto.

Apaixonei-me recentemente por problemas. Sim. Aquilo que todos nós temos de monte e que queremos nos livrar deles o mais rápido possível. Eles têm sido um alerta diário de que o eventual revés no meu dia a dia tem o potencial de se tornar uma pista para a minha vocação. Faça o mesmo. Olhe seus problemas com calma. Se prestar atenção, verá que são fascinantes: nem sempre são o que parecem, nem sempre são nossos, nem sempre possuem solução. Mas frequentemente escondem oportunidades.

Certa vez tive a honra de conversar com Nancy Koehn, professora da Harvard Business School, e ela me disse que “liderar é como trocar a fralda de uma criança: é feio, você pode se sujar, mas alguém tem de fazer”. Na época me pareceu uma frase de efeito para dizer que não há glamour na liderança. Com o tempo, entendi que a parte importante da frase é o seu final. E foi aí que os pontos se conectaram.

Perto de alguns problemas, não conseguimos ficar indiferentes. São como bebês que precisam da nossa ajuda: sentimos a urgência de agir. Esse pode ser o início da jornada. Pergunte-se: o que está errado ao seu redor e você quer e sabe como ajudar a corrigir? O que não está certo no seu ambiente de trabalho, na sua escola, no seu bairro?

Sua vida não tem problemas? Ótimo, resolva o problema dos outros. Do que seus amigos reclamam? Procure uma solução para isso. O problema que você encontrou é pequeno demais? Tudo bem também — o Google só queria ajudar as pessoas a encontrarem coisas na internet. E como saber se este problema é o problema da sua vida? Talvez não seja. Talvez seja parte de um problema maior e, este sim, seja aquele que você veio ao mundo para resolver. Confie no seu instinto e dê tempo ao tempo.

Tempo, aliás, será necessário. Energia e apoio também. Encontre pessoas que queiram resolver o mesmo problema e se prepare para trabalhar. Propósito não é o que você quer ser quando crescer. É o que você quer ser para crescer.

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